CAPITULO IV- OS CAMINHOS METODOLOGICOS
4.1 DO DESENHO, DA ABORDAGEM E DO TIPO DE PESQUISA
Foi exatamente, como no dito no poema Função da Arte 1, de Galeano (2003, p.49), que nos sentimos ao pensar na escrita da metodologia. Foi tanta a imensidão desta pesquisa que recorremos à etnografia para nos ajudar a olhar o fenômeno. De inspiração qualitativa o processo de investigação metodológica que guiou a pesquisa em tela, foi pautado em pressupostos teóricos da etnografia. Entendemos que essa abordagem nos colocou mais próximos dos contextos, dos sujeitos e das suas subjetividades para que pudéssemos compreender os significados que os sujeitos dão às práticas pedagógicas construídas, pois, são nas nuances do cotidiano que esses significados vão sendo construídos. Para compreender essa construção foi necessário nos imbricar nesse e desse cotidiano, a etnografia nos chamou para esse mergulho.
Fino (2011) nos convida, através de uma escrita carregada de criticidade, questionar sobre a verdade contida nesse processo em que usamos os princípios etnográficos. Os questionamentos que o autor traz chegam como lanças nos nossos pensamentos e práticas investigativas nos tirando da zona de conforto para pensarmos mais lucidamente acerca da escolha metodológica. Trazendo perguntas inquietadoras como:
Será que todos os projetos de mestrado e doutoramento, que reclamam terem utilizado procedimentos etnográficos, os utilizaram mesmo? Envolveram mesmo um longo período de interações sociais intensas entre o investigador e os atores, no meio destes, durante o qual os dados foram recolhidos de forma sistemática durante a estada no campo, obtiveram-se dados provenientes de fontes diversas, nome nomeadamente através de observação participante (Lapassade,1991,1992,2001), em que o observador vive com as pessoas e partilha suas atividades? (...) Estudaram-se documento “oficiais” e documentos pessoais(...) Basearam-se os processos na compreensão e descoberta, ou testaram-se respeitáveis hipóteses de trabalho, trazidas pelo investigador para dentro do campo? E quanto ao diário de bordo? Existiu mesmo? Que importância revelou para ter a descrição\interpretação da cultura estudada? (FINO,2011, p.109)
Essas interrogantes fortaleceram mais a escolha metodológica, por estas nos direcionarem para posturas de fato etnográficas, fazendo-nos corrigir o traçado metodológico, enxergando na etnografia o único caminho possível para compreensão da inovação pedagógica nas classes hospitalares, pois a vemos segundo os olhos de Lapassade (2005, p. 82) ao anunciar que ela é “um encontro social”
A escolha por uma pesquisa fincada em princípios etnográficos garantiu sondar, questionar, descrever e compreender as práticas pedagógicas, enquanto práticas culturais, na identificação da Inovação Pedagógica. Claro que com o discernimento que nos orienta Fino (2011) ao afirmar que é nosso entendimento sobre as práticas referenciadas na docência que ajudará a compreender a inovação e não apenas nossa escolha metodológica pela etnografia.
Outra possibilidade que nos foi fornecida pela etnografia foi o caráter flexível e autocorretivo que ela apresenta. Carvalho e Muller (2009, p.87) orienta que:
A flexibilidade e a natureza autocorretiva da etnografia aplicam-se não apenas as questões de pesquisa e a coleta de dados, mas também a análise dos dados. Diferentemente das abordagens positivista, a analise interpretativa dos dados etnográficos não pode ser totalmente especificada de antemão.
Uma demonstração disso é que ao iniciarmos a proposição desse estudo tínhamos a intenção de entender a construção da aprendizagem sob o aspecto da aula e dos conteúdos vividos nela, entretanto ao nos depararmos com o cotidiano, fomos entendendo que as aprendizagens construídas no ambiente hospitalar se forjam dentro da sala, mas estão para além dela. Percebemos que toda ação gerava aprendizagens de níveis e naturezas diferenciadas.
Outra retomada no percurso foi quando a época da apresentação deste projeto investigativo ao corpo de docentes da UMa, fomos interpeladas pelo Professor Darº Fernando Correia que nos questionou acerca do protocolo interrogativo que propúnhamos levantar as patologias encontradas ali. O professor nos questionava, que sentido teria sabermos a patologia se o que buscávamos era aprendizagem? A questão levantada se fez real no campo de pesquisa. A etnografia nos mostrou que o Professor tinha razão. Suspendemos a entrevista semiestruturada.
A etnografia também nos deu a possibilidade de entender que toda pesquisa precisa ser sustentável e comprometida, para isso se faz necessário uma compreensão sistêmica do espaço e das construções feitas dentro dele, inclusive seus sistemas simbólicos de comunicação. A observação participante seria a forma mais comprometida para olhar essas nuances, por conta de que ela diz respeito ao compromisso com o outro, com suas construções, com sua história.
A condição sine que non para isso foi nossa entrada na comunidade de professores e alunos, do hospital, local onde foram percebidas, as alegrias e agruras que o cotidiano trazia. A percepção desses detalhes exigiu nossa presença junto aos sujeitos da investigação, nesse sentido não foi só olhar, foi sentir. Para essa forma de pensar o cotidiano, Sousa (2000, p.3) nos presenteia dizendo:
A etnografia ao conferir essa outra perspectiva sociológica e fragmentária à educação vem assim valorizar as “pequenas coisas”, os “pequenos mundos”, as “conversas banais” [...] São essas “pequenas coisas” que passam a ser o objeto privilegiado de investigação. [...] um olhar interessado implicado [...].
Nesse sentido, foi necessário envolvimento e implicação para se autorizar falar sobre o que foi visto. Sentimo-nos autorizados a falar por nos colocar como um deles dentro mesmo daquilo que Macedo (2012, p.22) chama de “implicação como competência epistemológica e qualidade investigativa”. Percebíamos os sujeitos como atores sociais. Foi necessário também certo distanciamento, um “epoché”, uma forma refinada de se distanciar do objeto, para entendê-lo. Desta forma a etnografia foi aproximação e distanciamento. Optamos, então por um estudo de caso de cunho etnográfico, visto que este se configura como uma pesquisa empírica que “investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, [...]baseia-se em várias fontes de evidências, com dados precisando convergir em um formato de triângulo[...]” (YIN,2005, pp. 32-33).
A imersão nesse campo exigiu um mergulho profundo no locus, para percepção dos detalhes, das belezas, “feiuras”, dos conflitos, isso demandou muita maturidade, sensibilidade para perceber o que ainda não foi dito. Dentro disso o dizer de Lapassade (2005, p.29) nos coloca em constante reflexão “o etnólogo se olha fazendo a etnografia”.
Estivemos atenta a todos os detalhes visto pelos diversos ângulos: pelo corpo, nos murais, na conversa entre as crianças, no diálogo entre mãe/acompanhante e criança, na mediação da professora, na mediação entre os alunos, nas atividades dentro da classe e nos leitos, nas brincadeiras dirigidas ou não pela professora. Observamos se os alunos eram estimulados a resolver problemas a partir de desafios; se o currículo partia de curiosidades dos estudantes ou se era uma reprodução das escolas de origem dos alunos.
4.2 A ENTRADA NO LÓCUS: SILÊNCIO E ANSIEDADE PARA A PRODUÇÃO