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2.2 OS SÍTIOS SIMBÓLICOS DE PERTENCIMENTO E AS RACIONALIDADES

2.2.1 Do global ao Local: Entre o formal e o informal

As ciências modernas, como a economia, para o economista marroquino Hassan Zaoual (2006), não permitem o entendimento da complexidade do

funcionamento da sociedade. Estas ciências tendem a buscar a uniformidade da realidade, que são múltiplas pela natureza social ou biológica.

Zaoual (2003) critica a imposição global do modelo de desenvolvimento dos países do Norte, capitalista, sobre os países do Sul e assinala que, a ocidentalização do mundo, decorrente da globalização, desrespeita a diversidade cultural, estimulando resultados desastrosos social e ambientalmente ao planeta. O autor (2002, p. 2, tradução livre) argumenta que “a mundialização, como é conduzida, destrói as raízes da existência autônoma dos humanos.”

Nesse sentido, Zaoual (2002, p. 1) advoga que

[...] estamos aqui diante do único! Cada sociedade ou cada indivíduo também é único. Essa diversidade é negada pelo pensamento global. Para este aquela é, na verdade, monodisciplinar. É reduzida a conceitos e indicadores puramente econômicos. (tradução livre).

Para o autor (2003), não se pode conceber os processos de desenvolvimento simplesmente exportando de um lugar a outro. Zaoual (2003) observa que nos países do Sul, os projetos concebidos e implantados de fora para dentro, na maioria das vezes, não funcionaram.

No extremo Sul do planeta, com base em Zaoual (2002, p. 3), as dinâmicas informais corrigiram erros de projetos globais por disporem de raízes que as economias formais não possuíam. As economias formais dos povos do Sul empreenderam experiências próprias a partir das características dos locais. Para o autor (2002, p. 3, tradução livre) “os lugares tem uma alma que a economia racional ignora”.

Zaoual (2003) argumenta que as organizações instintivas de economia informal funcionaram de acordo com as necessidades dos meios sociais envolvidos.

Nas economias informais, segundo o autor, os atores, ditos “de baixo”, demonstram mais engenhosidade que os peritos “da economia oficial, formal”, por conhecerem as realidades humanas de suas sociedades.

Ao tratar sobre alguns aspectos da economia informal, Zaoual (2010) argumenta que:

No plano empírico, os estudos que exploram o paradoxo formal/informal nas economias ditas em via de desenvolvimento, ilustram largamente o fato incontestável que as organizações com melhor desempenho são aquelas que não desligadas das realidades sociais e locais. Consideradas como

“informais”, elas encontram seus fundamentos em Sítios geradores de culturas compostas, de redes sociais e de pertencimento a grupos sociais.

Contrariamente à visão errônea dos economistas que os consideram como

“realidades econômicas não estruturadas”, as dinâmicas informais têm suas próprias estruturas endógenas. Estas são frequentemente implícitas e remetem a universos complexos que o reducionismo dos especialistas é incapaz de decifrar baseando-se em conceitos não ajustados. (ZAOUAL, 2010, p. 31).

Assim, para Zaoual (2003, 2006), devem-se considerar as práticas locais, visto que os dinamismos da economia dita informal funcionam de maneira enraizada nos meios locais. Ao mesmo tempo, o autor sugere repensar as especificidades dos lugares, considerando a representação dos atores situados.

O termo informal, de acordo com Cacciamali (1983) passou a ser utilizado em 1972, a partir do estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizado no Quênia, sobre atividades não regulamentadas comuns em países subdesenvolvidos.

A partir do final da década de 1980, de acordo com Lima (2009), os estudos sobre o trabalho informal passaram a ter a flexibilidade como palavra de ordem, devido às mudanças para o modelo de produção e organização do trabalho taylorista-fordista.

Para Lima (2009) e Barbosa (2011) a informalidade se constituí em elemento definitivo, não representando algo transitório. Assim, para Tokman (2004, p. 177) “se o setor informal não existisse, teríamos que inventá-lo”.

O autor espanhol Pérez-Sainz (1995; 1998), pioneiro na discussão sobre o que ele denomina nova informalidade, identificou que um dos cenários para a nova informalidade corresponde às micro e pequenas empresas que se beneficiam de um contexto sociocultural e do capital social da comunidade na qual estão inseridos.

Geralmente estão situadas em municípios pequenos, em geral rurais e, distantes de grandes centros urbano-industriais. Os outros dois cenários referem-se à exclusão populacional decorrente da dinâmica da globalização e aos movimentos de deslocalização de empresas que buscam redução de custos e flexibilidade objetivando melhores chances de competição no mercado global.

Cacciamali (1983) considera os setores informal e formal como interdependentes. Para a autora tais setores correspondem a expressões de

relações não isoladas da realidade e, por isso não devem ser encarados como uma visão dual da realidade.

A economia formal, com base em Panhuys (2006, p. 60), apresenta como contrapartida “o crescimento irreprimível das economias populares e vernaculares informais onde se inventam a cada dia, de modo espontâneo, outra sociedade, outra economia, outra cultura”.

O autor Broad5 (2000) citado por Lima (2009) supõe que o trabalho assalariado, formal, se constituiu em uma exceção nas formas de utilização da força de trabalho, questionando se a anomalia do capitalismo não seria a formalização e não a informalidade.

Para Zaoual (2003, 2006), as alternativas ao capitalismo e à globalização, tanto nos países do Norte como nos do Sul, devem redefinir o homem em sua universalidade e diversidade. Essa proposta supõe o fim da separação entre as ciências sociais do capitalismo e um diálogo entre culturas.

Zaoual (2006) propõe em decorrência da disciplinaridade do conhecimento científico e mundialização de um modelo de desenvolvimento, assim como pela observação da existência de outras economias, a ideia de uma economia não violenta baseada em conceitos transdisciplinares por meio da abordagem dos Sítios Simbólicos de Pertencimento e de uma economia baseada numa Racionalidade Situada, decorrente da existência do homo situs.

Para sua construção teórica, o autor (2006, p. 24) buscou responder: “como abrir a teoria econômica às entidades do social para melhorar seu poder explicativo”.

De acordo com Zaoual (2006), as pesquisas interdisciplinares e interculturais sobre desenvolvimento e globalização foram estimuladas pelo fato das economias oficiais, financiadas e conhecidas de fora terem fracassado, ao passo que as economias ditas informais de dentro, ativada pelos excluídos das economias oficiais, apresentam dinamismo espetacular. Essas pesquisas, de acordo com o referido autor, originaram a Teoria dos Sítios Simbólicos de Pertencimento. Segundo o autor (2006, p. 60) “os microdinamismos da economia dita informal funcionam de maneira enraizada nos meios locais”.

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5 BROAD, D. The periodic casualization of work: the informal economy, casual labor, and the Longue Derée. In: TABAK, F.; CRICHLOW, M. A. Informalization. Process and structure. Baltimore: The John Hopkins University Press, 2000.

Na Teoria dos Sítios Simbólicos de Pertencimento, segundo Zaoual (2003, 2006), as leis econômicas não são separadas do contexto moral e social donde acontecem, ou seja, aparecem como construções sociais.

Na abordagem dos Sítios, Zaoual (2006) defende a reaproximação das disciplinas, pois segundo ele, o que se separa no plano abstrato, encontra-se misturado no plano concreto através dos comportamentos individuais e coletivos.

Neste sentido, o referido autor (2006) defende que a elaboração de projetos de desenvolvimento seja realizada com o envolvimento dos indivíduos e organizações locais.