4 A OMC E O SETOR AUDIOVISUAL
4.2 DO GATT DE 1947 À OMC
O GATT foi assinado em 1947 e começou a vigorar em janeiro de 1948, como um acordo geral provisório, com a participação de vinte e três países, entre eles o Brasil. Desde a sua criação, foram realizadas sete rodadas de negociações para ampliar e adequar suas regras às mudanças do comércio internacional.
As Rodadas de Genebra de 1947, Annecy de 1949, Torquay de 1950-1951, Genebra 1955- 1956 e Dillon de 1960-1961 foram de interesse basicamente de países desenvolvidos. Seus acordos estabeleceram diminuições nas tarifas dos produtos industrializados e nas barreiras geradas na década de trinta, devido à crise de 1929 (FERRACIOLI, 2007, p. 4).
A Rodada de Kennedy de 1964-1967, realizada em Genebra, teve a participação dos países europeus em bloco regional, representados pela Comunidade Européia, o que possibilitou um equilíbrio no poder de barganha dos principais negociadores. Esta rodada reduziu em 35% a tarifa média dos produtos industrializados e firmou o primeiro Acordo Antidumping, com o objetivo de reduzir as barreiras não tarifárias8 (FERRACIOLI, 2007, p. 4).
A novidade desta rodada foi a mudança na forma de negociação, que era feita produto a produto, e passou a ser realizada com o método de corte linear de tarifas incidentes sobre um determinado setor da atividade econômica. Este método é utilizado até hoje na OMC (SABA, 2002, p. 88-89).
No decorrer da Rodada Kennedy, os países em desenvolvimento, que não estavam satisfeitos de serem tratados da mesma forma que os países desenvolvidos pelas regras do GATT, negociaram utilizando os princípios da Organização das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD) e criaram a Parte IV do GATT.
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Os Acordos antidumping visam proibir o dumping no comércio internacional, que é a exportação de um produto com preço inferior ao custo no mercado nacional, com o objetivo de prejudicar a indústria do país importador, para lucrar mais quando a concorrência diminuir.
A Parte IV do GATT reconheceu a necessidade de assegurar o aumento das exportações dos produtos desses países e formalizou o vínculo entre comércio internacional e desenvolvimento econômico. Na prática, a Parte IV não alcançou resultado jurídico, pois servia apenas como uma simples declaração de princípios (SABA, 2002, p. 85-88).
Na década de 1970, o cenário econômico internacional sofreu mudanças decisivas para as negociações comerciais internacionais. Neste período houve uma proliferação do uso de barreiras não tarifárias no comércio internacional; o Japão e a Comunidade Européia ascenderam como reais competidores dos Estados Unidos; o sistema Bretton Woods chegou ao fim com a flexibilização do câmbio; houve choques no preço do petróleo; e os Estados Unidos passaram a pressionar seus parceiros para firmar acordos bilaterais de restrição voluntária nas exportações, devido a sua perda de competitividade mundial (MAGNOLI, 2004).
É neste contexto, que se realiza a Rodada de Tóquio de 1973-1979, com um enfoque diferente das rodadas anteriores. A preocupação maior não era mais a diminuição das barreiras tarifárias e sim das barreiras não tarifárias. Para regulamentar os novos problemas não tarifários, foram criados os seguintes Códigos: de Normas sobre Barreiras Técnicas, de Valoração Aduaneira, de Licenciamento das Importações, de Compras Governamentais, de Subsídios e Medidas Compensatórias; e um novo Código de Antidumping (FERRACIOLI, 2007, p. 5).
A falha destes regulamentos baseou-se na falta de obrigatoriedade dos Estados-membros em adotar todos os Códigos, visto que havia a possibilidade de escolha das regras que cada um tinha interesse em participar (GATT à la carte). Como também, os Estados podiam alegar conflitos jurídicos com as regras nacionais e só ratificar o que interesse (Grandfather Clause) (NARLIKAR, 2005, p. 30-31).
Na Rodada de Tóquio, os países em desenvolvimento, que desde a Rodada de Kennedy, sem êxito prático, tentavam aliar o conceito de desenvolvimento econômico com comércio internacional, através da Parte IV no Acordo Geral de 1964, alcançaram vitória com inclusão da Cláusula de Habilitação (Enabling Clause). Esta cláusula é uma exceção ao princípio da Nação Mais Favorecida9, permitindo aos países em desenvolvimento modos de tratamento
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diferenciado e mais favorável, com objetivo de facilitar e promover as suas exportações (SABA, 2002, p. 164-166).
Somente a partir da Rodada do Uruguai de 1986-1994 foi que o comércio internacional passou a ser discutido e regulamentado para atingir o perfil atual. Esta mudança é atribuída às exigências do cenário internacional da década de 1980, quando os produtos norte-americanos perderam competitividade, os EUA aumentaram suas barreiras protecionistas e os seus parceiros começaram a questionar a ineficácia das regras existentes (FERRACIOLI, 2007, p. 5).
Neste período, as empresas estavam cada vez mais internacionalizadas. Elas utilizavam o método de internacionalização da produção, através da distribuição dos diferentes elos da cadeia produtiva, em localizações geográficas distintas, com o objetivo de baratear o preço final do produto. Com isto, era necessária a criação de normas que uniformizassem as regras e padrões em escala mundial para facilitar o seu desenvolvimento (SABA, 2002, p. 92).
Os países desenvolvidos buscavam ampliar o comércio nas áreas de serviço, propriedade intelectual e investimento; além de estarem insatisfeitos com o excesso de concessões aos países em desenvolvimento. E no contexto dos países em desenvolvimento, o interesse era a expansão das exportações através da regulamentação dos produtos agropecuários, que sofriam com as políticas protecionistas dos EUA e da Europa, e do comércio de têxteis, fora do Acordo Multifibras 10 (NARLIKAR, 2005, p. 23).
Com tudo isto acontecendo, o GATT mostrava-se ultrapassado para regular os conflitos eminentes e ampliar a liberalização comercial. Os Códigos criados na Rodada Tóquio não possuíam coerência e integração suficiente para atingir os objetivos pelos quais foram criados e davam vazão às políticas protecionistas (NARLIKAR, 2005, p. 24-25).
Ademais, era necessária a criação de um organismo que conseguisse dirimir as discussões jurídicas entre os parceiros comerciais que estavam com problemas, pudesse firmar relações com outras organizações internacionais e tivesse capacidade jurídica para alinhar as regras do GATT com as políticas do FMI e do Banco Mundial (NARLIKAR, 2005, p. 24).
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O Acordo de Multifibras previa a utilização de quotas de importação dos produtos têxteis e de vestuário, através de tratados bilaterais ou medidas unilaterais, desmerecendo a cláusula da nação mais favorecida (WTO, 2007, p. 31).
A Rodada do Uruguai iniciada formalmente em Ponta de Leste em 1986 e concluída em Marrocos em 1994, através do Tratado de Marraqueche de 1994, com a participação de 117 países, criou a Organização Mundial do Comércio. A OMC, que passou a operar em 1º de janeiro de 1995, é sujeito de direito internacional público e possui privilégios e imunidades diplomáticas (SABA, 2002, p. 99-98).
Além da criação da OMC, esta rodada ampliou e firmou os seguintes tratados de comércio para regulamentar os bens: o GATT de 1994, Acordo sobre Agricultura, Acordo sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias, Acordo sobre Barreiras Técnicas, Acordo sobre Medidas Antidumping, Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias, Acordo sobre Salvaguardas, Acordo sobre Valoração Aduaneira, Acordo sobre Inspeção Pré-embarque, Acordo sobre Regras de Origem, Acordo sobre Licenças de Importação, Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias e Acordo sobre Têxteis e Confecções (FERRACIOLI, p. 7-8).
Ademais, para regulamentar os investimentos, os serviços e a propriedade intelectual foram ratificados respectivamente: o Acordo sobre Medidas de Investimento Relacionadas ao Comércio (TRIMS), o Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) e o Acordo sobre Aspectos dos Direitos da Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS) (FERRACIOLI, p. 8).
A Rodada do Uruguai estabeleceu ainda o Mecanismo de Solução de Controvérsias com o objetivo de eliminar a possibilidade de ações unilaterais por parte dos Estados-membros. Este mecanismo funciona através de pedidos de consulta e de estabelecimento de “painéis” no Órgão de Solução e Controvérsias (OSC) pelas partes conflitantes. O OSC, após analisar cada caso, pode autorizar retaliações comerciais para a parte vencedora aplicar perante a parte vencida. Da decisão do painel, é possível requerer apelação no Órgão de Apelação da OMC (FERRACIOLI, p. 11-12).
São as regras da Rodada do Uruguai que regulamentam o comércio internacional multilateral atual. Apesar disto, os Estados-membros da OMC continuam estabelecendo agendas de discussões para revisão e ampliação destas regras. E com o objetivo de discutir novas normas comerciais internacionais, iniciou-se em novembro de 2001, no Catar, a Rodada de Doha, que estabeleceu a Agenda de Desenvolvimento de Doha. Embora, nenhum um novo tratado tenha sido firmado ainda (WTO, 2007, p. 77).