1. A fonte: estrutura, forma e influências
1.1. Das maneiras de provar
1.1.2. Do Concílio Geral
Marsílio afirmou que, para se fazerem afirmações relativas à Escritura, era necessário convocar o Concílio Geral. Esse Concílio era entendido como a sucessão da congregação dos apóstolos, anciãos e conjunto dos fiéis na solução dos sentidos ambíguos da Escritura e com o qual se encontravam o Espírito Santo e a Verdade105. Assim, a assembléia reunia o legislador, o clero e os fiéis leigos que
fossem mais sábios nos conhecimentos da Lei Divina, a fim de que tais afirmações
fossem revestidas de uma verdade imutável e infalível. O papado da época de Marsílio interpretara as Escrituras a fim de favorecer
sua argumentação em torno da teoria da plenitudo potestatis. Esse poder não era legítimo do clero, que o queria, segundo o paduano, apenas pela ambição e soberba. Cristo afirmava que os bispos não deveriam ser opressores, pois os príncipes já o eram. Por isso não se deveria crer e tampouco seguir as bulas papais
104MARSÍLIO DE PÁDUA O Defensor da Paz. Discurso I, capítulo XXVIII, § 1. 105 Idem, ibidem. Capítulo XIX, §1-3.
daquele momento, uma vez que não eram textos canônicos; apenas as Escrituras Sagradas e o que se seguia do Concílio Geral o eram.
Segundo Marsílio, a principal e única autoridade competente para interpretar o texto Sagrado era o Concílio Geral o qual, como já foi dito, era a reunião dos cristãos escolhidos pelo legislador humano. Esse Concílio definia os sentidos duvidosos das passagens bíblicas, e tinha no Espírito Santo sua fonte de verdade.
Diferentemente dos textos das Sagradas Escrituras, que não continham erros por serem de autoria do Espírito Santo, os textos humanos não podiam ser considerados canônicos por haver a possibilidade de conterem erros; por isso ninguém era obrigado a acreditar no que eles apresentavam como verdade. O próprio Cristo dissera em sua ira que todo homem é mentiroso106.
Santo Agostinho afirmou que não deveríamos ler seus textos como se fossem as Escrituras, pois nelas devia-se acreditar sem hesitação por não resultarem da invenção humana e sim da inspiração divina, a qual não podia errar e nem enganar ninguém.
“Quanto a mim, confesso à tua caridade: Aprendi a honrar e reverenciar somente as Escrituras designadas por canônicas, de modo que acredito mui firmemente que nenhum de seus autores pode ter cometido um só erro. Se houvesse nesses textos algo que parecesse contrário à verdade, excluindo a hipótese de que estivesse errado, não discutiria outra coisa senão que seu intérprete não tivesse observado o que aí estava escrito ou que eu mesmo não o tivesse entendido satisfatoriamente”.107
106 Salmo CXI, 11.
A partir dessa constatação, Marsílio afirmou que também Agostinho considerava como Escritura Sagrada somente aquilo que estava contido na Bíblia, e não as decretais ou bulas emanadas do Pontífice Romano e de seu Colégio de Cardeais. Um outro fato que corroborou o argumento do paduano foi que desde o Terceiro Concílio de Cartago em 397108 fôra proibido considerar como canônicos
quaisquer outros textos que não aqueles contidos na Bíblia.
Por isso o legislador devia escolher as pessoas (leigos e clérigos) mais aptas a participar do Concílio, de forma a não haver tais erros de interpretação, pois se os decretos ou bulas tivessem a mesma autoridade das Escrituras, todos os reinos seculares estariam subordinados ao Sumo Pontífice.
Era exatamente essa autoridade que, de acordo com Marsílio, desejara Bonifácio VIII ao escrever sua bula Unam Sanctam; também Clemente V, ao afirmar em sua bula Meruit, que tal decreto de Bonifácio não era prejudicial nem ao rei e nem ao reino de Filipe; por fim, da mesma forma, João XXII, ao tentar excomungar e impedir que o duque Luís da Baviera assumisse o Império em uma sentença pela qual o declarava herege, rebelde e inimigo o próprio imperador.
Marsílio afirmou, a esse respeito, que “... isso parece muito mais uma quimera
digna de zombaria, procedente da ambição dos que proferem tais coisas, de seu desejo ardente de exercer o governo secular e do terror que lhes inspira o mencionado rei dos francos”. 109
Dessa forma os documentos papais deviam ser considerados falsos e errôneos desde a sua origem, sendo prejudiciais a todas as pessoas que vivessem na sociedade civil, pois causavam a intranqüilidade social. Assim, o Pontífice Romano não tinha a “plenitude do poder”, e os príncipes não estariam subordinados
108 Idem, ibidem. Capítulo XIX, §7. 109 Idem, ibidem. Capítulo XX, §12.
à sua jurisdição, como afirmou a própria Escritura110. Marsílio pensava, no entanto, que, se Bonifácio não tivesse partido deste mundo, teria tido êxito em seu empreendimento contra Filipe o Belo, rei da França, pois estava aliando-se aos inimigos do rei, fortalecendo e conquistando adeptos a sua teoria.
Marsílio afirmou no Defensor pacis que os bispos de Roma corromperam desse modo todo o Corpo Místico de Cristo. O Corpo da igreja foi comparado, por Marsílio, ao corpo humano: cada parte teria seu lugar e força específica, os membros do corpo não saindo todos da cabeça, pois não teriam utilidade se assim fosse. Mas o pontífice, ao apoderar-se de todos os poderes, parecia-se mais com um monstro horrível, a estátua que Nabucodonosor viu em sonhos, com a cabeça de ouro, os braços e o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e os pés, metade de ferro, metade de barro o que representava destituir os padres e outros responsáveis de sua função por fiscalizar os fiéis, e por isso os subalternos tornam-se desobedientes e os responsáveis pela fiscalização, desleixados e negligentes.
“Tivestes, ó rei, uma visão. Era uma estátua. Enorme, extremamente brilhante, a estátua erguia-se diante de ti, de aspecto terrível. A cabeça da estátua era de ouro fino; de prata eram seu peito e os braços; o ventre e as coxas eram de bronze; as pernas eram de ferro; e os pés, parte de ferro e parte de argila. Estavas olhando, quando uma pedra, sem intervenção de mão alguma, destacou-se e veio bater na estátua, nos pés de ferro e argila, e os triturou ”.111
110 1Pedro 2,13-15.
111 Dn 2, 31-34. A pedra reduziu a pó toda a estátua e tornou-se uma grande montanha. A
interpretação do sonho diz que este rei escolhido por Deus representa a cabeça de ouro e que depois dele surgirão outros reinos que serão inferiores e que tentarão dominar todos os outros. Mas apenas o reino escolhido por Deus reinará sobre todos. A profecia completa está em Dn 2, 31-45.
A cabeça de ouro, o peito e braços de prata representavam, para Marsílio, as obras feitas pelas mãos humanas e a mentira. O ventre e as coxas de bronze eram o tumulto das disputas ou os litígios seculares, a saber, a volúpia, a luxúria e frivolidade. As pernas de ferro e a metade do pé também de ferro que fixavam a estátua representavam a conquista e a invasão violenta de reinos e províncias. Por fim, a parte dos pés feita de barro era frágil, por ser feita da terra, representava a inconstância da Cúria Romana, a falsidade e fraqueza dos motivos que apresentava. Devido à imagem de honestidade criada pelos pontífices para sua teoria e de seus maus exemplos, segundo o paduano, os fiéis tiveram sua visão obscurecida por um véu de falsidades. A ignorância e a irreflexão levaram as pessoas a se habituarem com o mau costume de ouvir coisas falsas no lugar das verdades, em acreditar nas interpretações errôneas das Escrituras e nos falsos decretos papais.
Em algum momento, porém, diz Marsílio, os fiéis perceberiam a falsidade da Cúria Romana e “... um rei, entre todos os homens, eleito pela graça de Deus, conferindo-lhe poder e cujo reino não passará para as mãos de outrem, esse rei, digo, que agindo antes pela força da graça da Trindade do que pelo poder humano, há de primeiro quebrar e aniquilar a parte de barro, os pés, desta horrível, terrificante e monstruosa estátua...”112 a qual simbolizava o poder, o falso poder pleno do Bispo
de Roma; por isso todos os príncipes e nações deveriam convocar um Concílio Geral a fim de proibir o bispo de Roma de enganar a população, e que o bispo se voltasse novamente para o preceito da caridade.