C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C a d e r n o s T e m áT iC o s C r P s P Psicologia em emerg ências e desastres C A D E R N O S T E M áT iC O S C R P S P Psicologia, direit
os humanos e pessoas com deficiência
33
Colegas da equipe relataram que se sentiam mui- to inseguros para realizar qualquer tipo de pro- cedimento ou exame com ele por temerem sua suposta agressividade.
Foi nesse contexto que nos dirigimos à casa desse rapaz. Lá, ele residia com avó e tio paternos. Chegado à casa, nos pusemos a cha- mar e anunciar que havíamos chegado, batemos palmas e chamamos em voz alta. Após isso, deu-se o inesperado. Começamos a ouvir mur- múrios e sons vocálicos que não conseguíamos reconhecer. Com esses sons começamos a ou- vir sucessivas batidas muito fortes na janela da casa. Estávamos visivelmente tensos. Porém, decididos a entrar. Ao entrar, os sons estavam mais altos, ao invés de murmúrios seguiam so- mente as vocalizações em voz alta e, ao invés de batidas na janela, agora eram na porta do quar- to. Conhecemos sua avó que nos recepcionou de forma acolhedora e, com gratidão, buscou nos tranquilizar dizendo que apesar da agitação seu neto não era agressivo.
Parte da equipe quis desistir, mas entra- mos no quarto. Ao entrar no quarto, nos depara- mos com um homem com uma espécie de maca- cão que unia por costura bermuda e camiseta e, aparentemente, tão tenso como nós. iniciamos o primeiro contato e fomos bem-sucedidos. Nada complexo, apenas oferecemos afeto. Ao sinalizar com as mãos, ele se interessou e se lançou so- bre mim. Terminamos por sentar no chão, eu e ele, e ele pôs-se no meu colo ansiando por carinho e assim o fiz. Enquanto o acariciava, pudemos re- parar que o ambiente não possuía nenhuma mo- bília além da cama de cimento, o colchão e um guarda-roupa. A janela tinha grades, o piso era frio e a porta, que permanecia fechada o tempo todo, tinha um visor para que ele pudesse espiar o lado de fora. Para nós, a imagem de um cárcere, impactante. iniciamos conversa com sua avó, que nos explicou que nos primeiros 15 anos de vida do rapaz eles buscaram instituições públicas e priva- das que pudessem incluí-lo em atividades de esti- mulação, educação, convivência social e cuidado, entretanto, uma após uma, a família amargou ne- gativas. Seus pais haviam se separado, sua mãe sumiu sem dar notícias e o pai, que morava na re- dondeza, raramente vinha a casa visitá-lo a não ser depois de muita insistência de sua mãe, avó do rapaz que estávamos atendendo.
Contou também que, quando ele tinha 15 anos aproximadamente, a avó começou a se sen-
tir incapaz de levá-lo a serviços de saúde para atendimento. E que ele ficava muito agitado em ambiente com muitas pessoas e também que, às vezes, resolvia sentar-se onde estivesse e recu- sando-se a levantar e ela não tinha mais forças, por ser idosa, para conseguir transportá-lo. Con- clusão: por aproximadamente 17 anos, o rapaz passou confinado em seu quarto somente saindo para cuidados básicos de higiene. Em seu históri- co, ainda chegou a ser internado em Hospital Psi- quiátrico do interior do estado de São Paulo, onde segundo sua avó, passou apenas alguns meses, porém, o suficiente para que após visita, em que o encontrou emagrecido e visivelmente mal trata- do, solicitasse alta pedida e o trouxesse de volta a Campinas com medo de que ele morresse aban- donado à própria sorte no manicômio.
Novamente, refaço a pergunta de por que um rapaz que sequer teve a oportunidade de acessar serviços que pudessem estimulá-lo com família, que segundo a avó, jamais teve suporte para cuidar do rapaz, foi internado no manicô- mio? Esse rapaz chegou a ser atendido também por terapeuta ocupacional do próprio centro de saúde, que, segundo a avó, colaborou muito, to- davia, quando ela deixou de trabalhar na unidade o acompanhamento foi interrompido. Quanto ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) da região, nos exaurimos de pedir parceria. Como resposta, ouvíamos que ele não tinha “perfil” para ser inse- rido no serviço sem nem ao menos ser avaliado. Segunda conclusão: nós e a família encontráva- mo-nos sozinhos.
iniciamos seu acompanhamento com visitas semanais e apostamos no acompanhamento te- rapêutico (AT) como ferramenta. Gradativamente, o incentivamos a se apropriar do espaço da casa, foram muitas semanas, pouco a pouco fazíamos progressos. Após seis meses de visitas, uma vez por semana, conseguimos que ele saísse da casa conosco para os primeiros passos fora de casa. Com pouco tônus muscular nas pernas, iniciou de forma tímida e descoordenada seus primeiros pas- sos e logo se cansou, precisou sentar-se diversas vezes, mas o ajudamos a levantar e seguimos ten- tando. As pessoas da vizinhança quando o viram se emocionaram. Crianças que só o conheciam de ouvir falar o conheceram e pessoas que o conhe- ceram ainda criança, voltaram a vê-lo depois de muitos anos. Nós todos nos emocionamos.
Apesar desse avanço, o passo decisivo na história desse rapaz e família foi somente dado
34
após fazermos discussão do caso com o Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CRPD) de Campinas e serviços do Sistema Único da As- sistência Social (SUAS). Nossa cidade é privilegia- da em ter um serviço como esse dentro da Secre- taria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Cidadania, mesmo que em sua equipe técnica so- mente haja uma psicóloga e uma assistente social para uma cidade de aproximadamente um milhão e duzentas mil pessoas. Após a inserção do CRPD no caso, foi realizada visita domiciliar conjunta com nossa equipe. O rapaz e sua família foram inseridas em programa da assistência social de cuidadores e passaram a contar com a visita de cuidadores duas vezes por semana e o rapaz foi encaminhado novamente para serviço especiali- zado no atendimento a pessoas com deficiência.
Essa história ainda continua até os dias de hoje e ela reflete o quanto o processo de exclusão dessas pessoas é profundo em nossa sociedade, o quanto o Estado e a sociedade civil são negli- gentes e como também a formação de profissio- nais é insuficiente e até, por vezes, conivente com processos de abandono de pessoas com defici- ência e suas famílias. Enquanto representante do CRP SP, eu entendo que é nossa responsabilidade enquanto órgão profissional fomentar esse deba- te, pois, psicólogas(os) também constantemente avaliam pessoas como as do meu relato e fecham seus olhos para sua responsabilidade no cuidado, acolhimento ou encaminhamento dessa popula- ção. Por incompetência ou negligência, fazemos parte desse circuito que gera processos de ins- titucionalização em instituições inaptas para o atendimento a essas pessoas, como hospitais psiquiátricos e asilos para pessoas com defici- ência, ou gera exclusão e abandono das pessoas como as exemplificadas na minha fala.
Para encerrar, reafirmo que precisamos aprofundar o processo de integração entre as diferentes políticas públicas, instituições, organi- zações da sociedade civil e movimentos sociais, pois a mudança desse cenário depende da cola- boração de todas e todos. A lógica manicomial não está somente dentro dos hospitais psiquiá- tricos, ela está também dentro cada uma e cada um de nós, no momento em que, em vez de en- frentar o desafio de produzir articulação de cui- dado em rede para lidar com situações comple- xas, escolhemos lavar nossas mãos e achamos que nos eximimos da responsabilidade desse processo de violência. É nesse momento que o manicômio em nós opera, pois, quando nos des- responsabilizamos, as instituições asilares e ma- nicomiais estarão sempre prontas. Sem nenhum escrúpulo, seus agentes irão afirmar que institu- cionalizar, asilar, internar é a solução para o que nossa sociedade ainda não conseguiu dar conta e/ou não quer entrar em contato, por saber que nós mesmos somos parte do problema e definiti- vamente parte da solução.