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“[...] os muros são a punição do crime” [...]. “Os muros são terríveis e o homem é bom” (HILL apud FOUCAULT, 2011, p. 225).

Os sistemas de muros defensivos se baseiam na ideia de que é mais fácil proteger bens e pessoas agrupadas num mesmo lugar do que espalhadas por um amplo território. Assim se concebe a centralização oposta às técnicas de guerrilha, que exploram a dispersão e a divisão.

Centralizar reenvia a circunscrever em limites bem definidos aquilo que se deve proteger e defender, lembrando o princípio da fortaleza e, mais ordinariamente, da delimitação da propriedade. Mas o muro que protege também encerra. Assim, os que se colocam em ambientes emparedados pagam o preço de sua segurança com certa privação de sua liberdade.

No espaço urbano circunscrito pelas muralhas, o urbanismo, os fluxos e os comportamentos se regulamentam. Os muros de encerramento são sempre, de certo modo, muros de prisão. Paradoxalmente, a prisão como confinamento de criminosos é concebida para tirar-lhes a liberdade, não para protegê-los. Seus muros, quase sempre coroados com arame farpado e torres de vigilância, monitoram o interior do recinto, não o exterior, de onde o perigo também pode surgir como as operações de resgate de prisioneiros.

As paredes da prisão seriam tão repulsivas por causa de sua altura, de sua falta de aberturas ou do medo de um dia aquele que está fora se achar do lado de dentro dessas paredes? Esse muro que separa e exclui suscitou, para Foucault (2011), uma questão mais intensa sobre a violência do poder nos espaços a serem construídos, definidos por modelos que permitem a vigilância dos indivíduos para controlá-los, e para discipliná-los. Daí, a ideia do Panóptico em que a relação de poder é de uma sujeição constante do indivíduo, para torná-lo tanto dócil e quanto útil.

O Panóptico de Bentham, “[...] que se tornou, por volta dos anos de 1830-1840, o programa arquitetural da maior parte dos projetos de prisão” (FOUCAULT, 2011, p. 235), constituiria o modelo arquitetônico que sintetizaria os novos dispositivos do poder disciplinar. Nele, a visibilidade seria o traço característico, que viabilizaria o exercício anônimo do poder, o qual se exerce de maneira automática.

Os indivíduos sujeitos a esse poder seriam treinados e modificados em seus comportamentos. Assim, o que generaliza “[...] o poder de punir não é a consciência universal da Lei em cada um dos sujeitos de direito, é a extensão regular, é a trama infinitamente cerrada dos processos panópticos” (FOUCAULT 2011, p. 211). Como tecnologias de poder, a vigilância e a punição incidiriam sobre os corpos dos indivíduos, controlando seus gestos, suas atividades, sua aprendizagem, sua vida cotidiana, a fim de que esses se adequassem às normas fundadas pelas instituições.

A disciplina distribuiu os indivíduos no espaço, utilizando-se de técnicas como o grande encarceramento dos ditos vagabundos e miseráveis, pois o corpo só se torna útil se for produtivo e submisso (SOARES, 2014). Essa sujeição era obtida por meio dum saber e dum controle que constituem o que Foucault (2011) chamou de tecnologia política do corpo, que consiste numa microfísica do poder, distribuída numa multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, circulando, às vezes, rapidamente no exército e nas escolas, e, às vezes lentamente nas grandes oficinas.

Diferente dessa experiência com os muros do panóptico, o arquiteto Daniel Libeskind65 projetou e construiu em Berlim um museu, abdicando das noções de representação. Esse projeto conceitual de extração desconstrutivista, intitulado Entrelinhas pelo próprio arquiteto, se propunha a expressar as dúvidas e o vazio: o importante não era o construído, em forma, mas o que acontecia nas entrelinhas, nos intervalos, na margem. A questão dos muros ali ultrapassa os limites de seu papel construtivo e funcional, tornando-se um suporte para uma reflexão filosófica.

As paredes que se cruzam em caminhos incertos e o espaço interior vazio instauram possibilidades de deambulações errantes, perigosas, que lembram os trajetos desordenados duma mosca que, prisioneira, bate contra as superfícies internas duma garrafa. Os visitantes se confrontam com absurdos e vertigens em face da impossibilidade de se predefinir uma imagem codificada, o que se conecta com o pensamento máquina de guerra que Deleuze e Guattari (1997, v. 5) descrevem como alternativa ao pensamento conforme o aparelho de Estado, já traz em si os muros. Assim, destituídos de chaves para a compreensão, todos são agenciados pelo autoquestionamento a assumir a responsabilidade pelo impensável (PÉRÉ-CHRISTIN, 2001).

Entre os muros de fechar também constam os que envolvem a vida monástica. Os muros dum mosteiro circunscrevem tanto o espaço reservado a monges e monjas quanto o limite religioso que não pode ser cruzado pelos visitantes. Como na prisão, a sala de visitas é o único lugar de comunicação entre esses dois mundos separados. No entanto, ao contrário da prisão, o confinamento dum convento geralmente é voluntário e consentido (PÉRÉ-CHRISTIN, 2001). Além disso, para os religiosos que vivem lá os muros não os privam de liberdade, antes são a própria condição da liberdade espiritual. Esses muros

65

Nascido na Polônia em 1946, filho de sobreviventes do Holocausto, o arquiteto Daniel Libeskind naturalizou-se americano em 1965, mas passou a viver desde 1989 em Berlim, com esposa e filhos. A sua arquitetura se utiliza duma linguagem geométrica de ângulos imponentes, que se fragmentam em planos vazios e linhas quebradas de uma forma exuberante. Celebrizou-se projetando diversos museus e várias galerias pelo mundo (DANIEL... Acesso em: 07 maio 2014).

protegem da turbulência do mundo, permitindo aos monges a interiorização e a elevação das formas de liberdade numa união com o divinal.

Diante da alusão à vida das sociedades monásticas e/ou rurais, onde a relação seria do tipo cara a cara, entrelaçadas numa mútua e impactante tessitura social, a reação inicial é a de se apreciar esse tipo de existência como mais humana, qualitativamente regida pela cordialidade e pelo sentimento, atribuindo-se aos muros meros papéis de abrigos e protetores de propriedades, o que já os põe em contradição com o pretenso bucolismo em que se inserem. Em face disso, num discurso de extração antiurbana, o ambiente citadino seria tomado como frígido, indiferente, regulado pela racionalidade tácita das afinidades utilitaristas, por isso, desumano. Nesses termos, o componente humano se veria aí como artifício graduador das condições de intercâmbio, com claro conteúdo axiológico, posto que o exorbitantemente humano se tornasse a súmula digna da virtude, enquanto o desumano expressasse o negativo em espessura. Em face disso, a cidade seria o não lugar do humano? A seguir, discorreremos sobre a questão do urbano pelo viés do mundo dos muros.

2 O MUNDO DOS MUROS

Há, portanto, [...], uma grande diferença de espaço: o espaço sedentário é estriado por muros, cercados e caminhos entre os cercados, enquanto o espaço nômade é liso, marcado apenas por "traços" que se apagam e se deslocam com o trajeto (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. 51-52, v. 5).

Aqui enfocaremos o urbano, espaço sedentário e estriado por definição, discorrendo sobre a questão da política e do poder que envolve os muros e relacionando assuntos religiosos com os seculares e vice-versa, num itinerário pelos mundos de referência dos textos bíblicos e outros textos.

Não se trata de tomar a bíblia como verdade histórica indiscutível, entendendo- a como um livro da “verdade” revelado pelo divinal. Propomos uma interpretação entre outras possíveis, visto que muitos dos livros bíblicos são poesias, alegorias e narrativas míticas de muitos povos amalgamadas. Por isso, concordamos com as palavras de Amaral (2014, Informação verbal66) que assim nos adverte:

[...] para este tipo de trabalho, tomar a bíblia como referencial escatológico e teleológico até nosso tempo e daí para o futuro carece de qualquer fundamento científico, não é verificável, é uma questão de crença e dogma. Mas quem quer conhecer, a primeira coisa a fazer é procurar se livrar do dogma.

Os argumentos e exemplos que extraímos de vários teólogos, mesmo que partam de suas crenças, não figuram como conclusivos a respeito do assunto tratado aqui, pois se inserem no contexto de confronto com outros textos teóricos citados no decorrer deste trabalho. Sabendo que nas mais diversas teorias as crenças se fazem presentes, trazemos uma versão teológica acerca dos muros para questionar e revisar nossos próprios fundamentos que norteiam este texto. Assim, não é nosso objetivo fazer deste texto um libelo

66

Citação de trecho dum comentário que Sérgio da Fonseca Amaral, nosso orientador, escreveu na margem direita deste trabalho, exortando-nos em relação à precaução com as questões da crença e do dogma que tendem a inscrever-se nos textos quando o assunto atravessa as narrativas bíblicas. Aqui nos referimos e esse texto do orientador como Informação verbal, conforme o legitima a Normalização de Referências da NBR 6023:2002, publicada pela Biblioteca Central da Ufes, em terceira edição, em 2006.

dentro da máxima E a bíblia tinha razão, embora admitamos que já lêramos o livro assim intitulado.

Além de serem abrigos, os muros também deveriam ser defesa do homem contra as investidas de seus semelhantes. A guerra como atributo de nosso antepassado vagante e selvagem teria sido produto exclusivo da incursão de nômades contra centros comerciais e industriais normalmente pacíficos? Para Deleuze e Guattari, (1997, p. 102, 103, v. 5), que cita Moisés como formador duma máquina de guerra nômade hebreia, o tema da guerra é relegado e submisso às relações entre a máquina de guerra e o aparelho de Estado.

Não são os Estados que primeiro fazem a guerra: certamente, esta não é um fenômeno que se encontraria na Natureza de forma universal, enquanto violência qualquer. Mas a guerra não é o objeto dos Estados, seria antes o contrário. Os Estados mais arcaicos sequer parecem ter alguma máquina de guerra, e veremos que sua dominação repousa sobre outras instâncias (que comportam, em contrapartida, polícia e carceragem). Pode-se supor que entre as razões misteriosas do brusco aniquilamento de Estados arcaicos, porém poderosos, está precisamente a intervenção de uma máquina de guerra extrínseca ou nômade, que lhes revida e os destrói.

Nesse contexto, o muro se inscreveu no cenário da guerra e circunscreveu a própria violência contra o outro num duplo cenário (interno e externo) de controle. Muitas vezes, a guerra externa e o domínio interno, mais que a paz e a cooperação, achavam-se arraigados na estrutura original da cidade antiga. Muralhas, baluartes e fossos exibiam-se com tanta agressividade e ameaça, “[...] que adquiriam concentrações letais de suspeita e ódio vingativo, assim como de não cooperação nas proclamações dos reis”. (MUMFORD 1998, p. 53-54). A seguir veremos como os muros por si sós não defenderam as cidades, mas tornavam-se fortes pelo significado divinal que se lhes atribuía.

No documento Muros de todos e de cada um : uma murologia (páginas 71-76)

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