CAPÍTULO 1 - OS DIREITOS FUNDAMENTAIS E O DIREITO DO TRABALHO
1.4 Evolução do trabalho humano e surgimento do direito fundamental do trabalho
1.4.6 Do Estado liberal ao Estado social: o direito do trabalho
Evidente que o trabalho forçado não dignifica, nem liberta a pessoa humana, apenas evidencia o quão monstruoso pode ser uma pessoa ao subjugar seus semelhantes. De qualquer modo, foi naquela fase histórica do século XVIII, que o trabalho livre foi considerado juridicamente como uma das mais marcantes comprovações da liberdade da pessoa humana, de igualdade jurídica e social, pelo menos, sob a ótica inicial do Liberalismo.
A situação de exploração laboral sistematizada, juntamente com outros fatores coletivos diversos, desencadearia na formação de um Estado intervencionista, social, fundamentado também numa 2ª geração de direitos que abarcaria o social e o coletivo, entre os quais o direito do trabalho.
Conclui-se, porém, que a Revolução Industrial e Política tiveram consequências fundamentais positivas para a sociedade, para o trabalhador e para o trabalho, tais como a liberdade e igualdade jurídica entre as pessoas perante a lei e o Estado e avanços e inovações industriais os quais acarretaram mudanças em toda a estrutura das relações do trabalho, com a divisão social e material do trabalho humano; incremento quantitativo do rendimento do trabalho humano, em face das máquinas.
Por outro lado, a Revolução Industrial, bem como a nova forma de trabalho livre, a locação de serviços então originada, também abalou instituições alicerçadas há tempo, tais como a família.
Com efeito, o fato de a máquina igualar no plano físico a qualificação dos trabalhadores para a maioria dos serviços, deixando, aparentemente, todos os operários no mesmo nível, permitiu o ingresso no mercado da mão-de-obra de mulheres e menores. A doutrina jus laborista ressalta que a abundância de mão-de-obra transformou as famílias em sociedades por quotas, economicamente falando, necessitando do trabalho de todos para a obtenção de uma receita média razoável, que garantisse a continuidade de atendimento das necessidades inadiáveis.
Ainda, se inicialmente as lutas dos trabalhadores tiveram por objetivo a posse dos meios de produção, a partir do desenvolvimento das indústrias surgiria uma oposição direta entre os interesses do proletariado e do capitalista (SUSSEKIND, 2003, p. 35-40). Em alguns casos, nesta luta de classes, o capital faria concessões para acalmar os trabalhadores; em outras ocasiões, aquele imporia pela força ou pela ameaça o atendimento de suas reivindicações, pensamento que, ressalta-se, parte da doutrina defende a existência até a atualidade.
A Revolução Industrial trouxe consequências alarmantes, refletindo-se na perda de uma segurança mínima que a nova figura do trabalhador subordinado, à época, começava a adquirir. Porém, foi assim que o sistema de concorrência usado pelos empresários, aliado às consequências sociais desastrosas, infundiu na mentalidade dos trabalhadores a necessidade de enfrentá-los. Se inicialmente as diversas manifestações e reivindicações dos trabalhadores foram inglórias, pois que eram poucas as suas forças e os resultados práticos, com certeza serviu de alicerce para sedimentar a ideia de que a situação vigente era injusta, ilegítima, inadequada e que deveria mudar.
Assim, o Estado estava diante de um grande dilema: ou continuava a penosa desigualdade social que o capital impunha ao proletariado, diante da política liberal, ou então teria que intervir, fixando normas que permitissem que as relações de trabalho fossem reguladas segundo à justiça e à equidade, para que no ambiente de trabalho não fosse lesada a dignidade da pessoa humana, como sistematicamente vinha sendo no regime vigente.
O Estado deveria, no conceito de igualdade e liberdade, levar em conta não somente a autonomia da vontade privada nas relações jurídicas, mas a autonomia da vontade coletiva, esta que até então era inexprimível.
Nesse contexto, a doutrina social da Igreja Católica, com bases filosóficas e políticas, muito ajudou. Com efeito, segundo Martins (2012a, p. 7), a encíclica papal “Rerum Novarum”, do Papa Leão XIII, no ano de 1.891, condenava a influência da riqueza nas mãos de pequeno número ao lado da indigência da multidão; denuncia a usura praticada pelos homens ávidos de ganância e de insaciável ambição; aduz que é vergonhoso e desumano usar do homem como objeto e vil instrumento de lucros.
A encíclica “Rerum Novarum” empresta, então, o fundamento moral à intervenção do Estado nas relações de trabalho. Esta encíclica arguiu a impossibilidade da solução do problema social, se os povos continuassem aferrados às anacrônicas concepções do liberalismo individual, com a exploração evitável que advém de um mais forte, sobre os mais fracos.
Mas, por outro lado e de forma oposta à doutrina social cristã proposta no ocidente surgiu, também, o “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, que apregoava uma reação ao sistema existente, retirando o poder do sistema liberal e contratual puramente capitalista e convidando os operários, o proletariado de todo o mundo a unir-se para enfrentar o inimigo comum, o “Capital”.
De todo modo, em meio a todo esse contexto e teorias sociais, em última análise, na verdade, a Revolução Industrial foi o fundamento econômico, o qual gerou aspectos e fundamentos jurídicos, ideológicos e políticos, que levaram ao surgimento do estado social e do direito do trabalho.
Assim, o direito do trabalho é sem dúvida produto cultural do século XIX e das transformações sociais então vivenciadas, as quais colocam a relação de trabalho subordinado como núcleo motor do processo produtivo característico daquela sociedade. Em fins do século XVIII e durante o curso do século XIX verificaram-se, na Europa e Estado Unidos, todas as condições fundamentais de formação do trabalho livre, porém subordinado e de concentração proletária, que propiciaram a emergência do direito do trabalho.
O direito do trabalho surge, assim, da combinação de um conjunto de fatores sociais, quais sejam: econômicos, políticos, jurídicos e ideológicos, que procuravam uma forma de trabalho com proteção ao trabalhador, em face de sua hipossuficiência e, por outro lado, em face da superioridade econômica do empregador.
Essa conquista do direito do trabalho foi a síntese de várias normas de direito dentro do ordenamento jurídico, que objetivaram uma harmonia entre o capital e o trabalho, se destacando, como fonte jurídica maior, o princípio da proteção.
Por um lado e em movimento ascendente, em face da exploração desmesurada do trabalho assalariado, os trabalhadores reivindicaram a formação de uma legislação protetora, com o intuito de regular segurança e higiene do trabalho, o trabalho do menor, da mulher; o limite para a jornada semanal de trabalho; a fixação de uma política mínima para o salário, entre outros.
Por outro lado, a evolução dos acontecimentos fez com que o Estado, como forma de atenuar o antagonismo entre capital e o trabalho, passasse a legislar sobre as condições de trabalho, criando mecanismos normativos quanto à equiparação jurídica entre o trabalhador hipossuficiente e o empregador detentor dos meios de produção.
Surge, então, em decorrência desses aspectos econômicos (Revolução Industrial), jurídicos (movimentos e reivindicações dos trabalhadores e da sociedade) e de ideologia social (doutrina da justiça social), o fundamento político para nova ordem, o Estado intervencionista, o estado social, que passa a agir na proteção da coletividade.
Já em 1919, foi editado, o Tratado de Versailles, prevendo a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que iria incumbir-se de proteger as relações entre empregados e empregadores no âmbito internacional, expedindo convenções e recomendações, direcionando os estados-membros da comunidade internacional.
A doutrina juslaborista histórica, entre os quais Martins (2012a, p. 8-9), informa que a partir do término da Primeira Guerra Mundial, surge o que pode ser chamado de constitucionalismo social. A inclusão nas constituições de preceitos relativos à defesa social da pessoa, de normas de interesse social e de garantia de certos direitos fundamentais, entre eles o direito do trabalho. A primeira a tratar do tema foi a Constituição do México em 1917 (art. 123), seguida pela Constituição de Weimar, na Alemanha, em 1919.
Em 1948, é editada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que pode ser considerada uma espécie de ápice da universalização dos direitos fundamentais humanos, inclusive do direito do trabalho, conforme se verifica de seus dispositivos, notadamente do artigo 23, conforme transcrito alhures.
Os direitos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão foram sendo paulatinamente incorporados universalmente em todos os Estados, através de seus ordenamentos jurídicos internos, particularmente, nos Estados democráticos de direito, tais como o Brasil.
Com efeito, o trabalho desde então, passou a ser instrumento de realização da justiça social, um meio eficiente de ascensão social e econômica e consequentemente, aliado a outros direitos, instrumento de integralização da dignidade da pessoa humana. Pelo direito do
trabalho é possível à pessoa, ao trabalhador, ser livre e consciente de si, de seus semelhantes e das potencialidades ao seu redor, tendo reflexos individuais e coletivos, de modo que o trabalho passou a ser totalmente regulamentado com inúmeras normas de proteção ao trabalhador e ao trabalho.
No Brasil, os princípios e direitos fundamentais, em especial inerentes ao direito do trabalho, conforme já exposto alhures, constam da vigente Constituição de 1988, positivados nela a dignidade da pessoa humana, o valor do trabalhador e do trabalho e o minucioso elenco de direitos individuais e coletivos do trabalho, particularmente de seus artigos 1º, 3º, 7º ao 9º e 170, respectivamente.