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Do “evento” de Junho de 2013 a março de 2016: o Brasil acordou e com ele

4. O AVANÇO DO NEOFASCIMO E A DESATUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA

4.1 Do “evento” de Junho de 2013 a março de 2016: o Brasil acordou e com ele

Ao estabelecer as quatro condições da filosofia, Alain Badiou (2002, p. 17) estava preocupado com as conversões, as perturbações, as experiências heterogêneas radicais de ruptura, que podem ser encontradas na política, na arte, na ciência e no amor. A sua inquietação como filósofo é ser um militante político, um amante da poesia, um cientista instruído e com um pensamento jamais distanciado das peripécias do amor (BADIOU, 2013, p. 9). Essas quatro experiências têm a potência de formar novas verdades, as quais são ligadas ao acaso pelo que denomina de evento (ou acontecimento). O evento é algo entregue ao imprevisível, incalculável, a partir do qual há um processo de subjetivação que torna o surgimento da nova verdade possível (BADIOU, 1996, p. 309).

Constitui um evento artístico a aparição de “Ésquilo”, sendo a peça teatral de Sófocles o sujeito da verdade artística que é a tragédia grega (BADIOU, 2002, p. 28; 46; 111). Por evidente, a Revolução Russa, de 1917, foi um evento político da maior envergadura. Quando desponta um evento, o processo de surgimento da nova verdade depende da fidelização do sujeito que nele se constitui, cujos efeitos são infinitos, ao passo que não se reduzem ao ato eventivo em si. A preocupação de Badiou não está na repetição das formas de vida cotidianas, senão na capacidade que os eventos têm de transformar as verdades até então consolidadas, em uma dessas quatro condições.

Para romper com a abstração, por que não trazer a ilustração com o evento amor? Imagine duas pessoas que nasceram em regiões completamente diversas do Brasil e se encontram pela ventura do destino em uma pós-graduação, apaixonando-se e iniciando uma

vida comum. Isso é algo puramente contingente, no entanto, configura um evento justamente por não ser previsível ou planejado “de acordo com as leis do mundo” (BADIOU, 2013, p. 25). Esse acaso, em um dado momento, tem que ser fixado, selando a declaração de amor, que pode ser “eu te amo”, ou nas variáveis como “ich liebe dich”, a passagem deste acaso ao destino. Temos, então, a fidelização ao evento amor que representa o encontro de dois capaz de alterar profundamente a vida de ambos.

Na formulação de Badiou, o evento representa a criação de possibilidades que estavam invisíveis ou até mesmo eram impensadas, sendo que inexiste constituição da subjetividade antes do engajamento fático à "Ideia" que dele surge57. A Ideia do evento político representa a possibilidade em nome da qual as pessoas agem, transformam-se e iluminam a criação de uma nova verdade (BADIOU, 2014, p. 9-14). A constituição do sujeito somente ocorre a partir do engajamento ao evento (fidelização), não havendo subjetividade antes da formação deste58, sendo que todo evento está situado no local em que se “concentra a historicidade da situação” (BADIOU, 1996, p. 143). Após esse levante teórico, parece prudente indagar: seria Junho de 2013 um autêntico evento político?

O Gigante Acordou! Assim foi bradado pelos manifestantes os levantes de Junho de 2013, ocorridos por todo o Brasil, inicialmente como uma pauta por mobilidade (o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus), impulsionada pelo Movimento Passe Livre (MPL). Antes dele, volta e meia a rotina de normalidade do cotidiano era quebrada com a ação dos movimentos sociais tradicionais (partidos políticos, sindicatos) ou novos movimentos sociais (vinculados à questão racial, de gênero etc.)59, no entanto, não possuíam a envergadura e aderência massiva da população.

É possível inserir Junho de 2013 dentro de um contexto global de manifestações, como o movimento “Occupy Wall Street”, nos Estados Unidos (em 2011), Indignados na Espanha (em 2011), Movimentos dos Cidadãos Indignados da Grécia (entre 2010-2012), a Primavera Árabe com ecos em diversos países da região (entre 2010-2012) (GOHN, 2014, p. 22). Há cerca similaridade principalmente em razão da utilização das redes sociais, como o

57 “Uma Ideia é a subjetivação de uma relação entre a singularidade de um processo de verdade e uma representação da História. [...] diremos que a Ideia é a possibilidade do indivíduo compreender que sua participação num processo político singular [...] é também uma decisão histórica” (BADIOU, 2012, p. 134). 58 Slavoj Žižek (2016, p. 160) precisamente aponta: “a primeira coisa que chama a atenção de qualquer um que seja versado na história do marxismo francês é que o conceito de Acontecimento-Verdade de Badiou [evento- verdade] é estranhamento próximo do conceito de interpelação ideológica de Althusser”.

59 Por questão de acordo semântico, adiro a proposição de Maria da Glória Gohn (2017, p. 19-22), segundo a qual se pode dividir os movimentos sociais em: a) clássicos: movimentos operários, de trabalhadores rurais, sindicatos, partidos políticos; b) novos: vinculados a questões identitárias (gênero, raça, etnia, culturais) e ambientais; c) novíssimos sujeitos: heterogeneidade de sujeitos e “ideologias” motivadoras, com pautas difusas.

“Facebook”, para a organização e divulgação dos protestos. Até então, como aponta Harvey (2012, p. 118) os movimentos de protesto experenciavam a rapidez e volatilidade no tocante ao seu crescimento e declínio, sendo facilmente controlados e absorvidos pelas práticas dominantes do capitalismo.

Junho de 2013 representou uma ressignificação política nas lutas sociais, ao passo que novas formas de organização – por meio das mídias virtuais – romperam com a organicidade dos movimentos sociais que até então ocupavam os espaços públicos (GOHN, 2014, p. 133). Nesse ponto residia a dificuldade inicial, principalmente por parte da grande mídia, em fazer a leitura, no calor do momento, do que representavam tais atos de inconformismo, visto que havia a prática reiterada de “criminalização” dos movimentos sociais, ou ao menos de os taxarem de baderneiros, a fim de atrair sobre eles a pecha negativa.

A ocupação das ruas à realização de protestos atraía, reiteradamente, uma chamada negativa, como se a demanda veiculada não fosse suficiente para que a rotina de ida e vinda da população, normalmente ao trabalho, não pudesse ser quebrada por instantes. O Entrevistado Político A assim se manifestou quando indagado acerca dos protestos que trancam as ruas da cidade: “Eu acho um absurdo porque a ordem pública é um bem comum e material da sociedade”. Na mesma linha, o Entrevistado Militante A expôs que achava “Um absurdo. Eu acho que dá para fazer manifestação. Pode se manifestar. Tem áreas, né? Mas tu impedir o direito das pessoas de ir e vir não é isso que vai te dar, que vai te fazer ganhar ou conquistar alguma coisa”.

Os levantes de Junho de 2013, inicialmente, sofreram da mesma tentativa de descrédito por parte da grande mídia. Duas situações são pitorescas para ilustrar uma prática que é lugar-comum, i.e., formar diante da opinião pública uma imagem negativa dos manifestantes que postulam mudanças específicas. Em 13 de junho de 2013, o apresentador José Luiz Datena (2013) escancara a sua posição de repúdio em relação aos protestos que estavam ocorrendo: “baderna eu sou contra, baderna me inclua fora dessa”, emendando que “protesto tem que ser pacífico, não pode impedir via pública”. Na sequência, o programa apresentou uma enquete com o questionamento: “você é a favor deste tipo de protesto?”.

Ao ler a pergunta ao vivo, Datena acentuou “que inclui depredação pública, o pessoal andando nas vias públicas, não estou perguntando sobre o aumento da passagem, que eu também sou contra, mas o tipo de protesto que tem acontecido com quebra-pau”. Ocorre que, mesmo tendenciando os telespectadores para reprovarem os atos, as parciais indicavam que as pessoas concordavam com o ato. O apresentador se viu atônito, zerando a pesquisa ao vivo, para reformar a pergunta, presumindo que a audiência não tinha compreendido-a: “será que

nós formulamos mal a pergunta? Você é a favor de protesto com baderna? Acho que essa seria a pergunta”. Mesmo com a reformulação do questionamento, os votantes chancelaram os protestos que estavam ocorrendo, fazendo o apresentador uma mea-culpa com o tradicional “a voz do povo é a voz de Deus” (DATENA, 2013).

Arnaldo Jabor (2013b) padeceu do mesmo desdouro, um dia antes, na Rede Globo, quando iniciou o seu repúdio aos atos nestes termos: “A grande maioria dos manifestantes são filhos de classe média. Ali não havia pobres que precisassem dos R$ 0,20. Os mais pobres ali, eram os policiais apedrejados que ganham muito mal". Terminou o seu comentário apontando a desatualização histórica dos manifestantes que viveriam no passado de uma ilusão, sendo eles “a caricatura violenta, da caricatura de um socialismo dos anos 50, que a velha esquerda ainda defende aqui. Realmente, esses revoltosos de classe média não valem nem 20 centavos”.

Em 17 de março de 2013, quando já se tinha consolidado uma opinião pública favorável aos protestos, Jabor (2013a) desdisse: “Amigos ouvintes, outro dia eu errei”, referindo para a legítima indignação que tardara no país, cuja envergadura não se via desde 1992, com os “caras pintadas”, que marcaram os levantes pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Jabor (2013a) supunha que o protesto tinha cara de anarquismo inútil, temendo que a energia fosse despendida em bobagens, todavia, observou que o MPL era importante diante da crise da representatividade, para que pautas diversas emergissem no debate público, defendendo que a oportunidade de transformação dos grandes atos não fosse perdida.

Não à toa, Maria da Glória Gohn (2014, p. 22) denominou esse momento inicial do protesto como “desqualificação e descaso”, notadamente porque o MPL foi associado pela mídia tradicional ao vandalismo. Esses dois ocorridos demonstram que Junho de 2013 não foi uma sequência de protestos que pode ser compreendida sob a ótica regular de manifestações populares que cotidianamente tomam as ruas, como até então se dinamizavam, como a luta por moradia do MTST, ou pela reforma agrária do MST.

Até Junho de 2013, havia se firmado um senso comum na sociedade brasileira de como um protesto deveria ser tratado. A dinâmica era um movimento social chamar um protesto para uma localidade determinada, regularmente com o trancamento de ruas, apresentando pautas objetivas, combatendo sujeitos específicos para os quais a demanda era veiculada. Esses manifestantes eram enxergados como “baderneiros”, “vagabundos”, não trazendo qualquer comoção social o fato de haver, por reiteradas vezes, a reprimenda com uso violento da força policial.

Essa mesma tática governamental, com chancela da mídia e, consequentemente, por grande parte da população, foi aplicada no começo das manifestações de Junho de 2013. Quando o MPL fez o segundo grande ato em São Paulo, em 7 de junho, a repercussão jornalística reforçava a tese do vandalismo, como fartamente documentado (JUDENSNAIDES; LIMA; POMAR; ORTELAADO, 2013, p. 39). Nesta ocasião, chamou a atenção uma postagem no “facebook” do promotor do Ministério Público de São Paulo, Rogério Zagallo, que clamou pela morte dos manifestantes.

Figura 10 – Postagem no “facebook” do promotor Rogério Zagallo

Fonte: Huffpostbrasil (2014)

O que era totalmente imprevisível àquela altura, é que a brutal violência policial, perpetrada pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, à época governada por Geraldo Alckmin, iria despertar a indignação da população ao ponto de transformar a dimensão dos atos. Da habitual repulsa, paulatinamente se alterou a tônica do tratamento dos manifestantes, reconhecendo que as suas pautas eram legítimas, não obstante difusas. Após tamanha digressão, volto à pergunta inicial: Junho de 2013 pode ser considerado um legítimo evento político? No semblante parece que todo o caminho eventivo foi percorrido, ao passo que a violência policial despertou uma explosão social, fazendo com que as pessoas se fidelizassem ao ocorrido, em um processo de subjetivação. O levante de Junho de 2013 levou para as ruas um segmento social que não participava da vida política ativamente, inclusive nutrindo ojeriza em relação aos protestos contumazes, no entanto, que se sentiu instigada a interagir com aquele momento político.

A fase inicial de Junho de 2013 pode ser lida dentro de uma euforia por parte da “esquerda”, tendo em vista que o MPL teve a capacidade de gerar uma ebulição social que há

tempos não era vista. Resultou, inclusive, no cancelamento do aumento da passagem em diversos municípios brasileiros. Por outro lado, não tardou para que se observasse que os manifestantes carregaram às ruas a própria imprecisão ou confusão de crenças. Era nítido um desejo ingênuo de transformação social, mobilizando-se as pessoas por mais saúde, segurança, educação, além da pauta inicial da mobilidade, aparecendo também a corrupção, todavia, sem a centralidade que veio assumir nos anos seguintes.

A crise da representatividade política foi marcante à medida que os manifestantes tinham ojeriza às bandeiras de partidos políticos, havendo embates para que não houvesse partidarização da manifestação. Estava-se diante de um fato que gerava ingente perplexidade: milhões de pessoas nas ruas em todo o Brasil demandando mudança, sem saber ao certo o que ou contra quem. Portanto, Junho de 2013 não foi um evento político porque faltou a “Ideia”, ou o procedimento de verdade, capaz de romper com o estabelecido. Como diria Žižek (2014a, p. 180), restou ausente o engajamento de uma subjetividade coletiva a um novo projeto emancipatório, sendo que as pautas veiculadas foram dirigidas de forma imprecisa aos governantes.

A existência de um evento somente pode ser aferida em retrospectiva, de acordo com a capacidade que teve de alterar radicalmente a situação pretérita a partir do processo de verdade que despontava. Slavoj Žižek (2011, p. 128) refere que o sucesso de “uma revolução não pode ser medido pelo terror sublime dos seus momentos de êxtase, mas sim pelas mudanças que o grande Evento deixa no nível do cotidiano, do dia seguinte à insurreição”. Ou, como questionou em outro momento: “o que acontece no dia seguinte? Como é que essa explosão emancipatória será traduzida numa nova ordem social?” (ŽIŽEK, 2015, p. 120).

Junho de 2013 poderia ter se convertido em um evento político, entretanto, o Estado tomou as medidas necessárias para mitigar os seus efeitos imediatos, em um processo de absorção de demandas, visto que a repressão não surtiu o efeito desejado. É preciso lembrar que é característica das singularidades, como o levante de Junho de 2013, que elas possam ser normalizadas, inclusive pela ação do Estado (BADIOU, 1996, p. 145), como a concessão feita a demanda inicial pelo não reajuste da passagem60.

Não são procedentes as críticas aventas à época de que Junho de 2013 se dissipou rapidamente, porque uma ebulição social daquela envergadura não pode ter seus efeitos medidos em curto prazo. O impacto imediato foi a repercussão na queda da popularidade da

60 Acompanho parcialmente os apontamentos de Norman Madarasz (2011, p. 112-113), quando aponta que no Brasil não houve um autêntico evento político, divergindo do autor quando refere que o MST seria um acontecimento de ordem universal.

então presidenta Dilma Rousseff, decorrente da ampliação da pauta, que começou pela mobilidade (transporte público) e se espraiou pela mais variada gama de direitos. A partir do alargamento das demandas, boa parte delas seriam papéis a serem cumpridos pelo executivo federal, resultando no desgaste da ex-presidenta, diante da incapacidade de oferecer respostas imediatas.

Figura 11 – Queda da popularidade de Dilma após protestos em Junho de 2013

Fonte: Folha de São Paulo (2013)

Junho de 2013 precisa ser compreendido em duas fases conexas, porém, com elevado grau de distinção. A primeira delas é fruto do movimento orquestrado pelo MPL, que tinha um corpo diretivo horizontal, pauta definida e programática, sabendo contra quem postulava. Aqui, tem-se um denominado “novo movimento social” atuando dentro dos moldes habituais. Ocorre que, no seio dessa organização, brotou uma forma espontânea de manifestação, gerando uma segunda fase, cuja fidelização das pessoas, a partir da violência polícia, cambiou radicalmente os rumos do levante.

Não suponho que o MPL, como defende Gohn (2017, p. 31-35), possa ser entendido como um “novíssimo sujeito coletivo”, cujas características observáveis a partir de 2013 são o fato de serem heterogêneos, com diferentes correntes, sem bases populacionais organizadas, em que a formação da “subjetividade” é pontual e com adesão de acordo com a pauta. A não cisão de Junho de 2013 em dois estágios fez com que Gohn entendesse que o MPL se trata de um novíssimo sujeito coletivo, quando na verdade se assemelha mais a um “novo movimento

social”61. Esse novíssimo sujeito despontou no curso das ações do MPL, mas com ele não

pode se confundir, porque não eram militantes da questão da mobilidade urbana.

Junho de 2013 contém em si a contradição de ter surgido como protesto de um novo movimento social com a aglutinação de novíssimos sujeitos. As fases distintas podem ser percebidas pelo tratamento diverso conferido pela mídia quando da adesão popular, em que ao invés da habitual reprimenda houve a chancela, sendo os baderneiros (tática “black bloc”) vistos como a minoria. Afora a queda da popularidade de Dilma, os efeitos políticos maiores das manifestações não foram sentidos de imediato, entretanto, é possível traçar uma segura linha de continuidade entre Junho de 2013 e o Golpe de 2016.

Jessé Souza (2016, p. 95) anuncia: “Já temos aqui, em junho de 2013, o delineamento geral de todas as forças que se articulariam mais tarde no golpe de abril de 2016”. Em termos paralelos, Eugênio Bacci (2016, p. 79) defende que “Em 2015, 2016, de modo menos esfumaçado, as manifestações de 2013 iriam se desmembrar do veio principal”, buscando compreender a alavanca de decomposição do governo Dilma nos protestos de Junho de 2013. A indignação social gerada em Junho de 2013 não teve a potência de alterar o panorama político-eleitoral de 2014, resultante na reeleição de Dilma. Ocorre que as lacunas deixadas em 2013 foram colmatadas pelos grupos que impulsionaram a deposição de Dilma em 2016, como o MBL e VPR.

Na contramão dos fatos, Ruy Braga (2017, p. 243) atribui a “analistas alinhados ao lulismo” a hipótese de que Junho de 2013 constituiu a pavimentação para o Golpe de 2016. Segundo o autor, o argumento não se sustentaria à medida que em 2013 ocorreram campanhas sindicais com protagonismo dos trabalhadores precários do Brasil. O argumento é falho, tendo em vista que, nutrido do senso “essencialista” já criticado nesta tese, Braga ofusca, ao menos parcialmente, a demanda veiculada pelos manifestantes ao associá-la diretamente à condição da pessoa na relação econômica “infraestrutural”. Junho de 2013 teria como protagonismo “o jovem precariado urbano”, não obstante a demanda inicial e final (amplamente difusa) não tenha tocado as condições de trabalho62.

61 O MPL “surgiu como organização em 2005, tem militantes de diversos partidos de esquerda e fez parte de um grupo de movimentos sociais que se afastou do governo, mas se manteve no campo da esquerda. [...] Assim, quando o Movimento Passe Livre começou a se organizar em 2013 contra o aumento das tarifas do transporte público, tinha um histórico de mobilização” (AVRITZER, 2016, p. 66).

62 A própria noção de “precariado” nada mais é do que uma imputação objetiva de vontade, quando é definida somente pela posição econômica, ou seja, formada pela “fração mais mal paga e explorada do proletariado urbano e dos trabalhadores agrícolas, excluídos a população pauperizada e o lumpemproletariado, por considerá- la própria à reprodução do capitalismo periférico” (BRAGA, 2012, p. 19). Isso sem contar o resquício de otimismo histórico, ao apontar que “não seria nenhuma surpresa encontrar, em um futuro próximo, esses trabalhadores alinhados aos batalhões vanguardistas da luta de classes” (BRAGA, 2012, p. 230).

Ruy Braga (2017, p. 231; 235) chega a reconhecer o momento denominado de “tudo junto e misturado”, em que houve a difusão de demandas, bem como ingresso de setores conservadores nos protestos, mas minora a sua participação. Inclusive, contrariando todas as pesquisas, aponta para uma suposta “pulsão plebeia”, em que se deve reconhecer a aderência de setores periféricos da sociedade. O problema é de caráter metodológico, ao instante que não consegue separar a demanda projetada e a posição efetiva do manifestante na escala econômica. O fato de ocupar determinada posição socioeconômica não relaciona diretamente o posicionamento político. Junho de 2013 não foi uma manifestação “classista”, de um segmento amargurado pelas condições de trabalho, por mais frustrante que isso possa ser para um marxista tradicional.

Em exame retrospectivo, a aderência massiva da população aos protestos de Junho de 2013 resultou no despertar de setores conservadores que se encontravam inertes durante a gestão petista, embora contumazes críticos, em pormenor na pauta da corrupção, como foi o caso do escândalo do “mensalão”. É curioso que o texto de Braga chega a trabalhar a hipótese, que compactuo e ora desenvolvo, no sentido de que assim como os Indignados espanhóis e os portugueses tinham preparado a vitória eleitoral da direta, “o MPL brasileiro teria criado a oportunidade para que visões de mundo direitistas pegassem carona na luta contra o aumento das tarifas do transporte público” (BRAGA, 2017, p. 231).

O senso de indignação do MPL é política e programaticamente orientado, ao contrário da aderência de setores desorganizados que passaram a dividir as ruas em Junho de 2013. Portanto, temos sob a mesma insígnia dois momentos diversos dos protestos que devem ser separados na sua leitura, sob pena de supor que o MPL teve o protagonismo até o fim, bem como que todos os manifestantes eram pessoas com aguçado senso de justiça social. Não