EPÍLOGO DO DESFECHO INACABADO
ANTES DO FECHAR DA CORTINA
Se eu mesmo sou um ser acabado e se o acontecimento é algo acabado, não posso nem viver nem agir: para viver, devo estar inacabado, aberto para mim mesmo pelo menos no que constitui o essencial da minha vida , devo ser para mim mesmo um valor ainda por-vir, devo não coincidir com a minha própria atualidade.
Bakhtin
Alguns preferem chamar este ponto de conclusão ou mesmo de considerações finais, contudo, não o nomeio nem de um nem de outro, visto que assim com Bakhtin considero forte demais o sentido radical de conclusão como ação de chegar ou fazer chegar definitivamente ao fim, acabar, terminar, para o que realizei nestas páginas. Considerações finais também não me soa agradável, porque não creio que seja o fim, todavia, o começo de uma comprida caminhada. Chamo-o de desfecho, pois, me toa mais teatral este momento em que busco inferir algumas apreciações antes do fechar da cortina, antes do cair do pano e do apagar das luzes, quando o público vira as costas para os artistas, e aqui, antes que tu, meu leitor, vire a capa que protege estas folhas e termine tua leitura.
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Há quase oito anos venho acompanhando as criações estéticas assinadas por Luís Alberto de Abreu e encenadas pela Fraternal Cia. de Artes e Malas artes, o que me fez construir uma paixão e admiração por esses escritos, bem como pela linha dramática que eles se inserem: a comédia popular brasileira.
Essa mesma paixão me fazia sair de casa quase todos os domingos, na época do colegial, para ir ao teatro apreciar os espetáculos desta Cia. que estavam em cartaz no Teatro Paulo Eiró, como também outros espetáculos que se encontravam espalhados pela cidade de São Paulo. Essa paixão também me fez trazer, junto comigo, para a academia dois escritos deste dramaturgo: Narradores
de Javé e Borandá: auto do migrante, tornando-os livros de cabeceira, sob os quais me debrucei por um bom tempo para, por meio deles, tentar me inteirar melhor da espécie de obra que advém do processo criativo utilizado por Abreu, bem como me submergir neste processo, até então sob a luz das artes cênicas.
Em última instância, neste trabalho que busco dar um efeito de fim, como diria o professor Roberto Baronas, procurei trilhar por outra vereda, ou seja, compreender discursivamente como se constitui o processo de criação colaborativa que Abreu, dramaturgo que muito prezo, em conjunto com os integrantes da Fraternal, se valeram para a concepção de BorAndá: auto do migrante, que tomei como artefato da compreensão.
Ajudado por Bakhtin durante toda a caminhada, neste escrito voltei minhas atenções para o movimento que configura a passagem de uma atividade discursiva a outra, a mudança de um gênero popular para um gênero mais erudito, observando o que se mantém e o que muda. Nesta senda, coloquei as entrevistas dadas pelos migrantes de diversas localidades do país para a concepção da obra ao lado do texto dramático acabado, procurando esmiuçar página a página e também minhas memórias, a procura do que atribui sentido aos enunciados do orbe da ética ao migrarem para uma atividade estética.
Para acompanhar esse movimento fixei meu olhar para a tríade que se organiza para dar corpo a um gênero discursivo, qual seja: unidade temática, forma composicional e estilo e que em estado de transformação funcionou como os ponteiros de um relógio que me direcionava à mudança que geralmente recebia influência do corpo social e ideológico para consentir significado aos enunciados dentro de Borandá.
Foi o movimento ora rápido, ora lento, destas instâncias discursivas que me levaram a compreender que a disparada de um desses componentes é o que permitiu os enunciados e discursos que arquitetam uma obra com essas características se emprenharem de sentidos por meio de uma nova coloração, de um sobretom, de um discurso, de uma alternância de sujeitos falantes e daquilo que se encontra alhures dos enunciados verbais que constituem totalidades dialógicas que proporcionaram a passagem de um gênero a outro, dando forma ao todo acabado desta concepção estética.
A partir deste trabalho pude ver com mais claridade o que delineia o arranjo autoral de Abreu e o coloca, em minha perspectiva, no patamar de um dramaturgo de prestígio, ao conceber uma obra que mescla o riso e a dor, a narração e a encenação, o drama e a poesia, o ético e o estético e recupera a carnavalização como princípio que encarna as imagens do realismo grotesco
advindo de François Rabelais e da Commedia Dell’“rte, carregada de subversão política e ideológica para presentear a sociedade contemporânea, retratando-a criticamente, por meio de uma obra de arte.
Percebi que ao se valer de memórias alheias Abreu abriu caminho no seu discurso para a alteridade, consolidando um escrito em que ecoam vozes e discursos de outrem citados de uma forma menos arrochada, porém, sem perder totalmente seus relevos e sua força ao se diluírem no âmago de seu texto.
Ao se pautar na história oral como fundamento de organização da arquitetônica de seu texto, o dramaturgo instaurou por meio da criação colaborativa a possibilidade de recuperar as memórias de um grupo social bem delineado, constituído de sujeitos de horizontes sociais distintos e de atos responsáveis traçados nas interações da vida cotidiana, levando-as ao palco como narrativas derretidas na boca de heróis eqüipolentes, donos de idéias inacabadas, que não se apresentam como marionetes da consciência criadora, mas tomam posição na obra como sujeitos de si. O que o permitiu, talvez na mesma direção que fez Dostoievski, erigir um teatro polifônico, polivalente, que estabelece a quebra de um estigma social; uma mudança da imagem que tem sido construída dos migrantes que se põem em movimento para formar novas sociedades, bem como, a imagem que eles próprios tem de si. A imagem que eu mesmo tinha de mim enquanto migrante.
E neste momento creio poder comprovar que fiz uma boa aposta. Que o dialogismo instaurado por Bakhtin funcionou como o fio de Ariadne que me guiou até a saída do labirinto que antes me encontrava perdido, me permitindo reconhecer que das várias possibilidades que se apresentavam a mim, eu tomei a vereda mais adequada para chegar neste momento de minha caminhada e de cima do cume daquela montanha que outrora se impôs no meu caminho, com meus pertences a tiracolo, agora do centro do palco que encontrei e tornei meu, ao apagar das luzes e ao ouvir os possíveis aplausos perdidos no breu que ainda me cega, poder assinar este espetáculo com minha singularidade, com meus atos responsáveis.
CAI O PANO