2. Sobre os discursos e a metodologia
2.2 Do discurso capitalista e suas (per)versões
Em síntese, para a AD, um discurso sempre implica um sujeito que é interpelado pela ideologia, atravessado pelo inconsciente e submetido ao real. Por conseguinte, numa análise discursiva, os jogos de poderes (no sentido político) e as condições de produção (no sentido histórico) são levados em consideração.
2.2 Do discurso capitalista e suas (per)versões
Lacan (1969-70/1992) formaliza o conceito de discurso em seu Seminário 17: O avesso da psicanálise. Esse Seminário foi proferido em um momento de protestos sociais na França e, em particular, de contestação do movimento estudantil que questionou as instituições, o poder e o próprio saber. Esse contexto, o universitário, era um lugar privilegiado para as manifestações, momento em que eclode mais uma vez a luta de classes.
Na atualidade, nós compreendemos que ainda somos regidos pelo discurso capitalista, mas, antes de descrever sua operação, é necessário entender como Lacan formaliza seus quatro discursos.
Para Lacan (1969-70/1992) os discursos são modos de laços sociais, regulam vínculos entre os sujeitos e têm como base a estrutura da linguagem que produz desejo e perda de gozo. É somente pela estrutura significante que os discursos se fundam. O autor, nesse momento, instaura um novo modo de pensar as estruturas clínicas e o laço social; trata-se de uma tentativa de articular os campos da linguagem, do gozo e do sujeito. A questão do gozo aparece como aquilo que impede que “as coisas andem”, colocando o sujeito em um ciclo repetitivo; o sofrimento da suposta necessidade de repetir é escutado pelo autor em sua clínica, forçando-o a associar o campo do discurso aos modos de gozo.
A repetição se articula com “o sujeito suposto saber, como o chamamos na transferência, como índice da necessidade repetitiva que decorre daí o objeto a, representante
dos círculos concêntricos12” (Lacan, 1968-69/2008, p. 72). Está associada a uma consequência que designa o objeto como perdido. A concatenação significante tem efeito de perda e a experiência clínica e coletiva confrontam-se todo o tempo com esse efeito, um sinal da ferida narcísica.
A experiência da clínica psicanalítica pode nos ajudar a entender o funcionamento social. Esse efeito de perda inscreve-se no simbólico que inscreve o vazio nesse campo; no entanto, esse processo produz perda de gozo. Desenha-se aqui a relação entre efeito de perda e o lugar do Outro, sem o qual ele não poderia se produzir. A perda não deixa de se relacionar com o desejo, pois somente na falta pode-se desejar algo.
Nesse sentido, a Lei ou a função paterna barra o gozo que, por sua vez, causa o desejo.
Essa barra é metaforizada na proibição da mãe pelo pai, isto é, no complexo de Édipo (Freud, 1915/1996) o acesso ao objeto desejado é barrado pelo Outro que tem um status de alteridade, um fora no sentido superficial; um espaço aberto, porém não para o infinito. Existe uma impossibilidade de escrever o gozo na estrutura e, assim, toda a série de números inteiros extrai o fato de não ser a simples grafia que pode ser escrita, mas ser algo que existe no real.
Neste contexto, o significante do gozo é o significante excluído por ser aquele que se promove sob o nome de significante fálico. Assim, o falo representa a inscrição da falta no simbólico ao mesmo tempo em que funda um resto da ordem do real. Esse resto (o objeto a) tem como função determinar o mais-gozar (Lacan, 1968-69/2008, 1969-70/1992).
O gozo, termo designado em sentido próprio, que necessita da repetição. Na medida em que há busca do gozo como repetição que se produz o que está em jogo no fraqueamento freudiano – o que nos interessa como repetição, e se inscreve em uma dialética de gozo, é propriamente aquilo que se dirige contra a vida. É no nível da repetição que Freud se vê de algum modo obrigado, pela própria estrutura do discurso, a articular a pulsão de morte (Lacan, 1969-70/1992, p. 43).
A repetição não é apenas função de ciclos de necessidade e de satisfação, mas comporta também a desaparição da vida, ou seja, uma tentativa do retorno ao inanimado. O gozo transborda, sendo a Lei simbólica que coloca um limite na relação do sujeito com o gozo. Podemos mencionar que a repetição se funda em um retorno de gozo, porém, nessa repetição, o efeito é seu oposto: a perda de gozo, ou seja, “na própria repetição há desperd cio de gozo” (Lacan, 1969-70/1992, p. 44).
12 Composto por figuras com o mesmo centro, figuras concêntricas. [Figurado] que têm um ponto comum, semelhante: opiniões concêntricas. [Por Extensão] que dá origem a círculos concêntricos, círculos cujos centros são iguais. Que se volta para o centro ou para um ponto
As séries surgidas da compulsão à repetição resultam da insistência da cadeia de significantes e os lugares que o sujeito pode ocupar são determinados a partir dessas séries.
Observamos que o discurso midiático também implica uma repetição histórica que se articula à memória discursiva. Nós veremos nos capítulos seguintes, a partir da análise da foto de Aylan, dos enunciados jornalísticos e da imagem derivada (publicidade), o funcionamento dessa repetição na mídia jornalística.
Assoun (1979) ao retomar a repetição histórica em Marx afirma que na história da sociedade sempre emerge um tempo de regressão generalizada, efeito de uma anulação retroativa: “tudo isso se passa como se o processo histórico homogêneo interrompesse bruscamente sua progressão e se refletisse, por um movimento circular, sobre um ponto fixo de seu devir anterior” (p. 197). autor afirma que é o plano da ideologia que serve de quadro para essa regressão. É como se história retornasse, sem retornar, ao mesmo ponto de partida.
Na perspectiva da AD e da psicanálise a repetição implica sempre algo de diferente, mesmo que seja o retorno de um mesmo significante é diferente, posto que se trate de outra volta e outro tempo. Como alega Lacan (1969-70/1992) a revolução não é uma evolução, pois no funcionamento do inconsciente não existe nada que evolua, somente voltas em torno de um vazio assim como as voltas dadas pelo sujeito em torno do toro ou do cross cap13. Destacamos que nessa última figura topológica o dentro e fora estão em continuidade; no ponto de torção se localiza um furo, mas escamoteado pela própria figura. Portanto, a repetição é paradoxal uma vez que se trata de um retorno ao passado, mas também funda algo inédito.
Assoun (1979) retomando a visão cosmológica de Blanqui afirma que as repetições são fundadas sobre a
.... infinidade do espaço e do tempo, contrastando com o número finito dos elementos básicos da natureza: uma centena de corpos simples, múltiplas combinações virtuais servem para preencher o duplo infinito. As repetições são, portanto, exigidas para efetuar o preenchimento indefinido dessa infinidade. Donde a infinidade dos mundos possíveis, variantes do planeta terrestre, donde também a infinidade das variantes de um indivíduo único na aparência, correspondente a série de possibilidades de essências .... (p. 204-205).
13 O toro é uma figura topológica definida como uma superfície sem margem, equivalente a uma esfera, mas seu
centro é vazio, sua melhor aproximação física é dada pelo pneu ou boia (fig. 8).
O Cross-cap também é uma figura topológica que possui uma única superfície e em seu interior contem uma banda de Moëbius que se fecha em uma torção interior, dependendo do ângulo que se olha, essa torção fica velada. (fig. 9).
Nessa repetição são constituídos os objetos postiços. Por exemplo, cada número, mesmo que igual, ao se repetir, não é idêntico aos demais, pois cada um tem um lugar determinado. Portanto, o sujeito ao repetir não alcança o S1 (significante primordial, aquele que é comemoração de gozo) e nem alcança um objeto que completaria a falta. A “repetição é uma denotação precisa de um traço, ao pequeno bastão, ao elemento da escrita, um traço na medida em que comemora uma irrupção do gozo” (Lacan, 1969-70/1992, p. 73). gozo uma satisfação parcial da pulsão pode ser percebido como prazer e/ou como desprazer pelo eu (dimensão imaginária).
Lacan (1972-1973/1993) define o significante como aquilo que é irredutível ao gozo e postula a letra como efeito discursivo. O significante não tem nada a ver com o ouvir, mas com a leitura que se faz do que se escuta. Assim, o que se lê são os efeitos dos dizeres, são os efeitos que incomodam e agitam os seres falantes. O significante é arbitrário, não depende de um referente, não se refere a nada a não ser que se refira a um discurso, a um modo de funcionamento, a uma utilização da linguagem como laço social.
O laço social opera a partir de quatro elementos que estruturam o inconsciente como discurso do Outro: o sujeito dividido ($), o significante-mestre (S1), o significante segundo (ou saber) (S2) e o objeto (a). O objeto é designado pela letra a, quer dizer, o objeto causa de desejo e mais-gozar. O Outro é a bateria de significantes, ou seja, A = {S1, S2, S3....Sn}.
Cabe ressaltar que o sujeito dividido é quando “um significante representa o sujeito para outro significante, donde resulta a emergência disso que chamamos sujeito” (1968-69/2008, p. 11).
Assim, o S1 designado pelo signo S2 resulta no saber na medida em que um significante necessita de outro, sendo na retroação que produzimos sentidos. Então, para o discurso funcionar, são necessários quatro elementos. Vejamos a fórmula das posições que são permanentes.
Figura 10: posições do discurso (Lacan 1869-70/1992)
O agente é o elemento que movimenta o discurso, domina o laço social e possibilita a alteridade. O outro é aquele a quem o discurso se dirige. A produção é o efeito do discurso;
trata-se do desejo e da perda de gozo. A verdade sustenta o discurso, mas só é possível ser
meio-dita, nunca é dita por inteiro devido ao resto que não entra na ordem simbólica ou discursiva. Para uma cadeia funcionar é necessário um par ordenado de significantes S1 (significante primeiro) e S2 (significante segundo), sendo que não há possibilidade de um significante funcionar sozinho; assim “um significante representa o sujeito para outro significante” (Lacan, 1969-70/1992, p. 48).
Lacan (1969-70/1992) afirma: “não há sentido que não seja do desejo e não há verdade senão daquilo que esconde esse desejo de sua falta, fingindo que não quer nada diante do que se encontra” (p. 58). falso também implica o verdadeiro e, embora o saber tenha algo falso, há também ali algo da verdade do sujeito. A verdade é inseparável dos efeitos de linguagem, nenhuma verdade pode ser localizada senão no campo onde ela se enuncia. Desse modo, é possível afirmar que o inconsciente carrega uma verdade sobre o sujeito e este nunca se articula em primeira pessoa; os enunciados são sempre invertidos como a imagem no espelho, mas todo discurso carrega sua cota de verdade.
O autor postula quatro fundamentais modos de discursos e os outros são derivantes deles: do mestre (DM), da histérica (DH), do universitário (DU) e do analista (DA); mais adiante, em seu ensino, ele descreve um quinto discurso, o do capitalista (DK), como um substituto do discurso do mestre antigo pelo mestre moderno. Os discursos funcionam um na sequência do outro. Vejamos as fórmulas de cada discurso e as explicações de cada um deles para depois explicarmos de modo mais detalhado o discurso capitalista.
Figura 11: os quatro discursos (Lacan 1869-70/1992)
Pode ser observado que os discursos operam em um quarto de voltas entre seus elementos, isto é, ao passar de um discurso ao outro, os elementos giram e tomam os lugares
seguintes. Trata-se de quatro permutações das letras quanto à fórmula das posições. Neste contexto, as flechas significam implicação ou “se...então” na escrita matemática, a barra na vertical significa divisão e a duas barras na horizontal quer dizer disjunção. Lacan (1970/2003) afirma que
.... a articulação radical do discurso do mestre como avesso do discurso do psicanalista, sendo dois outros discursos motivados por um quarto de volta que dá passagem de um ao outro – a saber, o discurso da histérica, de um lado, e o discurso universitário, de outro -, o que se tira daí é que o inconsciente nada tem a ver senão com a dinâmica que precipita a passagem brusca de um desses discursos para outro ....
de uma certa cadeia articulada pelo efeito do significante, considerado como verdade – sobre a estrutura, como função do real na dispersão do saber (p. 435).
Lacan (1969-70/1992) se apoia na dialética entre senhor e o escravo, proposta de Hegel (1807/2013, 1837/2008), a fim de formalizar o que denominou de discurso do mestre (DM). No discurso do mestre o S1 é o agente, ou seja, a lei que ordena esse discurso; o S2 é o outro. Neste interim, o S1 se destina ao saber, o que se produz é o objeto a e o sujeito dividido ocupa o lugar da verdade. Nesse discurso o escravo possui o saber ao passo que o mestre detém o poder. A produção é realizada devido ao saber do escravo, mas o produto é do mestre. Esse modo de discurso, segundo o autor, funcionou muito bem durante séculos até a chegada do discurso capitalista (Lima Vaz, 1980).
No discurso da histérica (DH) o lugar do agente é o sujeito barrado que se materializa na eterna insatisfação, sendo esse discurso que aponta a falta no mestre. Nesse discurso é o sintoma, efeito do sujeito dividido, que ordena o funcionamento. A lei do outro é questionada pelo sintoma sendo o outro o significante-mestre que produz um saber; como efeito, o objeto se situa no lugar da verdade. Nesse funcionamento, há um desejo de saber quem se é para o Outro e qual o seu devido valor. O sujeito demanda um reconhecimento ao Outro. Desse modo, o sujeito o interpela como aquele que sabe sobre o seu desejo e o seu modo de gozar.
Para isso, o sujeito tende a fazer semblante de objeto (Lacan, 1969-70/1992). Na maioria dos casos há um engodo entre o objeto causa de desejo e o objeto de gozo. Isto quer dizer que o sujeito, ao se enganar, se coloca no lugar de objeto de gozo tornando-se um objeto-dejeto, descartável, substituível e facilmente trocado.
A ciência ganha impulso a partir do discurso da histérica, pois, nesse discurso, o agente é o sujeito dividido; o inconsciente em exercício aponta a falta no mestre constantemente, demandando-o um saber sobre seu sintoma, sobre sua angústia, sobre seu gozo. O gozo nesse discurso se sustenta na identificação ao objeto a. Porém, é no âmbito
desse discurso que o saber aparece como impotente, um momento em que o fracasso reina e a impotência recobre o impossível. Cabe ressaltar que nenhum discurso é plenamente eficiente devido à estrutura faltante da linguagem (Lacan, 1969-70/1992).
No discurso universitário (DU) o saber (S2) é o agente, aquele que comanda o funcionamento discursivo. Nesse discurso é a “hiância em que é tragado o sujeito que ele produz, por ter que supor um autor ao saber”. Como consequência, é produzida uma dinâmica em que o saber é tomado como verdade. Apesar disso o giro do discurso universitário para o discurso do analista permite circunscrever o real (Lacan, 1970/2003, p. 445). O DU mostra por onde o sujeito pode pecar, mas, em sua posição fundamental, ele se alicerça no discurso da ciência, bem como o discurso midiático.
O objeto a no discurso do universitário está no lugar do outro, ou seja, do estudante, o lugar privilegiado. A Universidade é o lugar onde se articula o saber. Tal instituição encarna o Outro ilusoriamente sem barra, lugar onde o sujeito pode tudo saber. Em razão do desnudamento do discurso do mestre o discurso do universitário produz um sujeito dividido, mas abaixo da barra, ou seja, recalcado. Nesse sentido, o universitário cola-se num significante-mestre supondo que esse o representa plenamente (Lacan, 1970-71/1992).
No discurso do psicanalista (DA) o analista é feito substancialmente do objeto a causa de desejo que ocupa o lugar de agente. O sujeito dividido equivale ao Outro onde se produz um significante mestre, como efeito se tem o saber no lugar da verdade. Na proposta de Lacan (1969-70/1992) o analista ocupa o lugar de objeto para o psicanalisante; o saber está do lado do sujeito do inconsciente e não do analista. A função do analista, em última instância, é causar o desejo no sujeito e adverti-lo que não há saber absoluto e nem gozo pleno. Por efeito, a verdade é sempre meio-dita através da produção de um saber. Quer dizer que a verdade só pode ser apreendida em forma de enigma, consiste em uma constante no discurso ao passo que o saber é facilmente modulado, reformado, transmutado. Em decorrência disso a verdade e o saber caminham juntos.
No eixo do DM o sujeito acredita na ilusão de que é unívoco e que um único significante poderia representá-lo. Esse discurso é sempre o dominante na cultura e que na modernidade foi substituído pelo discurso capitalista Teixeira (2007), conforme será detalhado logo adiante. DA vem para afirmar que o sujeito não é un voco, isto é, que “o sujeito é posto diante do vel que se exprime pelo ou não penso, ou não sou. Ali onde penso não me reconheço, não sou – é o inconsciente. Ali onde sou, é mais do que evidente que me perco” (Lacan, 1969-70/1992, p. 96). sujeito dividido adquire outra máxima: “onde não se
está, ele pensa, se onde ele não pensa, está” (p. 97), ou seja, o sujeito ocupa dois lugares: o Je, sujeito da enunciação e o moi, o sujeito do enunciado ou o eu especular.
No DA o sujeito do inconsciente é revelado e a verdade é semi-dita na forma de saber, um discurso no qual sempre resta uma parte enigmática e impossível de ser acessada.
Observamos que não é o que ocorre no funcionamento do discurso capitalista, o quinto discurso (cf. Lacan), o mestre moderno, que impõe ao sujeito um velamento da falta que, por efeito, causa angústia, pois quando a falta falta, o sujeito permanece no lugar de objeto do Outro. Vejamos como funciona esse modo (atual) de discurso.
O termo capitalismo foi criado por Marx (1867/1996) no final do século XIX e início do século XX. Em sua obra O capital ele traceja o funcionamento desse sistema apontando seus efeitos na sociedade e suas deficiências. O autor descreve a alienação do trabalhador em relação ao capitalista e qualifica o sistema capitalista como uma estrutura tríplice - as forças produtivas determinam as relações de produção que, por sua vez, determinam a superestrutura - e com quatro lugares fundamentais - o capitalista, o trabalhador, o consumidor e a mercadoria.
Para Marx (1854/1978, 1867/1996), no sistema capitalista a força de trabalho é vendida e comprada como qualquer outra mercadoria, há um mercado que compra trabalho, indicando a instauração não só de um novo sistema econômico, mas de uma nova época da história (idade moderna). O autor observa que nesse sistema parte do trabalho não é paga ao trabalhador, essa parte vai para o capitalista, ou seja, parte do trabalho não é transformada em valor, é perdida do lado do sujeito e acumulada pelo capitalista. Essa operação é denominada de mais-valia. Assim, o trabalho no sistema capitalista é socialmente necessário para a produção da mercadoria e a força de trabalho precisa ter um preço, entrando na ordem das mercadorias.
O sistema capitalista possui diversas etapas que vai da produção à venda de mercadorias, existe, atualmente, uma fase mais elaborada desse sistema que é a publicidade, um marketing que passa a ilusão da necessidade de determinados produtos (Wallerstein, 2001). Esse modo institui “o imperativo de gozo como ideologia da sociedade de consumo”
(Ramos, 2008, p. 202). Trata-se do momento em que estamos do capitalismo no qual a dominação emerge como “um problema de razão c nica” (Ramos, 2008, p. 203), isto quer dizer que sabemos os problemas que o capitalismo traz consigo, mas finge-se que não há problemas, que não há falhas na falta. Sustenta-se, portanto, que o sistema é assim mesmo e que ideologicamente “não há outra realidade poss vel” (Ramos, 2008, p. 203). Há nesta lógica uma posição alienante do sujeito em relação ao Outro barrado e a falta de objeto e a
“ideologia a forma e sustenta a condição neurótica e compulsiva do consumismo e da busca irrefreada de satisfação particular como norma, transformando toda posição contrária em recriminável e toda interposição em obstáculo” (Ramos, 2008, p. 204). Há, portanto, uma necessidade de globalização por determinados produtos, mas se faz acreditar que a satisfação é particular e plena.
Tfouni (2013a) afirma que as mercadorias no capitalismo servem para criar a ilusão de preenchimento do vazio do desejo, pois o sujeito se assujeita ao consumo de mercadorias e, ao consumi-lo, na verdade, se consome, pois o sujeito não é sem desejo.
.... consumir, portanto, pode ser interpretado tanto na voz ativa (consumir uma mercadoria), quanto na voz passiva (ser consumido por ela). Ao consumir a mercadoria, procurando consumar o desejo, o sujeito deixa-se consumir. A etimologia de “consumo” mostra que essa é uma palavra originada do Latim CONSUMERE,
“destruir, gastar, esgotar”, tendo sido formada por C M-, intensificativo, mais SUMERE, “apoderar-se, tomar, agarrar”. Assim, a mercadoria fetichizada surge ao mesmo tempo como possibilidade de se alcançar uma sociedade sem diferenças, e também como um tamponador de espaços vazios, que, supostamente, são espaços da realidade, porém indiciam a falta constitutiva do desejo, que nunca pode ser tamponada (Tfouni, 2013a, p. 06).
A partir dessa ilusão de felicidade, a autora analisa um slogan – Vem ser Feliz:
.... o slogan “Vem ser feliz”, (que) corresponde inicialmente a um chamamento ilusório, onde se inscreve o conceito de “ser” feliz no objeto desejado. imperativo
“vem”, que soa como um convite sedutor é uma interpelação ao sujeito em forma de
“palavra de ordem” disfarçada de convite .... No não dito, esse genérico propõe uma
“palavra de ordem” disfarçada de convite .... No não dito, esse genérico propõe uma