86 Sendo assim, diante de todo o exposto, a decisão do Supremo Tribunal Federal celebrou a igualdade em suas mais diversas acepções, desde o plano formal até, finalmente, repousar no plano material.
87 Caso seja aprovado, da leitura do já mencionado art. 2º do referido Estatuto, podem-se extrair dois requisitos cumulativos para a configuração de família: a) união entre pessoas de sexos opostos, b) existência de casamento, união estável ou comunidade formada por pais ou descendentes.
Essas imposições podem causar algumas situações de desigualdade, inclusive de injustiça quando transplantada para o mundo dos fatos.
Nesse diapasão, algumas entidades que de fato existem na sociedade brasileira atual, diante dos parâmetros impostos pelo Estatuto da Família em votação, seriam marginalizadas, e ficariam ao desamparo da lei.
Seguindo essa lógica, pode-se elencar situações práticas, como por exemplo: as famílias mosaicos, anaparentais, homossexuais e ainda a família eudemonista, esses seriam excluídos do conceito de núcleo familiar proposto, e consequentemente, estariam de fora de eventuais benefícios que o governo possa disponibilizar para aqueles que entendem englobar no conceito de família.
Para elucidar a questão, um homem solteiro, que em decorrência da morte de seu irmão passa a cuidar da filha menor de idade do de cujus, até porque a menina não possui mais ninguém de quem possa socorrer-se, por mais que convivam na mesma casa, que haja a dependência financeira da garota perante o tio, ou ainda, que ele seja responsável por sua formação ética, e ambos nutram reciprocamente sentimentos de mútuo afeto, em que pese todo esse pano de fundo, tal situação não estaria coberta pelo primeiro requisito exigido pelo Estatuto da Família, pois o então tio não se juntou com uma mulher, e muito menos estaria repousando sobre a sombra do segundo requisito da lei, qual seja, estar em união estável, casamento, ou ainda em comunidade.
Nessa mesma linha, a união homoafetiva, que já foi reconhecida pela Corte Suprema do Brasil (ADI 4227) seria da mesma maneira, marginalizada, configurando evidente retrocesso nos direitos dos cidadãos. Seria um ultraje ao direito de liberdade, que em seu sentido mais amplo, contempla a liberdade sexual.
A Carta Magna Nacional contempla em seu art. 5º, o Direito de Igualdade entre as pessoas, o qual é seriamente afrontado com a atual redação do art. 2º do Estatuto da Família.
Nessa orientação, tanto o sujeito do exemplo anterior, quanto os membros das modalidades de famílias já explanadas nesse trabalho, que fogem ao
88 conceito tradicional, estariam desamparadas frente aos Direitos Constitucionais direcionados à entidade familiar, bem como os deveres que a mesma impõe. Os efeitos práticos que tal redação de família proposta pelo Estatuto pode causar são imensuráveis, e podem atingir inúmeras esferas da vida social.
Nesse diapasão, a Constituição Federal atribui alguns direitos e deveres para determinados entes, sendo a família um deles, nesse caso, essas entidades podem cobrar os direitos plasmados no âmbito constitucional, bem como podem ser compelidas a realizarem suas obrigações.
Oportuno, nesse transcorrer lógico, a leitura do art. 225 da Constituição Federal de 1988:
Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
O Direito à Educação, o qual é uma incumbência do Estado em parceria com a Família proporcionar ao menor, poderia sofrer mitigações quando em vivências práticas, a título de elucidação, se membros de uma união estável homoafetiva deixam de matricular as crianças que eventualmente estariam sob sua guarda na escola regular, ou ainda administra mal a educação dessas crianças, caberia ao Estado, mediante o Ministério Público, em vista da defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente cobrar de quem para resolver essa situação? Uma vez que, de acordo com a atual redação do projeto de lei, esse aglomerado de pessoas não seria considerado como entidade familiar, logo, tecnicamente, não teria a obrigação de submeter-se ao art. 225 da Carta Magna.
Nesse mesmo corolário, pode-se citar as disposições do art. 227 da já mencionada Carta Magna:
Art. 227 É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão
Isto posto, é claro e evidente que a Constituição Federal não faz nenhuma diferenciação entre a família formalmente constituída através do
89 casamento e enquadrada nos preceitos tradicionais do termo e aquela constituída a luz da realidade fática, que embora seja um fruto do dinamismo social, não deixa de ser, tão família quanto a anterior.
Nas palavras do Ministro Ayres Britto (2011, p.36): “nossa Magna Carta não emprestou ao substantivo “família” nenhum significado ortodoxo ou da própria técnica jurídica”
Diante de todo o exposto, e levando em conta uma interpretação sistemática do texto Constitucional, é inevitável a conclusão de que o vocábulo família deve, sob pena de infringir toda a complexidade do ordenamento Constitucional, bem como a Declaração Universal de Direitos do Homem, ser interpretado, como fez, acertadamente o STF na ocasião analisada nesse estudo, em um sentido amplo, para fins de se buscar o verdadeiro telos da instituição familiar.
Esse é o entendimento do Supremo Tribunal Federal, nas palavras do Ministro Ayres Britto (2011, p. 38):
Assim interpretando por forma não reducionista o conceito de família, penso que este STF fará o que lhe compete: manter a Constituição na posse do seu fundamental atributo da coerência, pois o conceito contrário implicaria forçar o nosso Magno Texto a incorrer, ele mesmo, em discurso indisfarçavelmente preconceituoso.
Sendo assim, o telos atual da família brasileira se coaduna com a própria evolução e estado em que se encontra seus indivíduos.