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2.2 Evolução histórica e definição do princípio do retrocesso social

2.2.2 Do alcance do conceito de retrocesso social

Muito embora os fundamentos contrários não sejam suficientes para embasar o afastamento de um princípio da proibição do retrocesso social, alguns dos argumentos lançados podem ser utilizados para se apurar a amplitude da proteção trazida pelo conceito de retrocesso social.

                                                                                                                         

182 NETTO, op. cit., p. 163. 183 CONTO, op.cit., p.94.

Em função do princípio da democracia (pluralismo político), que garante a discricionariedade do legislador na escolha das formas de concretização do direito fundamental social184, denota-se que a proteção contra o retrocesso não pode assumir um caráter absoluto, principalmente no que concerne às prestações. A ideia de uma proibição absoluta do retrocesso social vai de encontro à possibilidade de opções discricionárias por parte do legislador, promovendo um engessamento da função legislativa.

Ademais, a aceitação de um feição absoluta para a proibição do retrocesso social obstaculizaria a necessária revisão que é fundamental à atividade legislativa, além de impedir a constante reavaliação que deve ser realizada para implementação das metas de ação do Estado e para avaliação do desempenho das mesmas, para garantir a efetivação dos direitos sociais.185

Não se pode encarar a proibição do retrocesso como tendo a natureza de uma regra geral de cunho absoluto, já que não apenas a redução da atividade legislativa à execução pura e simples da Constituição se revela insustentável, mas também pelo fato de que esta solução radical, caso tida como aceitável, acabaria por conduzir a uma espécie de transmutação das normas infraconstitucionais em direito constitucional, além de inviabilizar o próprio desenvolvimento deste.186

Deste modo, diante da sistemática do Estado Democrático de Direito, motivador do princípio da confiança e da segurança jurídica, e da garantia da observância dos mínimos sociais alcançados dentro de uma máxima eficiência e efetividade das normas de direitos fundamentais sociais, é possível conferir a possibilidade de aplicação de uma reversibilidade relativa ao princípio da proibição do retrocesso social, adstrita, por óbvio, à total e irrestrita proteção ao núcleo essencial, este, sim, conforme já apontado, de caráter absoluto.

Por outro aspecto, a aceitação de uma visão relativa para a proibição do retrocesso social também acaba por liquidar o entendimento de que o princípio da proibição do retrocesso social encontra óbice no princípio da reserva do possível. Isso porque a interpretação da reversibilidade relativa do retrocesso social atende a perspectiva da realização de ajustes nos programas legais de forma a garantir o cumprimento da máxima

                                                                                                                         

184MARTINS, Patrícia do Couto Villela Abbud. A Proibição do Retrocesso Social como Fenômeno Jurídico. A Efetividade dos Direitos Fundamentais. Coord. Emerson Garcia. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004. p. 409. 185 SARLET, op. cit., p. 448.

eficácia possível dos direitos fundamentais dentro de uma limitação dos recursos financeiros, sempre pautado na busca pela garantia da proteção dos direitos fundamentais sociais já alcançados.

Em suma e até mesmo em função de classificação como princípio, a proibição do retrocesso social não pode assumir um caráter geral e absoluto, podendo o direito fundamental social ser objeto de revisões pelo legislador, como consequência de uma discricionariedade que é inerente à sua atividade.

A partir dessa primeira análise dos contornos do alcance do princípio da proibição do retrocesso social, é preciso apurar, portanto, a forma de se aferir os limites de aplicação deste princípio.

O principal alcance (e, consequentemente, objetivo) para a aplicação de uma proteção contra o retrocesso social é garantia do núcleo essencial, cujo conceito já foi visitado neste trabalho. Mesmo diante da admissão de um caráter relativo à sua observância, a proibição do retrocesso social vai até o limite da proteção ao núcleo essencial e ao nível de conformação por ele já assegurado. Assim, é o núcleo essencial e sua concretização a primeira barreira de vinculação do legislador para não realização de retrocesso social, uma vez que tal noção está intimamente conectada ao princípio da dignidade da pessoa humana.

Nessa medida, é preciso ter em mente que eventuais revisões não podem atingir o núcleo essencial do direito fundamental nem os mínimos de concretização já atingidos, sob pena de se caracterizar o retrocesso.

Superada a questão da necessária manutenção do núcleo essencial e do grau mínimo de conformação conseguido, outra forma de amplitude deve estar indispensavelmente vinculada à noção de proteção contra o retrocesso social.

É fato que a proibição do retrocesso social vai além das simples vedações a medidas retroativas trazidas pelos institutos da coisa julgada, do direito adquirido e do ato jurídico perfeito. Isso porque, conforme já incansavelmente mencionado, visa, primordialmente, à garantia da manutenção e efetividade dos direitos fundamentais sociais.

Dentro dessa perspectiva, toda e qualquer medida restritiva de direitos sociais deve ser encarada com reservas e sob uma presunção, ainda que relativa, de inconstitucionalidade, estando sujeita a um exame de justificativa e proporcionalidade, sempre à luz da dignidade da pessoa humana.187

Portanto, a proibição do retrocesso social alcançará a necessária averiguação, dentro da liberdade de escolha legislativa, da justificativa comprovável da alteração, considerando critérios de proporcionalidade e, sob nenhuma hipótese, poderá autorizar a modificação arbitrária, discriminatória ou ofensiva da garantia do direito a um mínimo de existência digna.

Toda e qualquer medida que apresente, ainda que minimamente, caráter retrocessivo, deverá ser constitucionalmente justificada, a partir da ponderação “entre a agressão (dano) provocada pela lei restritiva à confiança individual e a importância do objetivo almejado pelo legislador para o bem da coletividade”.188

Nota-se, por mais uma vez, a importância da utilização do critério da proporcionalidade dentro de uma concepção de efetividade de direitos fundamentais. Todavia, neste momento, a regra da proporcionalidade tem como função impedir a realização de uma proteção insuficiente ou incompatível com as exigências da garantia da dignidade da pessoa humana, garantindo a aplicabilidade do princípio da proibição do retrocesso social para esses casos.

Diante dessas considerações, tem-se que o alcance da proibição do retrocesso social atinge duas vertentes: a primeira, a própria noção de núcleo essencial e do nível mínimo de concretização do direito fundamental social já atingido, não sendo autorizada qualquer medida que viole esses parâmetros. E a segunda é a necessidade de justificativa constitucional da medida, de modo que seja feita a análise proporcional da viabilidade do retrocesso versus o bem da coletividade e a garantia de um padrão mínimo de continuidade da ordem jurídica, com vistas à preservação da confiança e da segurança jurídica.

Em última análise, a proteção contra o retrocesso social visa garantir que o Estado assegure “de modo eficiente – nunca menos do que uma vida com dignidade para cada

                                                                                                                         

187 SARLET. op. cit., p. 453-454. 188 Ibid., p. 456.  

indivíduo e, portanto, uma vida saudável para todos os integrantes (isolada e coletivamente considerados) do corpo social.”189