1 De Planaltina a Brasília. O início e o fim
1.3 Do desenvolvimento do projeto ao seu abandono
Após o regresso de Le Corbusier ao seu ateliê em Paris, mais precisamente no dia 11 de janeiro de 1963, Pierre J. Vimont, então Chefe de Gabinete do Ministério das Relações Exteriores da França, emitiu um comunicado oficial – enviado ao arquiteto franco-suíço por Haulpetit-Fourichon no dia 06 de fevereiro daquele mesmo ano – informando que ele, Le Corbusier, havia sido oficialmente designado para projetar uma nova embaixada para a França, em Brasília. Pouco depois de receber o comunicado, Le Corbusier inicia uma série de estudos para o novo projeto no seu ateliê na Rue de Sèvres.
58 Consultar o volume 2 da presente tese de doutorado, volume composto pelos documentos encontrados nos acervos pesquisados e aqui citados.
Figura 55 - Documento do Ministério das Relações Exteriores da França, em 11/01/1963 (Dossiê n.
106, América: 1945-1978). Página 1 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 56 - Documento do Ministério das Relações Exteriores da França, em 11/01/1963 (Dossiê n.
106, América: 1945-1978). Página 2 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Alguns dias depois de receber tal notícia, Le Corbusier recebeu uma correspondência datada de 21 de janeiro de 1963, na qual Darcy Ribeiro reiterava o convite feito, durante a última viagem do arquiteto ao Brasil, para que Le Corbusier projetasse o Museu Nacional do Brasil59. Contudo, pouco tempo depois, em 08 de março do mesmo ano, Ítalo Campofiorito escreveu a Le Corbusier informando que Darcy Ribeiro não era mais o ministro da Educação e Cultura do Brasil. Parecia ser o princípio de mais uma “incumbência” feita ao arquiteto estrangeiro que não iria adiante.
Figura 57 - Correspondência de Darcy Ribeiro, ministro da Educação e Cultura do Brasil, para Le Corbusier em 21/01/1963 (FLC D1-3-121-002). Página 1 de 1.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
59Para consultar a versão traduzida para o português desta correspondência, ver: SANTOS et alii, 1987, p. 294. A versão original em francês está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
Figura 58 - Correspondência de Ítalo Campofiorito para Le Corbusier em 08/03/1963 (FLC D1-3-158-001). Página 1 de 1.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Mesmo assim, em 25 de abril daquele mesmo ano, Le Corbusier escreveu para Darcy Ribeiro, como se este ainda estivesse no cargo de Ministro da Educação e Cultura, para informá-lo que o arquiteto faria um contrato para a elaboração do projeto e construção do Museu Nacional do Brasil, logo depois de receber um retorno de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer a respeito da “solicitação” feita a ele, da definição dos responsáveis pelo projeto e pela construção em Brasília, e dos honorários previstos.
Figura 59 - Correspondência de Le Corbusier para Darcy Ribeiro, ministro da Educação e Cultura do Brasil, em 25/04/1963 (FLC D1-3-140-001). Página 1 de 1.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Os projetos para o Museu Nacional do Brasil, a Casa da França e a Embaixada da França são citados por Le Corbusier na correspondência que este escreveu para Pierre J. Vimont, chefe de gabinete do Ministério das Relações Exteriores da França, em resposta ao comunicado oficial que incumbia o arquiteto da elaboração do projeto da nova embaixada da França (04/04/1963). No final da correspondência, Le Corbusier informava J. Vimont que, no mês anterior, Ítalo Campofiorito havia enviado ao escritório da Rue de Sèvres os planos referentes ao setor cultural de Brasília, local onde ele, Le Corbusier, deveria projetar o Museu Nacional do Brasil, em um terreno ao lado da Catedral, obra projetada e construída por Oscar Niemeyer.
Figura 60 - Correspondência de Le Corbusier para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 04/04/1963 (Dossiê n. 106, América: 1945-1978). Página 1 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 61 - Correspondência de Le Corbusier para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 04/04/1963 (Dossiê n. 106, América: 1945-1978). Página 2 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Em 20 de maio de 1963, Le Corbusier recebeu, no seu ateliê em Paris, a visita do diplomata Wladimir Amaral Murtinho, conforme consta na anotação60 feita pelo próprio arquiteto em uma das páginas de seu caderno T69, o mesmo caderno no qual, anteriormente, ele havia registrado anotações e desenhos elaborados meses antes, durante sua passagem por Brasília. Na ocasião, o diplomata tinha acabado de retornar ao Brasil e assumir a coordenação da Comissão de Transferência do Ministério das Relações Exteriores, ainda no Rio de Janeiro, para a nova capital construída no Planalto Central.61 Isso indica que Murtinho teria visitado o arquiteto franco-suíço para tratar das questões referentes aos projetos do Museu Nacional do Brasil, da Casa da França e, sobretudo, da Embaixada da França. Não se sabe ao certo o que foi dito a respeito dos três “encargos”. Mas, uma correspondência escrita por Lúcio Costa ao amigo Le Corbusier, no mesmo dia em que este recebia a visita do diplomata brasileiro, revelaria um novo contexto histórico brasileiro, que diminuiria as expectativas do arquiteto de construir o Museu Nacional do Brasil e a Casa da França, em Brasília.62
60 Tradução nossa feita a partir da transcrição extraída de LE CORBUSIER, 1982, 4 v., v. 4, n.p., fig.
n. 981: “le 20 mai 1963 Mr Murtilho Murtinho chef de cabinet du ministre des Affaires étrangères du Brésil à Brazilia // est venu 35 Sèvres” (FLC W1-4-981-001). O documento está disponível para consulta no volume 2 desta tese de doutorado.
61 Na ocasião, o diplomata teria acabado de retornar a Brasília, depois de ter sido transferido para a Embaixada do Brasil em Tóquio (Japão), na segunda metade de outubro de 1961, para que ficasse afastado do país, a fim de desacelerar o processo de transferência do Ministério das Relações Exteriores do Rio de Janeiro para Brasília. Desde 1958, quando Murtinho teria sido designado para trabalhar com o arquiteto Oscar Niemeyer na elaboração do projeto do Palácio do Itamaraty, vinha realizando o esforço de transferir o Ministério das Relações Exteriores para a nova capital federal.
Fonte: MENDES, Manuel. O cerrado de casaca. Brasília: Thesaurus, 1995, p. 32-33.
62Para consultar a versão traduzida para o português desta correspondência, ver: SANTOS et alii, 1987, p. 294. A versão original em francês está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
Figura 62 - Página do caderno T69: destaque para a anotação da visita do diplomata Wladimir Amaral Murtinho, em 20 de maio de 1963, no ateliê da Rue de Sèvres (FLC W1-4-981-001).
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Nessa correspondência, Lúcio Costa informa ao amigo que, ainda que Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro tanto desejassem que Le Corbusier fizesse o Museu Nacional do Brasil e a Casa da França, dadas as circunstâncias de sua visita no ano anterior, o significado da sua obra e a sua idade, a situação do Brasil naquele momento era diferente quando comparada ao momento em que os dois projetos haviam sido “solicitados”. Lúcio Costa informa que, após a visita do amigo ao país, Darcy Ribeiro havia retomado suas funções como reitor da Universidade Nacional de Brasília (UnB) – Ítalo Campofiorito já havia informado Le Corbusier que Darcy Ribeiro não ocupava mais o cargo de Ministro da Educação e Cultura do Brasil – e que o congresso havia aprovado um plano trienal de contenção da economia, uma vez que além de uma altíssima inflação, o país estava em meio a uma crise política e social. O brasileiro aconselhou, então, o amigo franco-suíço a propor ao governo brasileiro a separação daquela “solicitação” em três partes: 1) anteprojeto, 2)
desenvolvimento do projeto e 3) execução. Assim, ele teria mais chances de ter a primeira parte aprovada e, talvez, no futuro, conseguir aprovar as demais até que os dois projetos fossem construídos.
Figura 63 - Correspondência de Lúcio Costa para Le Corbusier em 20/05/1963 (FLC D1-3-147-001).
Página 1 de 1.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Não foram encontrados outros documentos com maiores esclarecimentos sobre o processo de “encomenda” desses dois projetos, sobre os personagens envolvidos (Le Corbusier, Jacques Baeyens, Darcy Ribeiro, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Pierre J. Vimont, etc.), e os motivos que levaram à sua desistência prematura. Nas pesquisas anteriores também não constam mais informações sobre os dois projetos. A crise política e social, na qual o país estava mergulhado, e o fato de Darcy Ribeiro ser o ex-ministro da Educação e Cultura do Brasil fizeram com que diminuíssem as chances de Le Corbusier projetar e construir o Museu Nacional do Brasil e a Casa da França. No ano seguinte, o contexto vivido pelo país acabaria culminando em um golpe, com a instauração do regime militar no Brasil, dificultando ainda mais a aprovação daquelas duas “incumbências” ao arquiteto estrangeiro.
Assim, em 1963, Le Corbusier teria a chance de projetar e construir apenas a Embaixada da França em Brasília, conforme indica um documento enviado pelo Ministério das Relações Exteriores da França ao arquiteto franco-suíço, no dia 29 de maio daquele mesmo ano, a respeito dos honorários que deveriam ser pagos a ele pelo governo francês.
Figura 64 - Documento do Ministério das Relações Exteriores da França para Le Corbusier em 29/05/1963 (FLC D1-3-143-001). Página 1 de 2.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Figura 65 - Documento do Ministério das Relações Exteriores da França para Le Corbusier em 29/05/1963 (FLC D1-3-143-002). Página 2 de 2.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Dois documentos encontrados revelam parte das discussões ocorridas entre Le Corbusier e o Ministério das Relações Exteriores a respeito dos “ajustes”
solicitados pelo segundo para o projeto da Embaixada da França, ainda em desenvolvimento no ateliê da Rue de Sèvres. O primeiro revela que Haulpetit-Fourichon, então chefe do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, esteve no ateliê do arquiteto, no dia 20 de setembro de 1963, provavelmente para conhecer o projeto, mesmo que ainda em desenvolvimento.
Pouco mais de um mês depois (29/10/1963), ele enviou uma nota para J. Vimont, então ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, relatando as soluções projetuais propostas por Le Corbusier até aquele momento de desenvolvimento do projeto.
Figura 66 - Nota de Haulpetit-Fourichon, chefe do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 29/10/1963 (Dossiê n.
106: América 1945-1978). Página 1 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 67 - Nota de Haulpetit-Fourichon, chefe do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 29/10/1963 (Dossiê n.
106: América 1945-1978). Página 2 de 2.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
No dia 18 de novembro de 1963, Le Corbusier enviou a Haulpetit-Fourichon, do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, a primeira versão do anteprojeto ainda inconcluso da Embaixada da França, contendo: nove pranchas com desenhos, datadas de 15 de novembro de 196363 e duas pranchas com fotografias da maquete. Cada uma das pranchas com desenhos continha:
a. Implantação (escala: 1:200);
i. Residência do embaixador: primeiro e terceiro pavimento (escala 1:200).
Figura 68 - Correspondência de Le Corbusier para Haulpetit-Fourichon, chefe do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, em 18/11/1963 (FLC D1-3-152-001). Página 1 de 2.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
63 As nove pranchas entregues não foram encontradas nos acervos pesquisados. Porém, encontramos quatro fotografias dessa primeira maquete. Três delas foram encontradas no acervo da Embaixada da França, em Brasília, e uma na Fundação Le Corbusier. Todas estão disponíveis para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
Figura 69 - Correspondência de Le Corbusier para Haulpetit-Fourichon, chefe do Serviço de Imóveis do Ministério das Relações Exteriores da França, em 18/11/1963 (FLC D1-3-152-002). Página 2 de 2.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Poucos dias depois, Haulpetit-Fourichon viajou para o Rio de Janeiro (Brasil) para participar de uma reunião que ocorreu no dia 25 de novembro, na Embaixada da França da mesma cidade, acerca do anteprojeto entregue por Le Corbusier para a futura embaixada em Brasília.
Figura 70 - Ata da reunião emitida pelo Consulado Geral da França em São Paulo, em 25/11/1963 (Dossiê n. 106: América 1945-1978). Página 1 de 4.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 71 - Ata da reunião emitida pelo Consulado Geral da França em São Paulo, em 25/11/1963 (Dossiê n. 106: América 1945-1978). Página 2 de 4.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 72 - Ata da reunião emitida pelo Consulado Geral da França em São Paulo em 25/11/1963 (Dossiê n. 106: América 1945-1978). Página 3 de 4.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Figura 73 - Ata da reunião emitida pelo Consulado Geral da França em São Paulo em 25/11/1963 (Dossiê n. 106: América 1945-1978). Página 4 de 4.
Fonte: Centro de Arquivos Diplomáticos de La Courneuve.
Entre dezembro daquele mesmo ano e janeiro seguinte, Le Corbusier, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa trocaram correspondências, nas quais o arquiteto franco-suíço demonstra, aos brasileiros, que o desenvolvimento do projeto para a Embaixada da França ainda estava em andamento no seu ateliê.
Na correspondência enviada em 30 de dezembro de 1963, Le Corbusier pede a Oscar Niemeyer o envio do gráfico de insolação do terreno destinado à Embaixada da França para que ele desenhe o brise-soleil que irá compor os edifícios. Le Corbusier ainda incluiu, como anexo à correspondência, um desenho que havia feito havia pouco tempo para o projeto do brise-soleil do Centro de Cálculos Eletrônicos Olivetti (1962), em Rho (Itália)64.
Figura 74 - Correspondência de Le Corbusier para Oscar Niemeyer em 30/12/1963. Página 1 de 1.
Fonte: Casa de Lúcio Costa.
Quase um mês depois (27/01/1964), Le Corbusier escreve para Lúcio Costa para contar ao amigo que pretendia mobiliar o edifício da Embaixada da França com
64 Encontramos apenas a correspondência, mas não seu anexo (FLC D1-3-157-001). A correspondência está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
os móveis que ele e os arquitetos Pierre Jeanneret e Charlotte Perriand, seus colaboradores no ateliê na Rue des Sèvres, haviam projetado em 1928.65
Figura 75 - Correspondência de Le Corbusier para Lúcio Costa em 27/01/1964. Página 1 de 1.
Fonte: Casa de Lúcio Costa.
Lúcio Costa responde a Le Corbusier em 15 de março de 1964. No início da correspondência, Costa disse que enviaria ao amigo, separadamente, os gráficos e os cálculos de insolação66 feitos por sua filha, a arquiteta Maria Elisa Costa, e pelo engenheiro Augusto Guimarães Filho67. O brasileiro demonstrou apoiar a ideia do amigo de incluir no edifício da Embaixada da França o mobiliário projetado pelo próprio Le Corbusier juntamente com Jeanneret e Perriand. Costa chegou a sugerir
65Para consultar a versão traduzida para o português desta correspondência, ver: SANTOS et alii, 1987, p. 295-296. A versão original em francês está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
66 Desconhecemos os gráficos de insolação que Lúcio Costa enviou a Le Corbusier. Contudo, foi encontrado um memorial de cálculo elaborado por Lúcio Costa como estudo para a implantação dos terrenos destinados às embaixadas estrangeiras no Plano Piloto de Brasília, de acordo com a insolação, no acervo do Arquivo Público do Distrito Federal. Também está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
67 O engenheiro Augusto Guimarães Filho foi indicado por Lúcio Costa para participar do desenvolvimento do Plano Piloto de Brasília, assumindo a direção da Divisão de Urbanismo do DUA da NOVACAP. Braço direito de Costa, o engenheiro foi também o responsável pela construção do projeto da nova capital federal. Fonte: COSTA, Maria Elisa. Lúcio Costa: inventor de Brasília. São Paulo: ECidade, 2013, p. 54.
que o franco-suíço encarregasse Perriand do projeto de interiores do edifício. Uma nota escrita por Le Corbusier no dia primeiro de abril, e anexada por ele à correspondência de Lúcio Costa, informa que Perriand havia sido encarregada de projetar o mobiliário da residência do embaixador, enquanto o mobiliário da Chancelaria ficaria a cargo de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.68
Figura 76 - Correspondência de Lúcio Costa para Le Corbusier em 15/03/1964. Página 1 de 1.
Fonte: Casa de Lúcio Costa.
Duas semanas após a carta de Lúcio Costa para Le Corbusier, mais precisamente no dia 01 de abril de 1964, ocorreu um golpe militar no Brasil, encerrando o governo do presidente democraticamente eleito João Goulart – também conhecido como Jango – e instaurando uma ditadura que continuou até o dia 15 de março de 1984. Sobre tal acontecimento, gerador de um período de incertezas e, dentre elas, possivelmente, a incerteza de dar continuidade ao projeto
68 Para consultar a versão traduzida para o português destes documentos (correspondência e nota),
ver: SANTOS et alii, 1987, p. 296-297. A versão original em francês está disponível para consulta no volume 2 da presente tese de doutorado.
encomendado a Le Corbusier para Brasília, destaca-se um trecho da entrevista de Campofiorito para Colette Di Matteo69:
Infelizmente, entre dezembro de 1962 e abril de1964, a situação política do Brasil sofreu profundas mudanças. Eu mesmo tive que anunciar a Le Corbusier que não era mais possível construir nada no Brasil na conjuntura que havia sido instaurada, e menos ainda o da casa da França. (DI MATTEO, 2009, p. 31-35)
No dia 29 de maio de 1964, Le Corbusier escreveu para J. Vimont, o então ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, para informá-lo que as pranchas referentes ao anteprojeto da Embaixada da França tinham sido finalizadas.
Dessa vez, tratava-se da versão completa e final, contendo dezenove pranchas que, segundo o arquiteto, poderiam ser revisadas a pedido de Vimont e/ou do engenheiro responsável pela construção dos edifícios em Brasília. Todas as pranchas são datadas do dia 05 de maio de 1964 e foram desenhadas pelo arquiteto chileno e colaborador no ateliê da Rue de Sèvres, Guillermo Jullian de la Fuente70. Cada prancha continha:
1) Implantação (escala: 1:200);
2) Residência do embaixador: planta do térreo (escala 1:100);
3) Residência do embaixador: planta do primeiro pavimento (escala
6) Residência do embaixador: corte longitudinal (escala 1:100) 7) Residência do embaixador: corte transversal (escala 1:100) 8) Residência do embaixador: fachadas (escala 1:100)
69 Para conferir a entrevista completa, ler: DI MATTEO, Colette; TIDORI, Jean-Martin (org.).
Embaixada da França / L´Ambassade de France: Brasília. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Instituto Totem Cultural, 2009, p. 31-35.
70 Segundo GUERRERO (2016, 2 v., v. 1, p. 500), Guillermo Jullian de la Fuente ingressou em um dos Bureaux d´Études Techniques (BET), mais precisamente no escritório satélite de Georges-Marcs Présenté, em Paris (França), como “dessinateur d´architecture”, em 03 de abril de 1959, com a indicação de Le Corbusier. Sua transferência para o ateliê do arquiteto na Rue des Sèvres, também em Paris (França), ocorreu no verão daquele mesmo ano, quando uma vaga foi aberta.
9) Chancelaria: planta do térreo (escala 1:100);
10) Chancelaria: planta do primeiro pavimento (escala 1:100);
11) Chancelaria: planta do segundo pavimento (escala 1:100);
12) Chancelaria: planta do terceiro pavimento (escala 1:100);
13) Chancelaria: planta do quarto pavimento (escala 1:100);
14) Chancelaria: planta do quinto pavimento (escala 1:100);
15) Chancelaria: planta do sexto pavimento (escala 1:100);
16) Chancelaria: planta do sétimo pavimento (escala 1:100);
17) Chancelaria: corte (escala 1:100);
18) Chancelaria: fachada (escala 1:100);
19) Chancelaria: fachada (escala 1:100).
Figura 77 - Correspondência de Le Corbusier para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 29/05/1964 (FLC D1-3-181-001). Página 1 de 3.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Figura 78 - Correspondência de Le Corbusier para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 29/05/1964 (FLC D1-3-181-002). Página 2 de 3.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Figura 79 - Correspondência de Le Corbusier para J. Vimont, ministro plenipotenciário e diretor do Departamento Pessoal e da Administração Geral do Ministério das Relações Exteriores da França, em 29/05/1964 (FLC D1-3-181-003). Página 3 de 3.
Fonte: Fundação Le Corbusier.
Interessante notar que as duas plantas dos subsolos, a da Chancelaria (FLC 28420) e a da residência do embaixador (FLC 28419), nomeadas como “nível zero”, não constam da lista enviada por Le Corbusier ao ministro. Verificamos que essas plantas foram desenhadas, posteriormente, no dia 04 de setembro de 1964 por Guillermo Jullian de la Fuente71. Porém, Le Corbusier já considerava que os dois edifícios teriam subsolo, conforme indicado nas pranchas de corte dos dois volumes (FLC 28417; FLC 28418) e no desenho da escada vinda do subsolo e indicada na planta do térreo (FLC 21065) da residência do embaixador, todas datadas de 05 de
Interessante notar que as duas plantas dos subsolos, a da Chancelaria (FLC 28420) e a da residência do embaixador (FLC 28419), nomeadas como “nível zero”, não constam da lista enviada por Le Corbusier ao ministro. Verificamos que essas plantas foram desenhadas, posteriormente, no dia 04 de setembro de 1964 por Guillermo Jullian de la Fuente71. Porém, Le Corbusier já considerava que os dois edifícios teriam subsolo, conforme indicado nas pranchas de corte dos dois volumes (FLC 28417; FLC 28418) e no desenho da escada vinda do subsolo e indicada na planta do térreo (FLC 21065) da residência do embaixador, todas datadas de 05 de