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Muitas vezes o trabalho intelectual leva ao confronto com duras realidades. Pode nos lembrar que a dominação e a opressão continuam a moldar as vidas de todos, sobretudo das pessoas negras e mestiças. Esse trabalho não apenas nos arrasta mais para perto do sofrimento como nos faz sofrer. Andar em meio a esse sofrimento para trabalhar com ideias que possam servir de catalisador para a transformação de nossa consciência e nossas vidas e de outras é um processo prazeroso e extático. Quando o trabalho intelectual surge de uma preocupação com a mudança social e política radical, quando esse trabalho é dirigido para as necessidades das pessoas nos põe numa solidariedade e comunidade maiores. Enaltece fundamentalmente a vida.

Bell Hooks106

O desejo que marcou esse trabalho foi o de apostar na potência do estar junto, perseguindo a ideia de que trajetórias de vida outras podem se construir apoiadas na composição de parcerias e na construção coletiva de espaços diferenciados de acolhimento. Muitos aspectos das nossas lutas e histórias sobrevivem na invisibilidade, e é tarefa que aceitamos falar disso, tirar do particular e lançar para o mundo, para que no coletivo se torne, enfim, um problema de todos. Todo sofrimento é digno de luta e exige corresponsabilidade.

Eu e Violeta partilhamos um caminho. Diante da policialização e da militarização da vida social, do encarceramento e do extermínio como respostas legitimadas pelo Estado na gestão das relações sociais, buscamos produzir territórios de vida, abrir janelas para a compreensão, uma com a outra, das engrenagens que sustentam a justificativa e a autorização do exercício de violência estatal, da função estratégica da produção de desigualdade econômica, e da manutenção rígida das hierarquias sociais e raciais no cerne da questão penal brasileira. Assim, partindo da dissecação da “mecânica violenta do Estado” com os sujeitos alvo das políticas de encarceramento e extermínio, visibilizar as correlações aí ocultadas e produzir um rastro de intensidade (SORÓ, 2017, p. 8).

“Companheiras de jornada” (BAPTISTA, 1991), Violeta e eu buscamos na escrita de si, “uma das tecnologias pelas quais o indivíduo se elabora nos marcos de

106 HOOKS, Bell. Intelectuais Negras. Periódicos UFSC, ano 3, 2º semestre 1995, p. 477-478. Disponível

uma atividade que é essencialmente ética” (FOUCAULT, 2006, p. 50), ferramenta para o exercício de desprivatização da dor, revisitando processos de vida e de morte, questionando as instituições que nos atravessam, analisando nossas implicações e decidindo, a cada momento, o que fazer com isso, como integrar cada rastro de intensidade desprendido dessas experiências ao que somos e à luta por uma sociedade menos hipócrita e menos perversa. Inventamos uma cumplicidade clandestina para inspirar formas mais coletivas e criativas de habitar esse tempo, as ruas, e as nossas vidas.

A trajetória dos encontros que corporificaram essa escrita, para além de produzir uma dobra sobre nós mesmas, Sabrina e Violeta, nos impeliu a eleger a impertinência política como marca revolucionária, de deslocamento das posições estabelecidas com base nas narrativas dominantes deformadoras da experiência vivida, sobrecodificadoras das relações que se produzem em uma dimensão molecular. Dizemos, com isso, que não aceitamos mais que se produza qualquer verdade sobre nós sem contestar. Gritamos em cada uma dessas linhas ‘nada de nós sem nós!’.

No percurso nos demos conta do quanto somos formatadas por processos de subjetivação massificados, a partir dos quais quase sempre respondemos e reagimos ao que nos acontece exatamente conforme o esperado, dadas nossas histórias, nossas posições sociais, o gênero que nos define e outros marcadores. Registramos nesse percurso cenas que dizem dessa conformação, mas também tracejados que seguem em todas as direções como condição de possibilidade de emergência de outras vidas.

Singularizamos nossas vidas a partir das diferenças que nos marcam e construímos um comum, uma comunidade entre nós. O que podemos nós a partir desse comum, para uma possibilidade de análise e inserção junto à comunidade de mulheres inseridas no sistema socioeducativo, adolescentes e técnicas? Ainda não sabemos. Sabemos sim que quando nasce uma aliança – guerreira-soldada, técnica-socioeducanda – desenha-se a possibilidade de erigir uma máquina de guerra, um movimento minoritário e fugidio.

Publicizar nossas histórias atravessadas pelas políticas de encarceramento, nos parece submeter a individualização da vida à sua subversão, atualizando as relações sociais a partir de uma dimensão pública. Nas narrativas de Violeta, “articulam-se histórias de grande capacidade de superação da dor” (RAGO, 2013, p. 73).

Esperávamos que em algum momento dessa nossa história, as experiências de jovens da socioeducação pudesse se tornar efetiva arma contra o Estado, pois seus relatos e corpos são provas vivas de que a tortura e a completa anulação de direitos continua sendo estratégia de dominação, segregação e aplicação de morte social e política ao povo negro.

No entanto, chegamos a um parcial trágico fechamento de nossas análises. Ainda que existam vidas que fogem à captura do sistema socioeducativo por todos os lados, produzindo diferença e explodindo barreiras, a força desses movimentos de desterritorilização é capturada em reforma desse sistema, em busca de uma humanização que garanta a manutenção do discurso que o produz como legítima política pública no combate à uma dita violência juvenil. Para toda linha de fuga, uma organização que estratifica, de modo que ainda que afirmemos a vida onde quer que existam humanos, é compromisso ético apontar onde a vida é submetida à mortificação, para então libertá-la do confinamento subjetivo.

Essas vidas que transbordam os limites desse sistema destituem o tempo todo esse maquinário do controle dos processos que se dão no cotidiano das unidades socieoducativas, e também fora delas, na condição de egressa. Ainda assim, nos deparamos com a seguinte imposição: a prisão tem que morrer! Ainda que a potência e a vida aprisionadas no sistema explodam barreiras o tempo todo, produzindo invisíveis rupturas que em algum momento possam instituir de maneira mais permanente o novo, não há mais tempo a perder. Jovens estão morrendo, há muito tempo, e essas vidas não serão recuperadas nem ressarcidas de toda dor vivenciada pela imposição da clausura pelo Estado. Não dá pra esperar que se descubra uma maneira viável de se prender sem fazer morrer. O sistema comprime vidas, reduzinda-as ao limite da morte ou da vida mortificada. A prisão tem que cair!

Se, ao início do processo de pesquisar, os objetivos seguiam na direção de produzir uma análise dos fazeres da Psicologia na socioeducação, apostando na possibilidade de produção de fraturas no sistema, produção de liberdade com os sujeitos encarcerados, em algum momento posterior nos redirecionamos para a releitura de uma história comum com Violeta e nos deparamos com uma problemática muito maior: não há como produzir liberdade em meio ao cárcere. Nesse caminho, se há conspiração possível, ela deve se dar a serviço da destruição da prisão, pois essa seria a única

liberdade possível para esses sujeitos, jovens atendidas e profissionais operadoras do sistema.

Não foi possível burlar o sistema. A beleza e a importância dos encontros com Violeta residem no quanto essa conexão nos transformou, no nível das possibilidades de um relacionar-se com a outra apoiadas em lógicas menos pautadas no punitivismo, mais próximas de uma convivência libertária. Mas, lamentavelmente, os mesmo riscos ainda estão postos à jovem Violeta. Condições precárias de vida e subsistência, perseguição, racismo. Às jovens da socioeducação, acabar com o sistema é a única saída, pois a partir dele nada se produz além de dor, morte e opressão.

Esse trabalho se fez em duas direções, não opostas: na composição com Violeta, de espaços de vida comum, de parcerias que se opõem ao isolamento e à individualização produzidos pela lógica penal capitalista na qual estamos todas imersas; e na produção de questões para o sistema socioeducativo, de como a partir de Violeta decalcamos as possibilidades de alianças clandestinas entre técnicas sensíveis à descriminalização e à abolição das prisões com usuárias desse sistema, jovens em cumprimento de medida. Estivemos lá, construímos um trabalho dentro dos equipamentos da política. Depois, retomamos o fôlego e retornamos à política pelo caminho da memória coletiva, fora dela sem realmente estar. O problema não está em mim, ou em Violeta, ou em qualquer menino e menina da socioeducação. O problema é o sistema, seus esquemas de entrada e saída, suas mudanças de nível, sua lógica, sua estruturas. O plano é insano e ele visa a liberdade107: implosão da lógica penal. Abolir as prisões.

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Não tenho casa, não tenho sapatos. Não tenho dinheiro, não tenho classe. Não tenho saias, não tenho casacos. Não tenho perfume, não tenho amor. Não tenho fé. Não tenho cultura. Não tenho mãe, não tenho pai. Não tenho irmão, não tenho filhos. Não tenho tias, não tenho tios. Não tenho amor, não tenho ideia. Não tenho país, não tenho escolaridade. Não tenho amigos, não tenho nada. Não tenho água, não tenho ar. Não tenho cigarros, não tenho um franguinho. Eu não tenho. Não tenho água. Não tenho amor. Não tenho ar. Não tenho Deus. Não tenho vinho. Não tenho dinheiro. Não tenho fé. Não

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Trecho da Cypher “Sinfonia da Revolução”, de Rincon Sapiência, Nego E, Lívia Cruz, Tássia Reis,

Rico Dalasam, Aori e Amiri, de 2017. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=h4iGBaRuPpI>. Acesso em 26 ago. 2018.

tenho Deus. Não tenho amor. Então o que eu tenho? Por que mesmo eu estou viva? Sim, inferno. O que eu tenho ninguém pode tomar. Tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça. Tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas. Tenho meus olhos, tenho meu nariz. Tenho minha boca. Eu tenho a mim mesma. Tenho meus braços, minhas mãos Tenho minhas orelhas, minhas pernas. Tenho meus pés, e meus dedos. Tenho meu fígado. Tenho meu sangue. Eu tenho uma vida. Eu tenho vidas!108

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108

Trecho da música “Ain´t got no – I got life”, do álbum “Nuff Said!”, de Nina Simone, 1968. Disponível

em https://www.youtube.com/watch?v=L5jI9I03q8E. Acesso em 01 set. 2018.

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