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Capítulo III – Do direito de propriedade e dos crimes contra a propriedade

3.3. Dos crimes contra a propriedade

3.3.2. Do crime de roubo

O roubo é um crime com características ligeiramente diferentes das do crime de furto, embora com grandes coincidências entre ambos. A começar pelos bens jurídicos ofendidos, ANTÓNIO BARREIROS refere que o roubo é “um crime pluriofensivo”276 ou, nas palavras de CONCEIÇÃO DA CUNHA, “um crime complexo que ofende quer bens jurídicos patrimoniais – o direito de propriedade e de detenção de coisas móveis – quer bens jurídicos pessoais - a liberdade individual de decisão e acção (em certos casos, a

própria liberdade de movimentos) e a integridade física, sendo que, em certas hipóteses de roubo agravado, se põe em causa, ademais, o bem jurídico vida”277. No entanto, “a

272

Cfr. JOSÉ DE FARIA COSTA, “Comentário ao artigo 203.º do Código Penal”, in Comentário Conimbricense…,

Tomo II, p. 49. 273

Cfr. MANTOVANI,FIANDACA E MUSCO apud JOSÉ DE FARIA COSTA, “Comentário ao artigo 203.º do Código

Penal” in Comentário Conimbricense…, Tomo II, p. 49. 274

Cfr. JOSÉ DE FARIA COSTA, “Comentário ao artigo 203.º do Código Penal”, in Comentário Conimbricense…,

Tomo II, p. 50. 275

Ibidem. 276

Cfr. JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS,Crimes contra…, p. 84.

277

Cfr. CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Conimbricense do Código Penal – Parte Especial, Tomo II, (Dirigido por JORGE DE FIGUEIREDO DIAS), Coimbra: Coimbra Editora, 1999, p. 160. Em sentido idêntico, MANUEL LOPES MAIA GONÇALVES, Código Penal Português…, 15.ª Edição, p. 685; MANUEL LEAL-HENRIQUES,MANUEL SIMAS SANTOS, Código Penal…, Vol. II, 3.ª

ofensa aos bens pessoais surge como o meio de lesão dos bens patrimoniais”278. O furto

é, assim, encarado como “crime-fim” do roubo279.

Em segundo plano, “o crime de roubo distingue-se do de furto porque no primeiro há violência ou ameaça com um perigo iminente para a integridade física ou para a vida, ou a colocação da vítima na impossibilidade de resistir, servindo-se o agente de algum destes meios violentos para, através deles, se apropriar de coisa móvel alheia”. No furto, todavia, “a coisa móvel alheia (objecto comum a ambos os crimes) não é obtida através de algum dos meios violentos aqui especificados, mas antes subtraída fraudulentamente pelo agente do crime sem que seja exercida violência sobre o ofendido”280

.

Esta violência contemplada no crime de roubo pode ser física ou moral e não se exige que tenha uma intensidade determinada, “bastando que seja suficiente para que o agente se apodere do bem, mesmo que a vítima não esgote a sua capacidade de resistência”281.

Tendo em conta a complexidade relacionada com o crime de furto, CONCEIÇÃO DA

CUNHA defende que o crime de roubo, “ao proteger vários bens jurídicos, consome outros

tipos legais”282. Em primeiro lugar, o crime de roubo “consome o crime de furto (art.

203.º), dele se distinguindo pelo elemento pessoal”, ou seja, além dos bens jurídicos protegidos pelo crime de furto, ofendem-se bens jurídicos pessoais283.

No que respeita à relação entre roubo e o furto qualificado, verifica-se que “o crime de roubo implica coacção (…) não se verificando tal situação no furto qualificado”284. Porém, “não obstante ter designação própria e pena autónoma, o roubo

não é mais do que um furto qualificado em função do emprego de violência, física ou moral, contra a pessoa, ou da redução desta, por qualquer modo, à incapacidade de resistir. A autonomização do roubo vai, assim, buscar a sua razão de ser à especial gravidade do furto, quando acompanhado de ofensa ou ataque à pessoa”285.

O roubo abarca, também, o crime de coacção (art. 154.º do CP) e de ameaça (art. 153.º do CP), sendo que o crime de coacção já consome o crime de ameaça (art. 154.º do CP). Portanto, “se o crime de coacção implica o constrangimento, por meio de violência ou de ameaça, a uma acção, omissão, ou a suportar uma actividade, no roubo a

278

Cfr. CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Conimbricense…, Tomo II, p. 160.

279

Ibidem. Neste mesmo sentido, JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS,Crimes contra…, p. 91. 280

Cfr. MANUEL LOPES MAIA GONÇALVES,Código Penal Português…, 15.ª Edição, pp. 683-684.

281

Idem,p. 684. Neste sentido MANUEL LEAL-HENRIQUES,MANUEL SIMAS SANTOS, Código Penal…, Vol. II, 3.ª

Edição, p. 741 e JOSÉ ANTÓNIO BARREIROS,Crimes contra…, p. 86.

282

Cfr. CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Conimbricense…, Tomo II, p. 161.

283

Ibidem. 284

Ibidem. 285

Cfr. MANUEL LEAL-HENRIQUES,MANUEL SIMAS SANTOS, Código Penal…, Vol. II, 3.ª Edição, p. 740. Neste

vítima é constrangida (também por meio de violência ou de ameaça ou ainda da colocação na impossibilidade de resistir) a uma acção específica – entrega de coisa móvel –, ou então é constrangida a uma omissão específica – a tolerância da subtracção de coisa móvel”286.

A relação do crime de roubo com o crime de sequestro tem uma pequena particularidade. Nesta medida, “se o sequestro (art. 158.º) é usado como meio para subtrair coisa alheia ou constranger à sua entrega, será consumido pelo roubo”; “no entanto, se se mantém o sequestro para além do necessário à consumação do roubo, já haverá concurso efectivo de crimes”287

.

O roubo pode, ainda, englobar o crime de ofensas corporais simples (art. 143.º do CP) ou de ofensas corporais graves (n.º 3 do art. 148.º do CP) e o próprio homicídio negligente (art. 137.º do CP) nos casos de roubo agravado (al. a) do n.º 2 e n.º 3 do art. 210.º do CP)288.

Contrariamente a todos os outros, “entre o roubo e a extorsão (art. 222.º) existe uma relação de exclusão; ou seja, ou estamos perante o roubo ou perante a extorsão289. A principal diferença reside no facto de o roubo ser um crime contra a propriedade, tendo só por objecto coisa móvel alheia, enquanto a extorsão “é um crime contra o património em geral, podendo ter como objecto qualquer disposição patrimonial de modo a acarretar prejuízo para a pessoa ofendida, podendo até não haver subtracção ou entrega de qualquer coisa”290

.

Quanto ao sujeito passivo no crime de roubo, o mesmo “pode ser o proprietário da coisa móvel, mas pode ainda ser o seu detentor – a pessoa que tem a guarda do bem”291, ou, até mesmo, “outra pessoa constrangida a entregar a coisa móvel pelos

meios aqui especificados”292.

286

Cfr. CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Conimbricense…, Tomo II, p. 162. Refere, ainda, o Autor que “o crime de ameaça (art. 153.º) constitui um dos meios de coacção (cf. art. 154.º) e, também (consequentemente), um dos meios expressamente referidos no crime de roubo”. Ibidem.

287 Ibidem. 288 Ibidem. 289 Ibidem. 290

Cfr. MANUEL LOPES MAIA GONÇALVES, Código Penal Português…, 15.ª Edição, p. 684. Neste sentido

MANUEL LEAL-HENRIQUES,MANUEL SIMAS SANTOS, Código Penal…, Vol. II, 3.ª Edição, p. 741.

291

Cfr. CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Conimbricense…, Tomo II, p. 163. 292

Cfr. MANUEL LOPES MAIA GONÇALVES,Código Penal Português…, 15.ª Edição, p. 685. O Autor dá como

exemplos “um empregado, um gestor de negócios, um familiar ou um elemento de força policial vítimas de violências causadas pelo ladrão para se apoderar da coisa móvel à guarda daqueles”. Ibidem. Existem, ainda, outros conceitos de sujeito passivo, nomeadamente, qualquer pessoa que oponha resistência à subtracção do bem ou ainda o terceiro que presta ajuda ao proprietário ou detentor. Neste sentido Vide CONCEIÇÃO FERREIRA DA CUNHA, “Comentário ao artigo 210.º do Código Penal”, in Comentário

Capítulo IV

– Da manutenção, conservação e restituição dos