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Do campo à cidade: constituindo-se no território urbano

CAPÍTULO 2 O MTST E AS LUTAS URBANAS: UM MOVIMENTO DE TRANSIÇÃO NO CAMPO POLÍTICO

2.2. O PERCURSO DO MTST: ENTRE O CICLO DE DEMOCRATIZAÇÃO E O NOVO CICLO POLÍTICO

2.2.1. Do campo à cidade: constituindo-se no território urbano

O MTST foi formalizado em 1997, durante a Marcha Nacional por Emprego, Justiça e

Reforma Agrária para Brasília, mesmo ano em que lideranças do MST participam da ocupação

urbana Oziel Alves (nome de um sem-terra morto em Eldorado dos Carajás), em Campinas/SP. Antes disso, o MST já havia feito outras intervenções de apoio em ocupações urbanas.

Foi assim que, na marcha nacional que o MST realiza todos os anos, no ano de 1997 este movimento resolveu liberar militantes comprometidos com a transformação da sociedade para criar um movimento urbano. Estes militantes começaram a estudar os problemas que os trabalhadores viviam com mais dificuldade e perceberam que, naquele momento, dois eram os mais preocupantes: Moradia e Trabalho. (MTST, 2005 - CARTILHA)

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[...] se começou a ver melhor a cidade, como funcionava, qual era o papel dela dentro do modelo que nós temos. Já antes, militantes se deslocavam para a cidade em eventuais trabalhos, trazendo gente da cidade para o campo, se viu a necessidade de tentar criar dentro das próprias cidades focos de organização (Coordenadora da Ocupação Anita Garibaldi)

Os relatos variam quanto aos propósitos e expectativas dessa iniciativa do MST em criar uma frente de luta urbana. Uns apontam a necessidade de ampliar o apoio à reforma agrária; outros, a mudança de perfil da base social do MST, cada vez mais urbana.

Por outro lado, precisamos conscientizar a população e a sociedade de que um programa de reforma agrária interessa a toda a sociedade. Hoje, não se trata apenas de uma solução para o problema dos sem-terra, mas faz parte de um novo modelo de desenvolvimento nacional e está relacionado com a maioria dos problemas que acontecem nas cidades. (MST, 1995)

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(...) em 1993 nós fizemos uma das maiores ocupações do estado de São Paulo, que foi a na região de Getulina. A gente começa a perceber que começa a mudar o perfil das ocupações de terra no estado de São Paulo, não tem mais só camponês (...) então a gente começa a perceber que são famílias que queriam lutar, mas não queriam sair da cidade. E precisavam também de alguma forma de luta para que pudesse sobreviver na cidade; que não iam para o campo por ter vivido algum tempo na vida urbana e se readaptar a rural de novo é difícil. Então a gente começa a ter a ideia de liberar militantes do MST para trabalhar a questão urbana (CASSAB, 2004, p.110).

As duas versões não se excluem e se inserem num antigo debate da esquerda acerca da unidade entre trabalhadores do campo e da cidade. Elas apontam mudanças em curso nessas duas áreas, posto que vivíamos o fortalecimento do agronegócio no campo e a urbanização em nível nacional.

A ação do movimento começou em Campinas, região bastante industrializada e com sérios problemas habitacionais65, que vinha tendo aumento no número de ocupações. Foi na RMSP, porém, que as ocupações se concentraram e o MTST se consolidou. O objetivo era criar um “cinturão de lutas” na Grande São Paulo, baseado na compreensão de “latifúndios urbanos”, a qual, de forma similar ao MST no campo, se baseava no preceito constitucional da função social da propriedade, questionando seu uso especulativo.

A ocupação Oziel Alves, primeira do movimento, foi feita com o apoio do MST e da

65 Segundo dados da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Campinas, 15% da população estava em

Pastoral da Terra, em uma área de quase 1 milhão de m2 conhecida como Fazenda Taubaté, que reunia 1.135 lotes de 144 proprietários. “Sem água e esgoto, luz e serviço de coleta de lixo, o local reuniu, inicialmente, 200 famílias, mas, em menos de quatro meses, esse total já alcançava o admirável número de 4500 famílias” (GOULART, 2011, p.21). Porém, as inúmeras tentativas de despejo, o assassinato de seis militantes e as condições precárias do acampamento dificultavam a consolidação do movimento66. A intersecção entre o crescente tráfico de drogas na região, as ações de despejo e as sucessivas repressões policiais, em que se fundem a atuação do movimento e o “mundo do crime”, fazem o MTST perder o controle da ocupação. Sem solução para o impasse que envolvia proprietários, ocupantes e poder local, o MTST afastou- se dela após seis anos de embates. A área se tornou um bairro precário e irregular.

O Parque Oziel, em 2001, já não era somente sua grande extensão de área que abrigava 6.000 famílias. A ele, estavam integradas mais 3500 famílias do Jardim Monte Cristo e da chamada Gleba B, reunindo, no total, mais de 10.000 famílias. Sua história acumulava, além de uma vasta disputa judicial, envolvendo os proprietários, moradores e prefeitura, também uma intensa luta pela sobrevivência cotidiana, em uma área sem quaisquer benfeitorias públicas, com alto índice de violência e sem qualquer garantia de posse da moradia. (GOULART, 2011, p.24)

Já a ocupação Anita Garibaldi, realizada em Guarulhos, em 2001, teve apoio de um grupo de arquitetos da FAU/USP, que realizou com os moradores um projeto urbanístico na ocupação, favorecendo a permanência no espaço. Apesar de não sofrer ameaças de despejo, a demora na solução habitacional e a disputa de território com o tráfico de drogas e os políticos locais levaram à perda de controle do MTST sobre a ocupação quando os barracos começaram a ser comercializados (MIAGUSKO, 2008, p.212). A retomada dela, anos depois, implicou uma reconfiguração do território e atuação sobre apenas uma parcela da área, onde conseguiram garantir a consolidação de um bairro urbanizado.

Com as ocupações Carlos Lamarca, em Osasco (2002), e Santo Dias, em São Bernardo do Campo (2003), o movimento passa a enfrentar despejos violentos. Os terrenos pertenciam, respectivamente, às indústrias Matarazzo e Volkswagen. Ambas as ocupações foram reprimidas de forma exemplar e espetacular. Uma dessas ações de repressão está retratada na cena que abre este capítulo; a outra é apresentada de forma igualmente violenta por Guilherme Boulos67:

Pouca gente sabe disso, mas a desocupação mais violenta que eu já presenciei ocorreu

66 Conforme Goulart (2011, p.23), em 1998 quatro militantes da ocupação foram assassinados. A investigação da

PM apontava para suposto envolvimento com tráfico de drogas, disputa de poder e “rixa” entre os envolvidos. Três meses depois, seis integrantes da ocupação foram presos pela PM, acusados por tráfico de drogas. No ano 2000, outras duas lideranças do Movimento foram assassinadas.

67 Entrevista concedida à Agência Pública, 24/02/2017. Disponível em: http://apublica.org/2017/02/o-psicanalista- das-massas/#.WLBqU3Q4004.facebook Acesso em 02 de mar. 2017.

em 2004 ou 2003 em Osasco. As pessoas moravam lá há um ano e meio mais ou menos, e a polícia chegou sem aviso prévio, entrou, arrancou as pessoas dos barracos na porrada. Me lembro de uma cena que me marcou muito, que foi uma senhora bem forte, bem grande, que não queria sair da casa dela. E foram cinco policiais, pegaram ela, derrubaram no meio da lama. Estava uma chuva como a de hoje. Deram uma gravata nela. E um menino, o filho dela de 12 anos, gritando ‘mãe, mãe’. Pegaram o menino e algemaram. Assim começou essa desocupação. Ela terminou com a polícia juntando todos os pertences das pessoas, botando gasolina e queimando. Foi brutal. As pessoas saíram, não tinham pra onde ir, tentei fazer uma assembleia, pra tentar organizar as pessoas pra sair. Quando eu comecei a reunião, a polícia jogou uma bomba no meio da reunião. Eu fui preso nesse dia, outros dirigentes foram presos. As pessoas não tinham pra onde ir. Tentamos pôr as pessoas em um ônibus e ir pra uma outra área, mas a polícia foi pra essa outra área, pegou as pessoas, colocou em caminhões-baú, atravessou a divisa de Osasco, deixou as pessoas na lateral da Marginal Pinheiros. Largou lá. Hoje, depois de dez anos, as pessoas que continuaram conseguiram suas casas. Mas aquilo foi… Eu nunca tinha visto uma barbaridade daquelas”, conclui com a voz embargada.

Goulart (2011) relata que, após a ordem de reintegração de posse, o governo Alckmin (PSDB) propôs levar as famílias da ocupação para um terreno da CDHU em Guarulhos, com a promessa de transferi-las para um apartamento em 145 dias. A entrada em Guarulhos foi feita pela PM, pois a Guarda Civil tentou impedir os sem-teto de adentrar a cidade, já que o prefeito, Eloi Pietà (PT), disse não ter sido avisado. Em poucos dias, o Ministério Público alegou contaminação da área e todos foram novamente despejados, desta vez sem “acordos”.

As famílias acabaram acolhidas na ocupação Anita Garibaldi e, em 2003, fizeram nova ocupação em Osasco, no terreno de Sergio Naya68, de onde foram despejadas sem aviso prévio

e sob forte violência policial. Ao acamparem na beira do Rodoanel, foram surpreendidas pela PM, que as removeu à via expressa da Marginal Tietê, deixando-as no meio da pista. Por fim, ocuparam a área de uma creche abandonada em Osasco, onde fizeram uma horta comunitária e uma biblioteca com grupos de teatro e ciranda. Após 9 anos, as famílias que resistiram à longa jornada conseguiram a construção de suas moradias pela prefeitura.

Como se vê, a atuação do MTST revela uma fase de complexificação dos conflitos urbanos envolvendo disputas territoriais com o tráfico, o poder público, as igrejas e demais organizações lá instaladas. Tudo isso redundava em altos índices de violência, sucessivas investidas da polícia na área ocupada e inúmeras ações de despejo aprovadas pela Justiça. Ação política e criminalidade são confundidas no mesmo território e no mesmo discurso político- institucional que criminalizava os movimentos, bloqueando a esfera pública. Trata-se de um contexto em que a política é feita “no fio da navalha”, e sua mediação, tomada pela violência. Essa fase constitutiva do MTST foi marcada pela proximidade com o MST e pelo

68 Sergio Naya foi deputado pelo PPB-MG e dono da Sersan (Sociedade Empresas Reunidas Sérgio Augusto

Naya), responsável por construções embargadas por problemas técnicos evidenciados após o desabamento de um de seus prédios residenciais, o Palace II, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em 1998.

alinhamento com o projeto democrático-popular, adotando as mesmas formas de organização, métodos de ação e posicionamentos políticos. As ocupações eram pensadas e construídas como moradia permanente: ocupar e morar aqui. “Não fazemos ocupação como forma de pressão e negociação. Ela serve para atender diretamente aos que não têm teto, que precisam da terra de imediato, e não para obter moradia a médio prazo” (militante do MTST, 2003)69. Assim,

definia-se e ocupava-se o terreno com o objetivo de obter sua posse e fixar-se nele. Cada família separava sua porção do espaço e começava a construir sua moradia no local, resistindo a toda pressão e repressão para conquistá-la. Embora essas ocupações fossem organizadas, elas tinham uma lógica semelhante à das chamadas “invasões espontâneas”, cujo propósito era assegurar a posse de um terreno individual. Essa forma, entretanto, recolocava o problema da urbanização precária e o risco de perda de “controle” sobre a ocupação, com que se deparou o movimento nas suas primeiras ocupações.

Portanto, a atuação urbana trazia ao MTST questões próprias à dinâmica das cidades, como a especulação imobiliária, a precariedade de infraestrutura, a expansão do “mundo do crime” e a repressão policial, o que levaria a uma reformulação do repertório de lutas herdado do MST. A ascensão do PT ao governo Federal, por sua vez, distanciou o movimento do campo democrático-popular, em especial após o episódio descrito no início do capítulo.