1 DA CONSTRUÇÃO DO OBJETO DE PESQUISA
2.1. Do encontro com os/as artistas-educadores/as ― ou chamando o passado com os
do presente
Na construção do processo da pesquisa, um primeiro momento com os sujeitos da
pesquisa se deu numa ocasião em que se articulou um encontro entre participantes do Polo de
Música de Messejana ― que tenho caracterizado desde o início deste escrito como originário
do Um Canto em Cada Canto ― e aqueles do próprio Canto, que oriundos ou não do Polo,
passaram a constituir o trabalho em torno do qual se constrói o memorial de artistas-
educadores/as tema desta pesquisa.
O encontro em questão, então, se deu em março de 2015, no quintal da casa da mãe de
Deysa di Morais, anfritiã do encontro, em Messejana. Das cerca de trinta ou trinta e cinco
pessoas que passaram pelo encontro, tive oportunidade de entrevistar ali cinco pessoas, dentre
as quais três egressas do Polo de Música de Messejana e duas de outros bairros da cidade.
Desse encontro, num primeiro momento, destaco o que escrevi a seu respeito, no diário
de campo em que reflito sobre os processos postos em curso quando do seu desejo:
Os encontros com o Canto nunca começam no mesmo dia nem na mesma hora em que passam a acontecer. Neste caso, para mim que ia pela primeira vez me aventurar a me aproximar dessa experiência tão determinante na minha vida na qualidade, agora, de pesquisadora, ele começou desde que, oportunamente, eu intervi nas conversas de whatsaap do grupo que engendrava um encontro que não se faria na data em que terminou por acontecer. Lindamente vi minha proposta de data ser aceita, eu que só assistia a toda movimentação sem exatamente estar nela. Atribulada, com zilhões de coisas em curso e com a sensação de atraso em relação à pesquisa, também fui prontamente acolhida por minha orientadora, que deu-me de uma ligação tudo o que precisava ler para minimamente me preparar para o que seria esse momento. Enfim, respaldada por amigas e amadas que deram seu tempo e sua energia para cozinhar a muita comida por levar com que me comprometi, pude até adormecer de cansaço no dia anterior ao encontro – e acordar pronta para ele.21
Nesse encontro-chave para a pesquisa, o dia pareceu-me ter movimentação incomum,
dentro e fora de mim:
Dia de São José. Chuva logo de manhã cedo – e já aí a movimentação virtual dando conta de que seria necessária uma intervenção do Canto junto ao santo para que o quintal da Deysa pudesse ter condição de nos acolher, a todos/as. Não deu outra. A chuva parou quando tinha que parar – e muito embora eu tenha sido, como sempre, das primeiras a chegar, cheguei ao mesmo tempo que minha orientadora. Mostrei- lhe o que preparara. Ela disse que era aquilo mesmo. E como é necessário tempo
para ir colocando os assuntos em dia e acertar o passo daquilo que se vai fazer, fomos, eu, ela e a amiga que me ajudara na cozinha e agora ia ser fundamental no registro do encontro, dobrando cartazes e fazendo deles um presente para cada um/a que ali viesse ter. O texto do Steiner22 sobre a necessidade de romper os padrões de
medo ancestralmente a nós impostos parecia mais do que apropriado para amparar a conversa primeira, depois o encontro, depois o depois.23
Messejana seria sempre um centro para os encontros do Canto e, desta vez, também
chamava para as continuidades e rupturas a serem pensadas:
A casa da mãe de Deysa já estava limpa. Eram 10 horas da manhã, a hora agendada com os que comporiam o primeiro ciclo reflexivo – mas ninguém chegou. Pensei: é assim mesmo, estou no lugar certo. E estava. Pouco a pouco foram chegando, como ocorreu na própria história do Canto, os que fizeram parte dos primeiro Corais Infantis, ao tempo em que entrevistava Deysa que, como anfritiã da festa, se antecipara aos demais e nos contava de que forma a música entrara em sua vida: aos sete anos, numa seleção em que Nininha adentrara sua sala de aula, na Escola Municipal José de Alencar, perguntando quem se interessava por participar do coral que ela estava a organizar. Ora, estava ela justamente falando de Branca, com quem dividira as primeiras turmas a elas concedidas para o trabalho, já adolescentes, com coral infantil por Nininha, quando... Branca chega! Eu sequer a conhecia, pois o Polo de Música abrigou muita gente, e muitas vezes só as histórias nos chegaram. E depois de Branca, Liduína, e Gilberto, e Joana, e Socorro, e Loló, e Dionilson e... tantas, tantos outros, até que o povo do Canto foi, devagarinho também, se achegando. Nesse ínterim, a grande esperada por nós todos/as: Nininha chega acompanhada de Eunice, e aí a festa das lembranças de um e de outro, de uma e de outra, vai virando um grande banquete, servido junto com a refeição que Maria Helena (tia de Deysa), Márcia e Letícia (as amigas que cozinharam desde o dia anterior) e Francisca (mãe de Deysa) generosamente ofertaram a todos/as os/as presentes.24
Dizer, então, a partir do diário de campo, que as entrevistas, como a que se iniciou com
Deysa, foram gravadas e depois transcritas ― material com que passo a lidar a partir de então.
Quanto aos sujeitos entrevistados, foram eles: Deysa di Morais e Deyves di Morais (irmãos
que pertenceram aos Corais Infantis de Messejana, ao Polo de Música e ao Canto), Mateus da
Silva (artista plástico que fez parte do Polo de Música de Messejana e depois do Canto),
Manu Kelé (cantor/compositor e professor de história oriundo do bairro do Trilho, que fez
parte do Canto na qualidade de Regente Popular) e Erilene Matos (que trabalhou inicialmente
na função de apoio de bairro, dentro das funções existentes no Canto, tornando-se depois
professora de flauta doce, com atuação em projetos sociais e escolas particulares).
Com esses sujeitos, em determinado momento configurou-se e foi possível fazermos um
ciclo reflexivo, o primeiro, ainda de modo tateante ― razão pela qual inscrevi esse momento
nas entrevistas e não nos ciclos.
22Texto de Rudolf Steiner inserido nos Anexos. 23Diário de campo da pesquisa/19.março.2015.
Além deles, foi possível recontactar com Ana Maria Militão Porto/Nininha, em torno da
qual esse encontro de março foi construído. O aspecto de grande amorização em que se
constituiu a reunião permitiu não só a abordagem dessas pessoas como possibilitou o
envolvimento de algumas delas que, de outra forma, seria difícil contatar.
O segundo momento da pesquisa deu-se com um ciclo reflexivo realizado com Regina
Gadelha e Ada Melo no final de março de 2015, as duas oriundas dos Corais de Messejana
(coral jovem) e do Um Canto em Cada Canto na qualidade de Regentes Populares. Foram
cerca de duas horas em que, como dito no Capítulo I, condensaram-se questões que
inicialmente se queria distribuídas em diversos ciclos reflexivos para um mesmo momento.
Essa decisão se fez em função da dificuldade de agenda dos sujeitos da pesquisa e no intuito
de potencializar os encontros realizados.
Um terceiro momento da pesquisa aconteceu no início de abril de 2015, quando foi
possível reunir num mesmo ciclo reflexivo Ana Maria Militão Porto/Nininha e Ada Melo,
novamente, com a participação de Giseldo Jr.. Aqui foi interessante rever aspectos já
levantados quando dos ciclos anteriores, mas sob outra ótica também. E perceber que os
elementos guardados na memória tomam caracteres diferentes segundo as narrativas e os/as
narradores/as. Como no ciclo reflexivo anterior, foram duas horas de encontro, também
registradas em filmagem e depois transcritas.
Um quarto momento da pesquisa deu-se com o ciclo reflexivo realizado com Deysa di
Morais e Ebson Paixão, conhecido como Dedé. Deysa já havia sido contatada inicialmente no
primeiro momento em Messejana e Dedé, que fez parte do Polo de Música de Messejana,
também integrou o Canto na qualidade de Regente Popular. Este ciclo teve uma duração
menor, cerca de uma hora, mas aportou igualmente elementos relevantes ― e foi seguido de
entrevista com Giseldo Jr., que integrou a ACIC vindo de uma experiência com o Coral da
UFC e que ocupou a função de apoio à regência durante quase todo o tempo de sua atuação
junto ao Canto.
Um quinto momento dos ciclos reflexivos ocorreu quando de um segundo grande
encontro coletivo ocorrido em 2015, em que se festejou os setenta e dois anos de Ana Maria
Militão Porto/Nininha, dia vinte de junho. Ali, muito embora já no processo de escrita da
dissertação, foi possível reencontrar os sujeitos da pesquisa, devolver-lhes informalmente
conteúdos trabalhados e confirmar ou não aspectos em construção.
da dissertação, em julho de 2015, no qual chequei dados recolhidos e recolhi outros,
importantes, a partir desse encontro que se fez no quintal de sua casa, enquanto ele
confeccionava instrumentos. A conversa foi tecida no ritmo desse construir.
Um sétimo momento, que não exatamente está datado mas que comparece durante todo
o processo, foram as conversas de orientação com Ângela Linhares, orientadora mas também
sujeito da pesquisa ― conversas essas fundamentais não só para todo o entretecer de dados
respaldados em referenciais teóricos mas, sobretudo, pela leitura sempre atenta e crítica dos
processos vividos, mesmo quando deles partícipe.
O tratamento dado a todo esse material, então, é o de proporcionar o diálogo entre as
várias narrativas, quer das entrevistas, quer dos ciclos reflexivos, quer nas conversas
informais, quer mesmo da narrativa coletiva ínsita na produção do Canto, de modo a poder ir
construindo o tecido do qual se possa recortar os elementos da experiência dos sujeitos em
foco para o que seria um percurso possível para o trabalho com arte na escola.
Para tanto, trago uma questão que foi a mim colocada pela própria orientação durante o
período de análise/escrita da pesquisa ― e que permeou todo o processo de reencontro com o
Um Canto em Cada Canto: “A memória parece nos trazer o que fomos e o que sonhamos
ser?”
Nesse sentido, é interessante tomar memória na acepção de Bosi (1997) ― que alude a
Platão, para quem a memória é ativa ―, quando diz: “aprender é lembrar, lembrar é
aprender”. Ao discorrer sobre a travessia do rio Lethe, o rio do esquecimento, assim continua:
(…) para Platão as lembranças remontam a épocas distantes, a um momento em que a alma pudera contemplar as verdades ideais e eternas. Todas as almas têm sede de saber e já a tinham nas vidas pregressas. Acontece que os deuses, cruéis em sua sabedoria, não se agradavam de ver que se desse um copo d'água para a alma sedenta e ŝfrega antes de ela fazer um sacrifício, ao menos o sacrifício da espera. O conhecimento exige a purificação da paciência. As almas deveriam esperar um tanto para que o desejo se interiorizasse e se espiritualizasse dentro delas; só assim, o desejo se transformaria em conhecimento, pois entre um e outro ocorreria o tempo necessário à memória. A água oferecida pelos deuses era tirada de um rio chamado Lethe, rio do esquecimento. Se as almas, arrastadas pela sede do desejo sem freio, bebessem a água do Lethe, sem a pausa do sacrifício, ao invés de aprender, cairiam na letargia, que é um estado de sonolência, de embrutecimento, de inconsciência. Voltariam aos seus instintos brutos e, saciadas e entorpecidas muito rapidamente, seriam incapazes de dar o salto que leva ao conhecimento através da memória. Mas aquelas almas que esperassem e não tragassem ŝfregas a água do Lethe alcançariam o não-esquecimento, o des-ocultamento, a a-letheia, a alétheia. Quem sofreia o desejo que, saciado, leva ao entorpecimento, consegue chegar à verdade, que é lembrança pura, memória libertadora. Porque o esquecimento nos prende ao peso de um presente sem dimensões, quando é causado pela violência dos sentidos e pelo agrilhoamento da consciência. Ai daqueles que esquecem! As sociedades que se esquecem do seu passado, mesmo do seu passado recente, vagarão e errarão
estupidamente sem encontrar a porta de saída que é a reflexão sobre o passado. (BOSI, 1997, pp.53-54)
Retomar contato com as narrativas dos/as artistas-educadores/as do Canto através dos
ciclos reflexivos e das entrevistas como meio que possibilitasse essa travessia entre as
margens do passado e do presente foi, mais que acertada, a ponte possível para entrever aquilo
que Steiner (2013, p.70) anuncia quando diz que “a alma humana é uma fonte inesgotável que
pode fazer germinar, basta desencantarmos uma vez o que estava sob a camada superficial”
― ou, dito de outra maneira, chegar perto de uma experiência que jaz à espera desse
desencantamento.
E se esse desencantamento, no sentido afirmativo, dá-se na experência em análise nesta
pesquisa a partir do trabalho do Canto e do que o originou, bem como de um encantamento
― ou seja: de um cantar que envolve e que passa a dar sentido à vida de meninos e meninas
que, oriundos da escola pública, passam a encontrar na arte (no Canto Coral Infantil), mais
que um entretenimento: um jeito de ser e de se expressar no mundo ―, tal encantamento se
reconstrói a partir dos fios que, como diz Delory-Momberger (2006), compõem uma
narrativa, centro da metodologia que elegi ― história de vida e formação. Narrativa de vida
que “é matéria instável, transitória, viva, que se recompõe sem cessar no presente no
momento em que ela se anuncia”:
Presa ao presente de sua enunciação e, ao mesmo tempo, meio e fim de uma interação, a narrativa de vida não é, jamais, 'de uma vez por todas'. Ela se reconstrói a cada uma de suas enunciações e reconstrói, juntamente com ela, o sentido da história que anuncia. Essa história por definição não é jamais 'finita', submetida ao perpétuo não acabamento ou, o que dá no mesmo, circunscrita a um acabamento que está sempre adiante dela. (DELORY-MOMBERGER, 2001, p.362)