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2.7 Da Proteção à Maternidade e à Infância

2.7.1 Do Direito ao Exercício Digno da Maternidade

O exercício da maternidade se inicia com a gestação. E, visando assegurar

dignidade a esse momento tão peculiar na vida da mulher, o sistema normativo

brasileiro prevê em vários dispositivos formas que efetivam a proteção constitucional

da maternidade e da infância.

A esse respeito, voltando-se ao aspecto das mulheres que cumprem pena

privativa de liberdade, a CF, o ECA e a LEP preveem a manutenção conjunta de

mãe e filho a fim de ser procedido ao aleitamento materno:

Art. 5º L - às presidiárias serão asseguradas condições para que possam

permanecer com seus filhos durante o período de amamentação;

Art. 9º ECA O poder público, as instituições e os empregadores propiciarão

condições adequadas ao aleitamento materno, inclusive aos filhos de mães

submetidas a medida privativa de liberdade.

Art. 83. O estabelecimento penal, conforme a sua natureza, deverá contar

em suas dependências com áreas e serviços destinados a dar assistência,

educação, trabalho, recreação e prática esportiva.

§ 2o Os estabelecimentos penais destinados a mulheres serão dotados de

berçário, onde as condenadas possam cuidar de seus filhos, inclusive

amamentá-los, no mínimo, até 6 (seis) meses de idade.

Art. 89 LEP. Além dos requisitos referidos no art. 88, a penitenciária de

mulheres será dotada de seção para gestante e parturiente e de creche

para abrigar crianças maiores de 6 (seis) meses e menores de 7 (sete)

anos, com a finalidade de assistir a criança desamparada cuja responsável

estiver presa.

Parágrafo único. São requisitos básicos da seção e da creche referidas

neste artigo:

I – atendimento por pessoal qualificado, de acordo com as diretrizes

adotadas pela legislação educacional e em unidades autônomas; e

II – horário de funcionamento que garanta a melhor assistência à criança e à

sua responsável.

Além disso, recentemente houve três importantes modificações legislativas,

no sentido de garantir o exercício de maternidade pela mulher privada de liberdade,

quais sejam: a Lei nº. 11.942/09, que assegura às mães reclusas e aos

recém-nascidos condições mínimas de assistência no exercício da maternidade; a Lei nº.

12.403/11, que estendeu às gestantes e mães, presas provisórias, o direito à prisão

domiciliar em substituição à prisão preventiva e, por fim, a Lei nº. 12.962/14, que

regula sobre o convívio entre pais em situação de prisão e seus filhos.

Outrossim, a Resolução nº. 3 do Conselho de Política Criminal e Penitenciária

(CNPCP) de 15 de julho de 2009 disciplina a situação de filhos de mulheres

encarceradas e institui o prazo mínimo de um ano e seis meses de manutenção das

crianças junto às genitoras.

Toda essa base legislativa é justificada pela importância da relação entre mãe

e filho, tanto no âmbito físico e psicológico, principalmente nas fases iniciais, que

correspondem à gestação e aos primeiros contatos maternais. De acordo com LANA

(2001), a mulher, durante a gestação, acaba acumulando uma série de

preocupações, como aquelas inerentes ao nascimento propriamente dito, referentes

por exemplo à anestesia, à internação hospitalar, às dores e ao tempo do parto. O

pós-parto é considerado um período emocional sensível para a mãe recente,

podendo ela ficar apreensiva e deprimida, em graus variados e esses sentimentos

maternos são, sem dúvida, os maiores influenciadores do que irá ocorrer em relação

à amamentação, período de suma importância na relação mãe e filho.

Nesse diapasão, para se garantir um mínimo de dignidade ao exercício da

maternidade, a mulher, na gestação e no pós-parto, deve estar em um ambiente

salutar, bem como ter como suporte um acompanhamento médico além de, muitas

vezes, também psicológico.

Em conformidade com isso, o ECA e a LEP asseguram acompanhamento

médico à mulher no período pré e pós-natal:

Art. 8º É assegurado à gestante, através do Sistema Único de Saúde, o

atendimento pré e perinatal.

§ 4o Incumbe ao poder público proporcionar assistência psicológica à

gestante e à mãe, no período pré e pós-natal, inclusive como forma de

prevenir ou minorar as consequências do estado puerperal.

Art. 14. A assistência à saúde do preso e do internado de caráter preventivo

e curativo, compreenderá atendimento médico, farmacêutico e odontológico.

§ 3o Será assegurado acompanhamento médico à mulher, principalmente

no pré-natal e no pós-parto, extensivo ao recém-nascido.

Já no âmbito internacional, a Assembleia Geral da Organização das Nações

Unidas (ONU), em dezembro de 2010, aprovou as Regras de Bangkok, que tratam

acerca das regras mínimas para tratamento da mulher presa e medidas não

privativas de liberdade, tendo sido o Brasil signatário. Dessas regras, destaca-se as

de nº 48 e nº 50:

Regra nº. 48 Mulheres presas não deverão ser desestimuladas a

amamentar seus filhos, salvo se houver razões de saúde específicas para

tal.

1. Mulheres grávidas ou lactantes deverão receber orientação sobre dieta e

saúde dentro de um programa a ser traçado e supervisionado por um

profissional da saúde qualificado. Deverá ser fornecida gratuitamente

alimentação adequada e pontual para gestantes, bebês, crianças e

lactantes em um ambiente saudável e com a possibilidade para exercícios

físicos regulares […];

3. As necessidades médicas e nutricionais das mulheres presas que tenham

recentemente dado a luz, mas cujos filhos não se encontram com elas na

prisão, deverão ser incluídas em programas de tratamento.

Regra nº. 50 - Mulheres presas cujos filhos estejam na prisão deverão ter o

máximo de oportunidades possíveis de passar tempo com eles.

Nesse sentido, importa trazer à tona a pesquisa intitulada “Dar à Luz na

Sombra – Condições atuais e possibilidades futuras para o exercício da maternidade

por mulheres em situação de prisão” – realizada no âmbito do Projeto Pensando o

Direito, da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL/MJ),

em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) -, a qual

problematizou os principais entraves que impossibilitam a materialização desses

direitos às mulheres em privação de liberdade. Além disso, tal pesquisa apresentou

propostas concretas para o exercício desses direitos, dentre as quais estão a

concessão da medida de prisão domiciliar, de forma não atrelada apenas ao período

de aleitamento - tendo em conta a relevância da genitora estar junto ao filho nos

primeiros períodos de sua vida - bem como que a separação de ambos acomete à

mulher sofrimento e angústia.

A despeito disso, os pesquisadores argumentam que:

Uma das saídas desse (falso) paradoxo, entre institucionalizar a criança ou

separá-la da mãe, seria a prisão domiciliar, essa opção choca com a cultura

do encarceramento e a priorização do “combate ao crime” presente nos

discursos e práticas do sistema de justiça. O aumento do encarceramento

feminino, e logo do número de gestantes, puérperas e mães encarceradas

demonstra que o sistema de justiça criminal vem ignorando recomendações

de organizações internacionais contra o uso de prisão para essas mulheres.

Concluímos que uma melhor possibilidade de exercício de maternidade

ocorrerá sempre fora da prisão e, se a legislação for cumprida, tanto em

relação à excepcionalidade da prisão preventiva como no tangente à

aplicação da prisão domiciliar, grande parte dos problemas que afetam a

mulher no ambiente prisional estarão resolvidos. (BRASIL, 2015, p. 79)

A esse respeito, a pesquisa conclui que todo o exercício da maternidade

ocorrido dentro do cárcere ocorre de forma vulnerável, argumentando que as

mulheres que cometeram delitos, por irem de encontro à falácia da natureza

feminina de pessoa passiva e cuidadora, são as que mais exercem maternidades

vulneráveis e gestações de risco (BRASIL, 2015 apud MATTAR e DINIZ, 2012).

Ainda nesse sentido:

As pesquisadoras Laura Mattar e Simone Grilo Diniz apontam para a

existência de hierarquias reprodutivas que determinam a legitimidade e

aceitação social das maternidades. A seu ver, aspectos como raça, classe

social, faixa etária, parceria sexual e reprodutiva são fatores que podem

tornar maternidades mais ou menos aceitas, sendo “a somatória e a

interação entre os diferentes aspectos da mulher o que vai determinar o

grau de aceitação social a determinada maternidade” […] Para as autoras é

possível traçar uma pirâmide de hierarquias reprodutivas, na qual: quanto

maior o número de aspectos ditos negativos presentes na mulher ou no

casal, ao exercitarem maternidade e/ou a reprodução e cuidado com os

filhos, mais próximos estarão da base da pirâmide hierárquica e, ainda,

menor será o exercício de direitos humanos – o que revela, a exclusão

social a que estão submetidos. O mesmo vale no sentido oposto: quanto

maior o número de aspectos vistos como ‘positivos’ que uma mulher e/ou

casal tenha, mais valorizada será a maternidade e/ou a reprodução e

cuidado com os filhos, bem como mais frequente o exercício de seus

direitos humanos. Dentre as maternidades apontadas por Mattar e Diniz

como as menos aceitas, logo mais vulneráveis, estão aquelas exercidas por

“infratoras, sobretudo as mulheres que estão presas, já que foram contra a

‘dita natureza feminina’, ou seja, de pessoa passiva e cuidadora, jamais

transgressora. (BRASIL, 2015, p. 29 apud MATTAR e DINIZ, 2012, p. 114)

Outrossim, essa visão estigmatizadora da mulher acaba por acarretar em uma

criminalidade entendida como praticada apenas por homens, trazendo

consequências ao âmbito executivo da pena, posto que ela volta-se apenas ao

público masculino e, assim, não leva em conta as especificidades inerentes ao

mundo feminino, afastando garantias mínimas do direito penal, especialmente os

princípios da individualização das penas e da vedação da dupla punição, acima

tratados.

A construção do ‘homem médio’, do ‘erudito’ e do ‘corpo assexuado’

fundamentam e sustentam os padrões políticos e as práticas institucionais.

Não prever a diferença das mulheres na politica prisional é reproduzir um

modelo masculino e gerar uma dupla punição. Essa não-previsão, além de

fazer com que a execução penal de homens obedeça ao modelo

preestabelecido, estende a mulheres este modelo, afinal, a criminalidade é

algo público e masculino. (BUGLIONE, 2007, p. 148)

Outrossim, a pesquisa aponta que o exercício da maternidade dentro da

prisão ocorre de forma mediada e controlada pelas instituições de controle,

denominando de “maternidade vigiada controlada” o exercício da vivência da

maternagem em contextos restritivos e permanentemente vigiados (BRASIL, 2015,

p. 22 apud SANTOS, 2011, p. 60).

Como se percebe, a visão da mulher como pessoa não transgressora e

cuidadora, vivificada através de um contexto histórico sociocultural de gênero,

acarreta na maior vulnerabilidade do exercício da maternidade por mulheres que

cometeram delitos e estão em situação de prisão. Essa vulnerabilidade somada à

um sistema punitivo criado para o público masculino, além da constante vigília e

monitoramento das instituições de controle que, nas prisões, se dão principalmente

pela administração penitenciária, retiram a dignidade do exercício de ser mãe, direito

fundamental da mulher.

Por óbvio, essas são questões que permeiam a maternidade nas prisões,

porém, além desses fatores, outros também impedem o exercício digno da

maternidade. A falta de estrutura das penitenciárias que possibilitem a permanência

saudável do bebê junto à genitora, a insalubridade, a falta de condições materiais, a

ausência de atendimento médico pré e pós-natal e a separação de mãe e filho

quando do término da amamentação ou logo do nascimento do pequeno – quando

inexiste possibilidade de mantê-lo junto à mãe dentro do cárcere, fato que por si só

viola direitos da mulher e da criança – também são entraves que ensejam a um não

exercício digno da maternidade.

Conforme se denota, entende-se que ocorre a violação do exercício da

maternidade de forma digna mesmo diante da manutenção do filho junto ao cárcere

com a mãe, posto que a criança acaba cumprindo uma pena que não lhe foi

imposta, além de ser ceifado do contato com o mundo exterior, tão importante nesse

período de crescimento. Entretanto, em que pese esse entendimento, importa frisar

que, por razões claras, é preferível que exista a estrutura materno-infantil durante o

aprisionamento feminino, que ocorra a separação entre mãe e filho recém-nascido.

Assim, como melhor saída para esse impasse, defende-se a concessão da

prisão domiciliar da apenada gestante e mãe recente, como forma de permitir o livre

exercício digno da maternidade – ao menos dentro do lar, junto ao filho em seus

primeiros contatos, com o apoio de familiares e com acesso médico. Dessa forma,

será efetivada a legislação brasileira, além de ser implementado o direito social

fundamental de proteção à maternidade e à infância, assegurado

constitucionalmente.