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CAPÍTULO 2 MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS CULTURAIS NA DÉCADA DE 1960 E OS ACONSELHAMENTOS PARA SE CASAR E MANTER O CASAMENTO

2.2 DO CASAMENTO PARA O DESQUITE E O DIVÓRCIO

Para compreender as abordagens sobre o casamento e a união familiar, vale citar outro questionamento apresentado na seção da revista Capricho, de Abril de 1966. O trecho nos chamou atenção pelo fato da leitora apresentar uma insatisfação com a condição de sua família, quando analisada sob o aspecto do “casamento normal”. Segundo a leitora, “meu problema é minha família. Meus pais são desquitados, vivendo a vida como querem. Não sou uma garôta com esperanças de um casamento normal...” – Cláudia (CAPRICHO, Abril de 1966, p. 25)

Vejamos o posicionamento da revista sobre seu desabafo:

É lamentável, minha querida, o que a formação de sua família fêz de você: uma jovem sem esperanças, sem ilusões, sem confiança no mundo e no futuro. Mas você encontrou o amor, um amor à moda antiga, que poderá trazer o casamento normal à moda antiga, que poderá trazer o casamento normal que você não espera, e o lar, os filhos, em que não acredita mais. Não gostei de sua idéia de seus planos. Por que não esperar confiante? Por que não noivar simplesmente como todas as môças de sua idade? Cada um de nós constrói seu futuro, Cláudia. Construa o seu com bases sólidas, honestas, indestrutíveis. É o que você merece. E, mais tarde, gostará muito mais de ter feito isso, ter erguido a cabeça acima da lama que a cerca. [...]. (CAPRICHO, Abril de 1966, p. 25).

Esse assunto pode ser compreendido como sendo um tabu para época. Bassanezi (1996) nos lembra de que o divórcio somente vai fazer parte da legislação brasileira em 19779. Isto significa que até então, somente o desquite era a forma legal de separação. Isso significa que

9 “Até 1977, o casamento era indissolúvel no Brasil, mantendo a legislação brasileira de então os resquícios

coloniais das Ordenações do reino, as quais, impregnadas pelo Direito canônico, consideravam o casamento um sacramento, sem a possibilidade de dissolução [...]. Com a Emenda Constitucional 9, de 1977, de autoria do senador Nelson Carneiro, foi finalmente instituído o divórcio [...] A lei 6. 515/77 acrescentou o divórcio entre as causas pelas quais se dissolvem a sociedade conjugal e o casamento (artigo 2º), substituindo o desquite pela separação judicial (artigos 41 a 48)”. (DELGADO, 2017, p. 1) Fonte: disponível em http: //www.conjur.com.br

não existia a possibilidade de contrair um novo casamento pelas leis brasileiras. Bassanezi ainda afirma que na década de 1960, a sociedade brasileira ainda está apegada a valores tradicionais. Puga (2007, p. 165) complementa essa ideia ao afirmar que “falar em desquite ou em divórcio significava, portanto, romper laços familiares e sociais”. Carpedo; Koller (2004, p. 3) frisam que neste período “as mulheres desquitadas sofriam preconceito da sociedade e a conduta moral das mulheres separadas estava constantemente sob vigilância”.

Quando se ouvia falar de separações ou desquites envolvendo artistas famosos, sendo estes norte-americanos, italianos, ou de outra nacionalidade, as revistas não emitiam opiniões, somente divulgavam essas notícias (BASSANEZI, 1996). Sendo assim, se torna plausível que na revista Grande Hotel, o desquite não era visto com “bons olhos” pela conselheira da revista. Isso pode ser observado em outra revista. Segundo Bassanezi (1996), o Jornal das moças argumenta contra a decisão do casal em desquitar-se, pois justificavam que a separação seria a causadora de males para a família.

A separação é duramente reprovada pelas revistas que procuram, inclusive, negá-la como solução e desfecho para maus casamentos. Por outro lado, estas mesmas revistas recorrem constantemente ao fantasma assustador da separação como uma ameaça que ajuda a manter firme o ideal de “boa esposa”. (BASSANEZI, 1996, p. 417).

Os males que a separação causa aos filhos são o principal argumento de Jornal das Moças contra a legalização do divórcio (BASSANEZI, 1996). O divórcio chega a ser comparado à instituição da pena de morte. “Ambos não são remédios para os ‘males sociais’, pois não correspondem às necessidades da sociedade, não curam, não servem de exemplo e viciam, sendo que o divórcio é ainda um veneno maior para a estabilidade social” (BASSANEZI, 1996, p. 415).

Considerando que grande parte das revistas de fotonovela era de origem italiana é pertinente termos em mente algumas informações referentes às questões morais e ao divórcio na sociedade deste país durante a década de 1960:

[...] a situação os comportamentos e as práticas eram extremamente conservadoras e o debate sobre diversos temas ainda era bem restrito, sendo em geral assuntos socialmente proibidos. Um exemplo contundente foi a questão do divórcio, inexistente na Itália daquele período, sem dúvida a Igreja Católica exercia enorme ingerência nesse campo, obstando e se opondo às tentativas de debates progressistas sobre o tema, uma vez nos preceitos católicos o casamento era uma instituição indissolúvel. Foi necessário algum tempo para que fossem apresentados projetos de lei que regulamentassem o divórcio, mas seria só em 1970 que uma lei entraria em vigor

[...] Além da inexistência do divórcio, não era possível um homem casado reconhecer um filho fora do casamento. Desse modo, existiram inúmeras gerações de filhos ilegítimos, em cujas certidões de nascimento, se lia, em lugar do nome do pai, as letras N.N (da expressão em latim nomen nescio, ou seja, nome desconhecido). Essas

crianças carregaram esse aviltante estigma por um longo tempo, sendo discriminados e insultados, comumente chamados de bastardos. (AUGUSTO, 2014, p. 70).

Essa discussão sobre não poder contrair um novo matrimônio vai ser o tema central do filme Divórcio à italiana. O filme dirigido por Pietro Germi é uma comédia que conta a história do barão Ferdinando Cefalu que, infeliz em seu casamento de 12 anos com Rosalia, acaba se apaixonando pela prima Ângela. Entretanto, como o divórcio não fazia parte da legislação italiana na década de 1960, o barão começa a imaginar formas de tirar a vida de sua esposa. Nesse período uma das características do gênero cinematográfico italiano chamado commedia all italiana seria uma “representação crítica da sociedade italiana dos anos 1960 [...] diz respeito à uma correspondência existente com a realidade cotidiana dos italianos (AUGUSTO, 2014, p. 83).

A experiência histórica em torno do casamento pode ser analisada por outras narrativas visuais e textuais presentes nas revistas de fotonovela. Desta forma, a seção seguinte busca comunicar suas representações e abordagens considerando as publicações de colunas, charges e testes.

2.3 AS COLUNAS, AS CHARGES E OS TESTES COMO FORMA DE COMUNICAÇÃO