2.2 PESSOAS COM DEFICIÊNCIA: DO OSTRACISMO AO ENSINO SUPERIOR
2.2.2 Do direito à Educação à Lei de Inclusão: Um olhar sobre a legislação
Após um passado de exclusão e esquecimento, a pessoa com deficiência passou a ganhar espaço no cenário educacional e na legislação mundial e brasileira, principalmente, a partir da década de 1990.
Um dos marcos da legislação mundial no que se refere à educação é a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, aprovada na Conferência Mundial sobre Educação para Todos em Jomtien, Tailândia, no ano de 1990. A Declaração resgatou números alarmantes daquele período, como: 960 milhões de adultos analfabetos e 100 milhões de crianças sem acesso ao ensino primário21. Destacou a educação como direito de todos e com fundamental importância para o desenvolvimento pessoal e profissional, estabelecendo como principal objetivo “satisfazer as necessidades básicas da aprendizagem de todas as crianças, jovens e adultos” (UNESCO, 1990, p. 15).
Um dos destaques da Declaração no que se refere às pessoas com deficiência é a necessidade de universalizar o acesso à educação e promover a equidade.
As necessidades básicas de aprendizagem das pessoas portadoras de deficiências requerem atenção especial. É preciso tomar medidas que garantam a igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência, como parte integrante do sistema educativo (UNESCO, 1990, p. 07).
A Declaração evidencia a necessidade de melhorar a qualidade da educação, universalizá-la e reduzir as desigualdades, atentando para as especificidades de aprendizagem das pessoas com deficiência e para a igualdade de acesso.
Antes disso, no Brasil, a Constituição Federal de 1988 já apresentava a educação como direito de todos e apontava contribuições importantes no que concerne às pessoas com deficiência. Em relação à educação, o Art. 208, Inciso III, destaca que o Estado deve garantir o “atendimento educacional especializado aos
21 Atual Ensino Fundamental.
portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988). Mesmo com esta menção na Constituição, nesse período, o AEE não se efetivou e as crianças com deficiência dificilmente frequentavam as escolas regulares.
Em 1996, a Lei Nº 9.394, que estabelece diretrizes e bases da educação nacional, apresenta um Capítulo específico para a Educação Especial. Destaca-se o Art. 58 que determina que, quando necessário, será concedido o apoio especializado na escola regular, a fim de atender as especificidades do público alvo da Educação Especial. O atendimento acontecerá em escolas ou classes especializadas apenas quando o estudante não tiver condições de frequentar a escola regular. Esse Artigo determina, ainda, que a oferta da Educação Especial tem início na Educação Infantil, contemplando crianças de zero a seis anos (BRASIL, 1996a). O Art. 59 desse Capítulo estabelece que
Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:
I – currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades;
II – terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;
III – professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV – educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora;
V – acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular (BRASIL, 1996b, p. 19- 20).
Mesmo com estas diretrizes estabelecidas em 1996, as pessoas com deficiência continuavam frequentando estabelecimentos específicos como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE)22 e, em menor escala, as
escolas regulares. Na década de 1990 o ingresso desse público nas Instituições de Ensino Superior era ainda menor. Moreira, Bolsanello e Seger (2011) reforçam que,
22 A primeira APAE foi fundada no Brasil em 1954, na cidade do Rio de Janeiro. Esta Associação foi
iniciativa de Beatrice Bemis, uma americana cujo filho tinha Deficiência Intelectual (LANNA JÚNIOR, 2010).
nesse período, os censos educacionais não apresentavam o quantitativo de estudantes com deficiência nas IES do Brasil. Os autores acreditam que a ausência de dados está relacionada a “invisibilidade” desse público na época, o que dificultou apontar indicativos concretos sobre o estudante com deficiência no Ensino Superior.
Moreira, Bolsanello e Seger (2011, p. 127) reiteram que, na década de 1990, “[...] concomitante às legislações nacionais, inúmeras conferências internacionais começam a repercutir diretamente na educação das pessoas com necessidades educacionais especiais”. Para contextualizar esse cenário, são apresentados alguns documentos orientadores e legislação na área da Educação Especial e inclusão, relevantes para o período. Abaixo de cada quadro, destaca-se o que elas apresentam de mais significativo.
Quadro 1 – Documentos Orientadores e Legislação - Educação Especial e Inclusão: de 1989 a 1999. (continua) DOCUMENTOS ORINETADORES E LEGISLAÇÃO CONTEÚDO DESTAQUE LEI Nº 7.853, DE 24 DE OUTUBRO DE 1989
Dispõe sobre o apoio às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social, sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência - Corde, institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes, e dá outras providências.
Tem como foco a integração da pessoa com deficiência na sociedade, estabelecendo normas que assegurem o exercício dos direitos
(individuais e sociais) dessas pessoas.
DECLARAÇÃO DE SALAMANCA -
1994
Sobre princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais.
Reafirma o direito de todos à educação e admite a iminência de “[...] garantir a educação para as crianças, jovens e adultos com necessidades educativas especiais no quadro do sistema
regular de educação [...]” (UNESCO, 1994, p. 01,
grifo nosso)
POLÍTICA NACIONAL DE
EDUCAÇÃO
* Essa Política é mencionada na Política Nacional de Educação Especial na
Orienta “o processo de ‘integração instrucional’ que condiciona o acesso às classes comuns do
DOCUMENTOS ORINETADORES E LEGISLAÇÃO CONTEÚDO DESTAQUE ESPECIAL – 1994 Perspectiva da Educação Inclusiva (2008), mas não foi encontrada na busca realizada em meio digital.
condições de acompanhar e desenvolver as atividades curriculares programadas do ensino comum, no mesmo ritmo que os estudantes ditos normais” (p.19). Ao reafirmar os pressupostos construídos a partir de padrões homogêneos de participação e aprendizagem, a Política de 1994 não provoca uma reformulação das práticas educacionais de maneira que sejam valorizados os diferentes potenciais de aprendizagem no ensino comum, mas mantém a responsabilidade da educação desses estudantes exclusivamente no âmbito da educação especial” (BRASIL, 2008b, p. 03).
PORTARIA Nº 1.793, DE DEZEMBRO DE
1994
Dispõe sobre a necessidade de complementar os currículos de formação de docentes e outros profissionais que interagem com portadores de necessidades especiais e dá outras providências.
Recomenda que a disciplina Aspectos ético- politico educacionais da normalização e
integração da pessoa portadora de necessidades
especiais seja incluída, “[...] prioritariamente, nos cursos de Pedagogia, Psicologia e em todas as Licenciaturas” (BRASIL, 1994, p. 01, grifo nosso).
AVISO CIRCULAR Nº 277/MEC/GM, DE
08 DE MAIO DE 1996
Dirigido aos Reitores das IES solicitando a execução adequada de uma política educacional dirigida aos portadores de necessidades especiais.
Aponta a necessidade de fazer ajustes no processo de seleção, desde a elaboração do edital, durante o processo e na correção das provas. Espera que as Instituições possam “[...] desenvolver ações que possibilitem a
flexibilização dos serviços educacionais e da
infra-estrutura, bem como a capacitação de recursos humanos, de modo a melhor atender às necessidades especiais dos portadores de deficiência, possibilitando sua permanência, com sucesso, em certos cursos” (BRASIL, 1996b, p. 02, grifo nosso). PORTARIA Nº 319, DE 26 DE FEVEREIRO DE 1999 Institui no Ministério da Educação, vinculada à Secretaria de Educação Especial/SEESP a Comissão Brasileira do Braille, de caráter permanente.
Apresenta em seu Art. 3º as competências da Comissão Brasileira do Braille, dentre elas, “I - Elaborar e propor a política nacional para o uso, ensino e difusão do Sistema Braille em todas as suas modalidades de aplicação, compreendendo especialmente a língua portuguesa, a matemática e outras ciências exatas, a música e a informática [...]” (BRASIL, 1999b, p. 01)
DECRETO Nº 3.298, DE 20 DE
Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política
Apresenta princípios, diretrizes, objetivos, instrumentos, aspectos institucionais, equiparação
DOCUMENTOS ORINETADORES E LEGISLAÇÃO CONTEÚDO DESTAQUE DEZEMBRO DE 1999
Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências.
de oportunidades, profissionais, acessibilidade e sistema integrado de informação.
Estabelece como princípios, em seu Art. 5º: “I - desenvolvimento de ação conjunta do Estado e da sociedade civil, de modo a assegurar a plena
integração da pessoa portadora de deficiência no
contexto sócio-econômico e cultural;
II - estabelecimento de mecanismos e instrumentos legais e operacionais que assegurem às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus
direitos básicos [...];
III - respeito às pessoas portadoras de deficiência, que devem receber igualdade de oportunidades na sociedade por reconhecimento dos direitos que lhes são assegurados, sem privilégios ou paternalismos” (BRASIL, 1999a).
“Art. 25. Os serviços de educação especial serão ofertados nas instituições de ensino público ou privado [...], mediante programas de apoio para o aluno que está integrado no sistema regular de
ensino, ou em escolas especializadas exclusivamente quando a educação das escolas comuns não puder satisfazer as necessidades educativas ou sociais do aluno ou quando necessário ao bem-estar do educando” (BRASIL, 1999ª, grifo nosso).
Fonte: Autores.
Destacou-se, no Quadro 1, alguns pontos recorrentes e importantes nos distintos documentos. São eles: integração, direitos, educação, sistema regular/ ensino regular, flexibilização, permanência, normalização, igualdade de oportunidades.
A década de 1990, muito influenciada pela Declaração Mundial sobre Educação para Todos, contribuiu para que as legislações reiterassem o direito de todos à educação, reforçando, ainda, a igualdade de oportunidades e o sistema de ensino regular como principal espaço de aprendizagem.
A flexibilização, importante ferramenta na direção da aprendizagem dos estudantes em todos os níveis e modalidades de ensino, já era preocupação na legislação nos anos 1990, principalmente no final da década. Mesmo com essa
intenção, as instituições não se modificaram a ponto de possibilitar uma mudança efetiva nos espaços institucionais como um todo. Ainda se presencia currículos fechados, conteúdos fragmentados, metodologias estagnadas e retrógradas, aulas tradicionais, avaliações padronizadas, rotina enrijecida, estudante passivo.
Sem dúvida, a educação contemporânea, em muitos aspectos, se complexificou, porém a escola não deixou de submeter-se às exigências de uma racionalidade marcada pela técnica, pela funcionalidade, pela objetividade e pela hierarquia. Reproduzindo a lógica da sociedade capitalista, o modelo considerado convencional vem somando visíveis insucessos em termos de resultados no campo da aprendizagem (THIESEN, 2011, p. 246).
Mesmo com o potencial para mudança, a educação e sistemas de ensino não conseguiram se afastar da lógica já estabelecida, e a flexibilização permanece superficial e apática. Ao falar de estudantes com necessidades educacionais especiais, a flexibilização e, principalmente, a adaptação, torna-se uma necessidade ainda mais evidente. Se é importante para todos os estudantes considerar as especificidades quanto ao tempo para aprender, para realizar atividades e avaliações, ao pensar o público com necessidades educacionais especiais, elas se tornam imprescindíveis.
Outro ponto destacado nas legislações desse período, diferente da ideia atual de inclusão, foi a integração das pessoas com deficiência nas instituições educacionais e na sociedade como um todo. Junto ao conceito de integração aparece, ainda, a normalização desses sujeitos. Essa crença em padrões homogêneos de aprendizagem fazia com que as pessoas com necessidades educacionais especiais tivessem que se adaptar ao ritmo, modelo e paradigma da sociedade da época. A proposta era encontrar no sujeito o alvo da mudança e, assim, “[...] lhes garantir serviços e recursos que pudessem “modificá-los” para que estes pudessem se aproximar do “normal” o mais possível” (ARANHA, 2001, p. 165). No Quadro 2, são apresentados os documentos orientadores e legislação que compreendem o período de 2000 a 2005.
Quadro 2 – Documentos Orientadores e Legislação - Educação Especial e Inclusão: de 2000 a 2005. (continua) DOCUMENTOS ORINETADORES E LEGISLAÇÃO CONTEÚDO DESTAQUE LEI Nº 10.098, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2000
Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.
A promoção da
acessibilidade23 se dará “[...] mediante a supressão de
barreiras e de obstáculos nas
vias e espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação” (BRASIL, 2000, p. 01, grifo nosso) RESOLUÇÃO Nº 2 DE 11 DE SETEMBRO DE 2001
CEB/CNE - Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica.
“Art 2º Os sistemas de ensino devem matricular todos os
alunos, cabendo às escolas organizar-se para o atendimento aos educandos
com necessidades educacionais especiais, assegurando as condições necessárias para uma
educação de qualidade para
todos” (BRASIL, 2001b, p. 01, grifo nosso).
“Os sistemas de ensino devem constituir e fazer funcionar um setor responsável pela educação especial, dotado de recursos humanos, materiais e financeiros que viabilizem e dêem sustentação ao processo de construção da educação inclusiva” (BRASIL, 2001b, p. 01).
DECRETO Nº 3.956, DE 8 DE
(Convenção da Guatemala) Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação
Reforça a preocupação com a discriminação das pessoas com deficiência, reafirmando
23 Conforme a legislação nacional, entende-se por acessibilidade: “[...] possibilidade e condição de
alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida” (BRASIL, 2015).
DOCUMENTOS ORINETADORES E LEGISLAÇÃO CONTEÚDO DESTAQUE OUTUBRO DE 2001
de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência.
que elas têm os mesmos
direitos e liberdades que as
outras pessoas (BRASIL, 2001ª, grifo nosso).
Tem por objetivo eliminar qualquer forma de discriminação e promover a integração das pessoas com deficiência à sociedade (BRASIL, 2001a).
LEI Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL DE
2002
Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências.
A Libras e os demais recursos de expressão a ela associados é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão (BRASIL, 2002, grifo nosso). “Entende-se como Língua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual- motora, com estrutura gramatical própria, constituem um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil” (BRASIL, 2002).
PORTARIA Nº 3.284, DE 7 DE NOVEMBRO DE
2003
Dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências, para instruir os processos de autorização e de reconhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições
Determina “que sejam incluídos nos instrumentos destinados a avaliar as condições de oferta de cursos superiores, [...] requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de necessidades especiais” (BRASIL, 2003b, p. 01, grifo nosso). DECRETO Nº 5.296 DE 2 DE DEZEMBRO DE 2004
Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências
Dispõe acerca do atendimento prioritário para as pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida; sobre as condições gerais de acessibilidade; a respeito da implantação da
acessibilidade arquitetônica e
urbanística; acessibilidade
aos serviços de transportes coletivos; sobre o acesso a informação e comunicação; e
DOCUMENTOS ORINETADORES
E LEGISLAÇÃO
CONTEÚDO DESTAQUE
acerca do Programa Nacional
de Acessibilidade.
“Art. 10. A concepção e a implantação dos projetos arquitetônicos e urbanísticos devem atender aos princípios do desenho universal24, tendo
como referências básicas as normas técnicas de
acessibilidade da ABNT, a
legislação específica e as regras contidas neste Decreto” (BRASIL, 2004, grifo nosso).
DECRETO Nº 5.626, DE 22 DE DEZEMBRO DE
2005
Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000
Dispõe sobre a inclusão da
Libras como disciplina curricular, sobre a formação do professor e do intérprete de Libras e do acesso e garantia
do direito das pessoas surdas
à educação.
“Art. 3º A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios” (BRASIL, 2005, grifo nosso).
“Art. 14. As instituições federais de ensino devem garantir, obrigatoriamente, às pessoas surdas acesso à comunicação, à informação e à educação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades
24 Desenho universal é a “[...] concepção de espaços, artefatos e produtos que visam atender
simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade (BRASIL, 2004).
DOCUMENTOS ORINETADORES
E LEGISLAÇÃO
CONTEÚDO DESTAQUE
de educação, desde a educação infantil até à superior” (BRASIL, 2005). PROGRAMA DE ACESSIBILIDADE NA EDUCAÇÃO SUPERIOR (INCLUIR) - 2005
Propõe ações que garantem o acesso pleno de pessoas com deficiência às instituições federais de ensino superior (Ifes)
O Incluir tem como principal objetivo “[...] fomentar a criação e a consolidação de
núcleos de acessibilidade
nas universidades federais, as quais respondem pela organização de ações institucionais que garantam a
inclusão de pessoas com
deficiência à vida acadêmica,
eliminando barreiras
pedagógicas, arquitetônicas e na comunicação e informação, promovendo o cumprimento dos requisitos legais de
acessibilidade” (BRASIL,
2013, p. 03, grifo nosso).
Fonte: Autores.
O novo milênio surge com novas perspectivas para o cenário educacional das pessoas com deficiência. De 2000 a 2005, a acessibilidade e a redução de barreiras estão no cerne das discussões. Ao invés de as pessoas com deficiência se adaptarem aos espaços sociais, as instituições têm que se modificar e se adaptar para que a inclusão dessas pessoas aconteça.
O Paradigma de Inclusão coloca a necessidade de não só o indivíduo deficiente mudar e se adaptar à sociedade (integração), mas de a sociedade também mudar e promover ajustes para o processo do desenvolvimento do sujeito e de reajuste da realidade social para a vida deste na sociedade (inclusão) (FERNANDES; SCHLESENER; MOSQUERA, 2011, p. 142).
Nesse processo, a Libras ganha espaço nos currículos dos cursos de licenciatura e na garantia de acesso, comunicação e informação para as pessoas surdas. Em 2005, o Programa Incluir e a criação e consolidação dos Núcleos de Acessibilidade têm papel importante nas Instituições de Ensino Superior.
Bortolazzo (2015) fez um levantamento no ano de 2014 quanto à existência de Núcleos voltados à acessibilidade nas universidades federais do Brasil. Nesse período, 13 Instituições ainda não contavam com esse setor. A fim de atualizar essas informações, foi feita nova busca nos Portais Institucionais destas universidades. Com a pesquisa, foi possível evidenciar a criação dos setores nas 13 Instituições que ainda não contavam com essa estrutura. Além destas, outras 15 Instituições reestruturaram os setores (passando de Núcleo para Coordenadoria, deixando de pertencer a um Núcleo psicopedagógico para atuar frente a um Núcleo específico de acessibilidade, modificando ou atualizando a nomenclatura). Na busca realizada ainda se observou que Bortolazzo (2015) havia citado “Incluir” como o Núcleo da UFCSPA. Contudo, não foi encontrado setor com estas características na Universidade citada. No Apêndice I é possível encontrar as Instituições e os setores mencionados.
Atualmente, no Rio Grande do Sul, temos o seguinte cenário nas universidades federais:
FURG
adesão ao Programa Incluir em 2006;
criação do Núcleo de Estudos e Ações Inclusivas em 2006; processo seletivo 100% das vagas SISU;
vagas de acordo com a Lei Nº. 12.711/201225.
UFCSPA
adesão ao Programa Incluir – não consta;
criação de Núcleo de Acessibilidade – não consta; processo seletivo 100% das vagas SISU;
vagas de acordo com a Lei Nº. 12.711/2012. UFPEL
25 A Lei Nº 12.711, de 29 de agosto de 2012, dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e nas
instituições federais de ensino técnico de nível médio e dá outras providências. Essa Lei foi alterada pela Lei Nº 13.409, de 28 de dezembro de 2016, quanto à reserva de vagas para pessoas com deficiência nos cursos técnico de nível médio e superior das instituições federais de ensino. Assim, o Art. 3º passa a prever que “Em cada instituição federal de ensino superior, as vagas de que trata o art. 1º desta Lei serão preenchidas, por curso e turno, por autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência, nos termos da legislação, em proporção ao total de vagas no mínimo igual à proporção respectiva de pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição, segundo o último censo da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE” (BRASIL, 2012c, 2016d).
adesão ao Programa Incluir em 2008;
criação do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão em 2008; processo seletivo 100% das vagas SISU;