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Do Manuscrito às Primeiras Formas Impressas

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CAPÍTULO II: LINHAGEM EDITORIAL E A INTERFERÊNCIA DOS

2.1 Do Manuscrito às Primeiras Formas Impressas

O texto atribuído a Francisco de Quevedo, Cómo ha de ser el privado, circulou no século XVII como manuscrito. Um dos manuscritos, de copista provavelmente andaluz, está no manuscrito 108, fólios 1-70, da Biblioteca Menéndez Pelayo de Santander58, como Fragmentos no impresos hasta hoy de Don Francisco de Quevedo Villegas. Aureliano Fernández Guerra, em sua epístola no Catálogo bibliográfico y biográfico del teatro antiguo español59 de Barrera y Leirado (1860), dava notícia de um manuscrito do segundo terço do século XVII que se incluiu na coleção de Ambrosio de la Cuesta y Saavedra e que, mais tarde, foi incorporado à biblioteca de Bartolomé José Gallardo. Este o anotou e o emprestou a um sobrinho. Quase sete décadas depois, o códice foi localizado na Biblioteca Menéndez Pelayo de Santander. No Catálogo, o repertório do teatro atribuído a Quevedo, incluindo Cómo ha de

ser el privado, foi revisado por Aureliano Fernández Guerra e se tornou referência para as

posteriores edições do chamado teatro completo de Quevedo, terreno em que há divergências quanto à atribuição de algumas peças ao autor e à classificação de textos como obras de teatro.

O manuscrito 108 foi impresso primeiramente por Miguel Artigas, em 1927, na “Biblioteca Seleta de Clássicos Espanhóis” da ERA60

. Posteriormente, foram feitas outras edições impressas. A edição de Luis Astrana Marín61, de 1932, parte fundamentalmente da edição de Artigas e foi depois retomada por Felicidad Buendía (1960) na reimpressão das

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Blecua sublinha que o copista foi um andaluz pela frequência do seseo e ceceo. 59

BARRERA Y LEIRADO, Cayetano Alberto de la. Catálogo bibliográfico y biográfico del teatro antiguo

español desde sus orígenes hasta mediados del siglo XVIII. Madrid: Rivadeneyra, 1860.

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QUEVEDO Y VILLEGAS, Don Francisco de. Teatro inédito de Don Francisco de Quevedo y Villegas. Edição e estudo introdutório de Miguel Artigas. Madrid: ERA, 1927.

61

QUEVEDO Y VILLEGAS, Don Francisco de. Obras en verso, Obras Completas. Edição de Astrana Marín. Madrid: Aguilar, 1932.

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obras completas de Aguilar. Há também a edição de José Manuel Blecua62, de 1981, em que corrige erros de pontuação e transcrição supostamente cometidos por Artigas, enquanto os seus aparatos de notas carecem de comentários lexicográficos e contextuais. A edição de Luciana Gentilli63, de 2004, reproduz o manuscrito 108 da Biblioteca Menéndez Pelayo. Por sua vez, a edição de Ignacio Arellano e Celsa Valdés64, de 2011, revisita algumas notas e corrige outros autores, sobretudo Artigas e Astrana, e é a edição utilizada no presente trabalho.

Não se parte, portanto, do manuscrito 108, mas de uma de suas transposições impressas do século XXI (vide bibliografia). Por isso, não podem ser ignoradas as premissas formativas dessa edição na transposição do manuscrito para a forma de livro, particularmente no que envolve as compreensões críticas atuais sobre prosódia e pontuação do século XVII e os critérios de conversão textual para o sistema gramatical de pontuação contemporânea do espanhol. Também não se pode ignorar a tendência das edições dos séculos XX e XXI de dividir as peças em atos e/ou cenas segundo o padrão editorial classicista que emergiu no século XVIII, o que não necessariamente correspondia, a julgar por outros estudos65, aos acervos de manuscritos de peças do século XVII. Este tipo de formato editorial tende a esvaziar o texto de sua original dimensão circunstancial e oral, pois pressupõe um leitor isolado que faça leitura silenciosa, além de criar um efeito monumentalizante, segundo a expectativa romântica da relação “autor/obra”, e psicologizante dos personagens.

As edições contemporâneas da obra teatral atribuída a Quevedo se encontram no cerne da problematização da função-autor romântica. A edição usada no presente trabalho, de Arellano e Valdés, não é diferente. Junto à observação sobre os problemas da transmissão do corpus textual dos séculos XVI e XVII, os críticos se preocupam em estabelecer a paternidade das obras, pautando a discussão por meio de conceitos-chave, tais como: peças autênticas, originais, de autorias indiscutíveis ou questionáveis. Nesse contexto de premissas, algumas obras são deixadas de lado por pertencerem ao anonimato e não poderem ser relacionadas com a produção de um autor específico.

Devido à construção e consolidação de um cânone nacional de literatura espanhola nos séculos XIX e XX, que tinha Lope de Vega como parâmetro de mérito literário, a peça Cómo

ha de ser el privado, como foi visto no capítulo I, ficou durante muito tempo relegada ao

esquecimento nos projetos de transposição impressa de manuscritos de peças do “Século de Ouro”, sendo editada somente em 1927, mas com reticências: Artigas a considerava com escasso valor dramático devido à elogiosa representação do rei Felipe IV e seu valido Olivares, que são figurados na peça, respectivamente, pelo rei Fernando e pelo conde de Valisero. Assim, o caráter canonicamente encomiasta da peça Cómo ha de ser el privado recebeu juízos negativos da crítica, que a mantiveram editorialmente inerte nas gavetas da Biblioteca Menéndez Pelayo de Santander.

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QUEVEDO Y VILLEGAS, Don Francisco de. Obra poética. Teatro y traducciones poéticas (v. IV). Edição de José Manuel Blecua. Madrid: Castalia, 1981.

63

QUEVEDO Y VILLEGAS, Don Francisco de. Cómo ha de ser el privado. Edição crítica, introdução e notas de Luciana Gentilli. Viareggio-Lucca: Mauro Baroni, 2004.

64

QUEVEDO Y VILLEGAS, Don Francisco de. Teatro Completo. Introdução e notas de Ignacio Arellano e Celsa Carmen García Valdés. Madrid: Cátedra, 2011.

65

CHARTIER, Roger. Do Palco à Página: publicar teatro e ler romances na época moderna (séculos XVI-

XVIII). Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2002; VIANNA, Alexander Martins. ‘Shakespeare’: um nome para

textos. Topoi, v.9, n.16, p.191-232, 2008; VIANNA, Alexander Martins. Shakespeare, nosso estranho. Acta

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