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III Parte

4  DO ALPENDRE INDIANO ALINDRA» À VARANDA COLONIAL

O papel de relevo que as varandas assumem como elemento estruturante na formação dos modelos de arquitectura indo-portuguesa, tanto civil como religiosa, levou-nos a dedicar-lhe uma especial atenção centrada nas suas interelações com a arquitectura indiana e europeia.

É particularmente significativo verificar-se que este espaço semi-aberto marcado por prumos ou colunas assentes sobre guardas, toma, hoje, na língua malaiala o nome de «veranda», sendo referido por linguistas e lexicólogos do Malaiala que a origem desta palavra é portuguesa335 . O sânscrito clássico inclui este termo, mas com um

significado totalmente diferente. Sebastião Dalgado, no seu livro sobre a influência do português nas línguas orientais335 , dedica um capítulo

especial a este vocábulo, salientando a sua origem portuguesa, contra a opinião de outros especialistas, que lhe atribuem uma origem persa ou sânscrita. Além da sua introdução na língua malaiala, Dalgado veri- fica o aparecimento e generalização da palavra na quase totalidade das línguas indianas, o que indicia uma influência portuguesa de fundo na arquitectura corrente da península Indostânica.

O problema reveste-se de outra complexidade quando consi- deramos o campo da arquitectura, dado que a tradição indiana incluía uma larga variedade de espaços semi-abertos, do tipo de galeria, pórtico ou alpendre de colunas, não parecendo óbvio numa primeira aborda- gem que a varanda, como elemento arquitectónico, tivesse surgido por influência portuguesa.

Nas traduções de tratados antigos de arquitectura indiana, es- paços vinculados a um sentido de galeria ou alpendre de colunas e aí designados, em sânscrito, por “alindra”, são traduzidos genericamente por varanda. De maior rigor metodológico, na tradução do Mayamata, realizada por Bruno Dagens, estes espaços designados por alindra são traduzidos, em francês, de uma forma mais criteriosa, por portique. A título de exemplo, o Mayamata prescreve, para a construção de pavi- lhões: “ um pórtico (alindra) pode ser colocado na frente, nas traseiras ou a toda à volta e a sua largura deve ser calculado a partir da largura e do comprimento do pavilhão ou do edifício. No entanto para os deuses, os brâmanes e os reis este pórtico (alindra ) deve ser disposto a toda a volta e ter a largura de uma unidade ou de uma unidade e meia”337 . Se

Bruno Dagnes opta pelo termo portique em vez de varanda, do nosso ponto de vista, o conteúdo da descrição, salientando um espaço aberto que se pode desenvolver ao longo das quatro fachadas, remete-nos para o termo português de alpendrada ou galeria.

As conclusões de Dalgado parecem assim entrar em consonância com o facto de nos tratados clássicos de arquitectura indiana o termo

veranda não existir e os espaços semi-abertos, sugerindo uma estrutura

de galeria ou de alpendrada assente em colunas, aparecerem referidos pelo termo alindra.

335Arackal, Francis - “The Influence...,” cit. supra , p. 453

336 Dalgado, Sebastião Rodolfo, 1913,

Influências do Vocabulário Português em Línguas Asiáticas, Coimbra, Impren-

sa da Universidade, pp. 158-161

337“Un portique peut être placé devant,

derrière ou tout autour et sa largeur doit être d’une unité calculée à partir de la longueur du pavillon.Cepandant pour les dieux, les brahamanes et les rois, ce portique doit être disposé tout autour et être large d’une unité et demie » in Da-

gens, Bruno – Mayamata..., cit. supra., 1º vol., p. 672

GALERIAEMFORMADEALINDRANO PALÁ- CIODE PADMANABHAPURAM. TRIVANDRUM

A um nível arquitectónico a adopção deste termo, na nossa perspectiva, tem a ver com a divulgação de uma nova tipologia espacial que, embora próxima da galeria ou alpendrada, se caracterizava por ser um espaço semi-aberto com colunas, mas repousando sobre um para- peito ou guarda de apoio. O hábito de sentar-se no chão implicava que os tradicionais alpendres ou galerias fossem desprovidos de guardas, assentando as colunas directamente no chão, como podemos observar em templos e palácios. A introdução do termo “varanda” nas línguas indianas corresponde à divulgação do uso de varandas, com uma guarda de apoio, facto inaugural nos hábitos desta cultura.

Porém, a vulgarização do termo varanda nas línguas indianas parece ligar-se, sobretudo, ao impacto causado pelo novo modelo de casa onde a varanda, alargando-se a toda a frente da fachada se afirma- va com um forte impacto visual, assumindo-se, em termos funcionais, como um lugar privilegiado de estar e estrutura fundamental de articu- lação de todo o programa arquitectónico. O antigo espaço de sala da arquitectura tradicional indiana – vasary –, localizado no interior da casa e aberto sobre um pátio, igualmente interior, deslocava-se para o exterior, constituindo-se a varanda “a modo de grande sala muito boa” como descrevia a annua dos inícios do século XVII, a propósito da casa paroquial da Missão de Arthunkal.

O uso do termo “veranda” na linguagem comum, sobrepondo- se ao termo antigo alindra e passando a designar, nas línguas indianas, preferencialmente, qualquer espaço semi-aberto com colunas, indicia de uma forma inequívoca, o impacto das novas tipologias arquitectó- nicas de influência portuguesa na arquitectura indiana, a que a história não tem dado a devida importância.

No entanto a marca deixada pela cultura portuguesa não é desconhecida pela historiografia do Kerala, como atesta um recente texto do historiador Jayaram Poduval, ao afirmar “As tradições artísti- cas trazidas pelos portugueses entraram tão profundamente na cultura do Kerala que hoje é difícil de distinguir o que é autóctone do que é influência exterior”338 .

Implícito neste texto estão as práticas construtivas e a introdu- ção, pelos portugueses, de argamassas de cal e pedra com forte impacto na casa tradicional do Kerala que, como observámos anteriormente sofre a partir do século XVI profundas alterações. Fora de um contexto da arte erudita dos grandes templos de época clássica, a falta de estudos sobre arquitectura tradicional indiana anterior ao perído colonial acaba por deixar cair no âmbito da arquitectura popular e vernácula tipologias e

338 «The art tradition brought by the

Portuguese entered so deeply into the culture of Kerala that it is difficult to distinguish between the indigenous and the foreign». Poduval, Jayaram «

Beginning of European Architecture in India », in India & Portugal Cultural Interactions, cit. supra., pp. 12-23

práticas construtivas de profunda influência portuguesa.

Podemos concluir, em última análise, que a originalidade e coe- rência formal com que se afirmam as tipologias e modelos arquitectóni- cos formulados no Sul da Índia tornam a arquitectura indo-portuguesa dificilmente redutível a um modelo homogéneo e coerente vinculado a partir de Goa. A arquitectura indo-portuguesa emerge num quadro múltiplo e complexo onde se sobrepõem tendências diversificadas que não se anulando, se entrecruzam e contaminam.

Se pensamos que através deste estudo emerge a importância e singularidade da arquitectura produzida por influência portuguesa na costa do Malabar e Kerala, o seu significado no contexto mais alargado do espaço do Império português desenha-se agora com outras perspectivas metodológicas. O nosso esforço de sistematização de fontes do século XVI e XVII com referências específicas à arquitectura, em paralelo com a elaboração sistemática de levantamentos arquitectónicos, constituem uma base sólida para estudos mais aprofundados sobre a arquitectura produzida, não só na extensão do Oriente português como nos seus percursos a caminho da África e do Brasil.

A emergência de centros regionais com produções artísticas de características singulares, como é o caso do Kerala, liga-se, sem dúvida, à especificidade da estrutura do Estado da Índia, que embora centrali- zado em Goa, se apoiava em comunidades polarizadas em estratégicas cidades-porto, que não prescindiam de uma grande liberdade de ac- ção e iniciativa. Estas comunidades desenvolveram, não só estruturas administrativas, redes económicas e comportamentos próprios, como uma arte que, afastando-se do discurso mais oficial de Goa, expressa uma outra realidade.

É, porém, no seu carácter inaugural e na sua notável origina- lidade como processo de miscenação que as novas tipologias agora reveladas adquirem um outro relevo, com implicações, não só, no alargando do conhecimento da arquitectura indo-portuguesa como da história da cultura portuguesa.