quais os participantes (de um evento interacional) tornam públicos uns para os outros este ordenamento e previsibilidade das interações” (Jordan
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
L: do cachorro “M” e “L” dizem quase ao mesmo tempo
Observe a sincronia verbal da díade, ao pronunciar, quase ao mesmo tempo, as palavras “do cachorro”. Além disso, percebe-se que esses parceiros interacionais utilizam turnos de fala alternados para complementar a narrativa do outro e conferir coerência à mesma. Esse episódio revela que a díade não centraliza a narrativa em um único interlocutor, mas desenvolve o que Marcuschi apud Koch (2003, p.80) denomina de atividade de coprodução discursiva, ou seja, engajam-se na produção do texto, sendo cooperativos, mas também conegociando e coargumentando, “a tal ponto que não teria sentido analisar separadamente as produções de cada interlocutor”. Isso se coaduna com a nossa argumentação de que a produção de sentido se constrói dinamicamente, por
intermédio de jogos de linguagem que são protagonizados por parceiros interacionais e que se transformam ao longo do tempo.
A díade após ter preenchido algumas lacunas da história, agora caminha para um padrão relacional em que a criança com deficiência mental elabora algumas críticas acerca de algumas posturas assumidas pelo parceiro interacional.
6.1.6 – Frame de crítica – díade 1
Episódio 6 – Frame de crítica da criança com DM ao parceiro interacional Marcação temporal: sessão 4 – (9:23 -:9:30)
Duração: 7 seg
Contexto:
Antes de iniciar o frame de crítica, o parceiro interacional encontra-se com as duas mãos sobre as coxas e as pernas para trás da cadeira. Olha na direção da criança com deficiência mental, que se encontra de costas para o parceiro interacional, põe a mão esquerda sobre a direita e observa o artefato cultural. O frame de crítica inicia-se quando a criança com deficiência mental levanta as pálpebras, olha para trás na direção do parceiro interacional, dá um sorriso discreto e coloca a mão direita sobre o artefato cultural criando um anteparo para impossibilitar o acesso visual do parceiro interacional ao material.
L: (Criança com deficiência mental está movimentando os dedos das mãos, pára, olha ligeiramente para trás, na direção do parceiro interacional, levanta as pálpebras e coloca a mão direita sobre o artefato cultural. Já o parceiro interacional, com as duas mãos sobre as suas pernas, olha para baixo. O parceiro interacional olha na direção da pesquisadora e volta a olhar na direção do chão. A criança com deficiência mental permanece esboçando um discreto sorriso e com a mão direita servindo de anteparo. No final do frame, a criança com deficiência mental põe a mão direita em paralelo com a esquerda e olha atentamente para o artefato cultural. Por sua vez, o parceiro interacional, no pós-frame, inclina-se para a frente e realiza uma pergunta sobre os cenários da história (localização do cachorro).
Observe-se que a díade não verbaliza nesse episódio, mas apresenta gestos (criação do anteparo com as mãos) que demonstram a preocupação da criança com deficiência mental com a possibilidade de o parceiro interacional ter acesso visual ao artefato cultural. Essa crítica, realizada, explicitamente pela criança com deficiência mental, através dessa ação motora (criação do anteparo), se desdobrou, no momento do pós-frame, numa retomada da história pelo parceiro interacional, procurando reelaborar a temática acerca do cachorro (comentada nos episódios de preenchimento de lacunas dos cenários e dos estados subjetivos dos personagens). Na nossa interpretação, essa atitude por parte da criança com deficiência mental também ilustra uma sintonia entre esta e o pesquisador, que colocou essa regra no início das interações e retomou-a pouco antes de a mesma colocar o braço como anteparo.
Também gostaríamos de destacar que essa díade revela-nos como o fluxo discursivo tem um caráter dinâmico, apresentando momentos de explicitação, mas também momentos de descontinuidades, rupturas e silêncios. Na nossa interpretação, isso ocorre porque a produção de sentido não é um fenômeno planejável, mas interacional, dinâmico, modificando-se a cada novo lance do jogo de linguagem. A narrativa construída por essa díade não tem um script prévio, mas apresenta-se “em se fazendo”, ou seja, emerge no próprio momento da interação (Koch, 2003).
Nesse contexto, acreditamos que os silêncios e descontinuidades no fluxo discursivo podem indicar a emergência de indicadores da produção de sentido, sendo uma estratégia cognitivo-conversacional utilizada: “Sempre que perceber que o parceiro já compreendeu o que você pretendia comunicar-lhe, assim, a continuação da sua fala se tornará, na maioria das vezes, desnecessária” (Koch, 2003, p.81).
Não foram evidenciadas nessa díade as seguintes modalidades do frame de crítica: (a) do parceiro interacional em relação à criança com deficiência mental e (b)
autocrítica. Na nossa interpretação, essa modalidade do frame de crítica emergiu (crítica da criança com DM ao parceiro interacional) porque houve uma assimetria da participação das crianças na construção das narrativas: a criança com deficiência mental mostrava-se mais engajada na construção da tarefa proposta, enquanto no início dos registros o parceiro interacional ficava apenas esperando que esse papel fosse desempenhado pela mesma. A relação diádica assimétrica parece ter possibilitado a emergência da crítica da criança com deficiência mental ao papel que o parceiro interacional prefigurava nos jogos de linguagem entre os mesmos. No entanto, foram evidenciados, ao todo, 3 episódios de frames de crítica durante os registros videográficos.
6.1.7 – Frame de compreensão – díade 1 Episódio 7 – Frame de compreensão
Marcação temporal: sessão 4 – (12:05 -12:42) Duração: 37 seg
Contexto:
Criança com deficiência mental movimentando os cabelos, de costas para o parceiro interacional, que está com as mãos apoiadas no meio das pernas sobre sua cadeira e olhando à sua direita na direção do artefato cultural. Após 31 segundos em relação ao último frame, o parceiro interacional olha discretamente para a pesquisadora, coloca as mãos abertas sobre as pernas e, olhando para o artefato cultural, diz:
M: Só que, quando o cachorro chega, os meninos sobem por que tão com medo do