A expressão coronelismo foi cunhada por Victor Nunes Leal para indicar o “resultado da superposição de formas desenvol-vidas do regime representativo a uma estrutura econômica e social inadequada”. Não é apenas e tão-somente a sobrevivência do poder privado, cuja hipertrofia constituiu fenômeno típico da história colo-nial brasileira, mas “uma forma peculiar de manifestação do poder privado (...), uma adaptação em virtude da qual os resíduos do nos-so antigo e exorbitante poder privado têm conseguido coexistir com um regime político de extensa base representativa.” É de fato um compromisso entre o poder público e os chefes locais, por meio do qual se firma “uma troca de proveitos entre o poder público, cada vez mais fortalecido, e o decadente poder privado dos chefes locais, notadamente dos senhores de terra” (Leal, 1997, p. 40), só possível de compreeender no seio da estrutura agrária do país, pois é ela quem fornece a base de sustentação das manifestações de poder privado que foram fortes no Brasil e que ainda sobrevivem nos rincões, dado que o trabalhador rural, desprovido da mínima assistência do Esta-do, quase sempre tem o patrão como um benfeitor. Frente a ele, o pobre sertanejo se arria, sendo praticamente impossível imaginá-lo - analfabeto ou semialfabetizado e sem acesso aos serviços públicos - dotado de consciência cívica, cioso dos seus direitos individuais e sociais e, portanto, sem condições de lutar por esses direitos de ma-neira altama-neira, autônoma, livre e independente.
Ainda que a força seja um elemento importante da domi-nação e da liderança dos coronéis, dado que as “relações do chefe local com o seu adversário raramente são cordiais”, prevalecendo a hostilidade, a liderança não é obtida exclusivamente com o uso da força. Há que entender as necessidades e os interesses do mu-nicípio, por isso nos intervalos entre as campanhas eleitorais, as relações entre os adversários melhoram muito, “chegando even-tualmente a ser amenas e respeitosas” (Leal, 1997, p. 61).
As políticas de comunicação brasileiras, principalmente nos governos democráticos posteriores ao ciclo autoritário instau-rado em 1964, foram assinaladas por elementos que as diferencia-ram da tendência global de aceitação automática da convergência dos meios, o que resulta numa manifestação do coronelismo, agora pela via midiática, com proprietários de empresas de comunicação apoiando candidatos e divulgando ostensivamente sua candidatu-ra nos seus veículos de comunicação, em flagcandidatu-rante desrespeito à lei, que, frisemos, propugna espaço igual a todos (Santos, 2006). Ao hipotecar apoio aos candidatos de sua preferência, os empre-sários da mídia têm acesso facilitado para conseguirem concessões de canais de rádio e/ou de televisão, prioridade para inserção de anúncios pagos e condições facilitadas para perseguir adversários políticos. Por isso mesmo, em trabalho publicado há uma década, Garcia (2006) sustenta que o voto de cabresto ainda permanece, com os meios eletrônicos de comunicação carreando votos para os candidatos apoiados pelos coronéis eletrônicos, tese relativizada por es-tudiosos do fenômeno político e eleitoral brasileiro, como Almeida (2007 e 2008) e Ferreira (2001).
Entre as mazelas do modelo de comunicação brasileiro estão: o delineamento das lógicas clientelistas que transformou as outorgas de rádio e televisão em moeda política, deslocamento
da regulação do setor da centralidade do interesse privado em detrimento do interesse público, prevalência da centralidade do interesse político e mesmo religioso, local ou regional, sobre o interesse econômico nacional ou global e a ausência de transpa-rência sobre a estrutura de propriedade e de afiliação da radiodi-fusão nacional. Esse sistema organizacional da recente estrutura brasileira de comunicações, baseado no compromisso recíproco entre poder nacional e poder local, que configura uma complexa rede de influências entre o poder público e o poder privado dos chefes locais, proprietários de meios de comunicação, é chamado de coronelismo eletrônico72 e segue, em linhas gerais, a lógica do coronelismo clássico (Santos, 2007, p. 7-8).
Do ponto de vista eleitoral, é importante ser proprietá-rio de meios de comunicação de massa. Não devemos esquecer, no entanto, que o raio de ação de um coronel é diferenciado do de um radiodifusor que conquista votações expressivas. Não po-demos incluir na mesma categoria figuras como Aluízio Alves e José Agripino Maia com Luiz Almir e Salatiel de Souza, apenas porque estes são radiodifusores que exercem ou exerceram man-datos eletivos. Dentro do sistema que se esboça, os dois primeiros desempenham papéis diferentes dos outros dois no sistema de co-ronelismo midiático. Ainda que sejam perceptíveis traços cliente-listas em suas atuações públicas e embora participem da mesma rede de compadrio que tem dado forma ao coronelismo midiáti-co, não há um luizalmirismo ou um salatielismo atuando como chefia política, arbitragem social e fonte de coerção no Rio Grande do Norte, como existiu/existe um aluizismo e um agripinismo, como 72 Utilizo o termo coronelismo midiático em substituição à coronelismo ele-trônico em várias partes do texto porque muitas lideranças políticas, a exemplo e Carlos Lacerda e Aluízio Alves, são egressos da imprensa escrita.
existiram um carlismo na Bahia e um chaguismo no Rio de Janeiro, e ainda antes, um lacerdismo.73
O coronel dos dias de hoje vive num sistema coronelista ligeiramente diferente daquele ao qual se referiu Victor Nunes Leal, mas é uma extensão daquele, conforme registra Santos (2006; 2007), listando a sua ancestralidade: paternalismo, clientelismo, arrogância, prepotência, convicção de estar acima da lei e incapacidade de dis-tinguir o público do privado, que estão, como estavam no coronel tradicional, colados no novo coronel. Mais camaleônico que o seu ancestral, o novo coronel surge sob os mais variados disfarces: é o líder populista ou o campeão da moralidade ou, ainda, o perseguidor de ricos, um Robin Hood avermelhado pelo sol tropical.