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Do Ensino Religioso multiconfessional para o interconfessional, um avanço, mas nem

2. ELEMENTOS HISTÓRICOS DO ENSINO RELIGIOSO: CONCEPÇÕES EM

2.7 Do Ensino Religioso multiconfessional para o interconfessional, um avanço, mas nem

No dia 30 de março de 1964 o presidente da República do Brasil João Goulart é deposto do seu cargo e o país sofre mais um golpe em sua democracia, ocasionada pela Ditadura dos militares. O projeto político e econômico do governo de Goulart como a nacionalização das refinarias de petróleo e em querer fazer uma ampla reforma agrária não agradava a elite do Brasil e nem aos interesses estrangeiros, em especial o dos americanos. Foi criado por esses setores a ideia do governo querer implantar o comunismo e assim houve a aliança dessas forças para a efetivação do novo regime político.

O general Humberto de Alencar Castelo Branco foi eleito indiretamente no dia 11 de abril de 1964 e quatro dias depois toma posse na presidência. Tem-se o início de uma época autoritária, repressiva e centralizadora do governo, enterrando grande parte dos ganhos sociais e políticos da população. Um exemplo disso foi a extinção do Plano Nacional de Alfabetização no dia 14 de abril de 1964 e paulatinamente a paralisação dos núcleos que eram conhecidos por “educação popular” (RIBEIRO, 1991, p.166). É outorgada em 1967 a quinta Constituição do país que legitima o Novo Regime.

A Igreja Católica que no início dera apoio ao regime ditatorial dos militares torna-se uma forte opositora diante dos absurdos com que o governo tratava a população. Foram de grande destaque: a Ação Popular, a Juventude Universitária Católica e a Juventude Estudantil Católica.

Na área da educação escolar foram assinados acordos entre o MEC e a Agency for International Development (AID) para “assistência técnica”. O resultado foi a implantação de uma política educacional direcionada ao mercado de trabalho. O primeiro grau deveria atender à massa, o segundo grau foi caracterizado pelos conteúdos de elementos utilitários, práticos e de cunho profissionalizante que instauraram a denominada profissionalização compulsória. O ensino universitário era reservado às elites. De acordo com Piletti (2003) a educação mantinha a estratificação social, submetendo o aluno ao modelo tecnicista deixando-o a serviço do setor produtivo.

Ribeiro (1991, p.168) também demonstra a vinculação entre processos educativos e vida econômica:

Se, antes de 1964, por exemplo, o que motiva vários grupos a descobrirem meios de alfabetizar a população adulta era a convicção de que a alfabetização era um instrumento indispensável, mesmo que não suficiente, à participação ativa na política do país, após 1964, com o Mobral, é feita a

vinculação imediata da alfabetização com a „participação‟ na vida

econômica.

A educação por parte dos colégios católicos seguia a orientação do Concilio Vaticano II de 1965, reforçada pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas, acontecidas em Medellín, Colômbia (1968), e em Puebla, México (1979). A Igreja

buscava implantar uma educação escolar e uma evangelização libertadora, comungado com o anseio de mudanças sociais e políticas distanciando-se do governo.

A Constituição de 1967 faz referência ao Ensino Religioso em seu artigo168 § 3º, item IV, determinando que: “O ensino religioso de matrícula facultativa constituirá .disciplina dos horários normais das escolas oficiais de grau primário e médio” (BRASIL, 1967). Apesar de ser garantida na Carta Magna essa disciplina passa a ser controlada diretamente pelo Estado.

Com a Lei de Diretrizes e Bases para o Ensino de 1° e 2° Graus de 1971 houve o aumento de disciplinas obrigatórias no currículo e o Ensino Religioso continua a constar como disciplina optativa para os alunos, ficando pouco espaço na prática para a sua inclusão. De maneira suscita o Art. 7° da LDB de 1971 estabelece que: “O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais de 1º e 2º graus” (BRASIL, 1971). Observe que o artigo não determina o caráter confessional, como era estabelecido na LDB de 1961.

Em 1984 o civil Tancredo de Almeida Neves é eleito presidente do Brasil, após vinte “Anos de Chumbo”. Apesar de ter sido uma escolha indireta temos o início da redemocratização do País. O Presidente Tancredo Neves antes de tomar posse adoece vindo a falecer em 21 de abril de 1985, passando o cargo para o vice-presidente José Sarney que assumiu o cargo no mesmo ano.

Sarney convocou a Assembléia Nacional Constituinte e os diferentes setores da sociedade se mobilizaram para a elaboração da nova Carta Magna do Brasil que foi promulgada em 1988, ficando conhecida como “Constituição Cidadã.”

A educação foi tema gerador de vários conflitos entre os defensores da escola pública e privada e sobre interesses conservadores e progressistas. O resultado é que em várias passagens da Constituição encontramos a abordagem sobre esse tema e que trouxe várias conquistas, por exemplo:

A consagração da educação como “direito público subjetivo” (Art. 208 & 1º),

o princípio da “gestão democrática do ensino público” (Art. 206, VI); o dever do Estado de prover “creche e pré-escola às crianças de 0 a 6 anos de idade” (Art. 208, IV); a oferta de ensino noturno regular” (Art. 208, VI); o “ensino

acesso em idade própria” (Art. 208, I); o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiências” (Ar 208, III) (BRASIL, 1988).

O Ensino Religioso é incluído na nova Carta Magna por pressão dos grupos religiosos ficando assim estabelecido no Art. 210 § 1º: “O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.

A partir dos anos 70 foi se desenvolvendo uma nova concepção de Ensino Religioso, que tentou superar o modelo multiconfessional, onde cada igreja fazia sua catequização. A nova concepção ficou denominada de interconfessional, onde as denominações cristãs buscam encontrar pontos comuns, sendo o referencial teórico as ciências humanas e a Teologia passa a ser o eixo principal e não mais a doutrina específica de uma denominação religiosa. Essa visão de ecumenismo cristão vai sendo ampliada para as outras tradições religiosas, tornando-se, dentro das limitações, universal.

Para Passos (2007, p. 30) o novo modelo é em certo sentido moderno “[...], na medida em que apresenta as questões religiosas em diálogo com as demais disciplinas dentro da escola e se esforça por promover o respeito e o diálogo entre as religiões, dentro de um horizonte de finalidades ecumênicas”.

O Ensino Religioso interconfessional pode ser refletido no Art. 7° da LDB de 1971: “O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais dos estabelecimentos oficiais de 1º e 2º graus.” (BRASIL, 1971.) Bem diferente é essa disciplina na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (4024/61), quando o Ensino Religioso é homologado tendo caráter confessional, portanto, uma catequese escolar, conforme indica o Art. 97:

O Ensino Religioso constitui disciplina dos horários normais das escolas oficiais, é de matrícula facultativa e será ministrado sem ônus para os cofres públicos, de acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante legal ou responsável.

1º parágrafo- A formação de classe para o ensino religioso independe de número mínimo de alunos.

2º parágrafo- O registro dos professores de ensino religioso será realizado perante a autoridade religiosa respectiva (BRASIL, 1961).

O objetivo do Ensino Religioso interconfessional é a formação religiosa do cidadão que vive em uma sociedade secularizada. A concepção do religare é essa tentativa de religar o ser humano a Deus, pois a religião é algo imprescindível à formação integral da pessoa. Nessa concepção de Ensino Religioso, a religiosidade é uma das dimensões essenciais do ser humano, assim como a social, afetiva, racional e espiritual. A educação da dimensão religiosa não é apenas responsabilidade das confissões religiosas, mas também da escola. Assim, essa disciplina foi entendida como “[...] aula de ética e valores, e o conhecimento veiculado foi o da formação antropológica da religiosidade [...]” (FONAPER, 2000, p. 13).