CAPÍTULO II. O BANCO DE ALIMENTOS: UM PROGRAMA DE
2.1 Do Mesa Brasil ao Banco de Alimentos
O processo histórico da humanidade está marcado por inúmeras conquistas. Nas últimas décadas, significativos avanços foram sentidos na tecnologia, como o desenvolvimento das telecomunicações, microeletrônica, biotecnologia, entre outras. Contudo, esses avanços e conquistas não se deram em todas as áreas, sobretudo na social. Os efeitos da desigualdade não foram eliminados, mas transformaram-se nos mais variados tipos de problemas sociais. Como exemplo, destacamos o problema da fome que não foi eliminada, apesar de tantos avanços, atingindo não apenas os países considerados pobres, mas também os países ricos.
A fome no nosso país é de certa forma um paradoxo, pois o Brasil é considerado um dos maiores produtores de gêneros alimentícios do mundo, que tem recursos suficientes para alimentar normalmente toda a sua população formada por 190.732.694 pessoas. Porém, ainda existem pessoas que mesmo diante de tanta abundância, ainda padecem de fome. O cerne desse problema não está apenas na forma de produzir, e sim, na péssima distribuição de renda, no acesso à terra. A fome é a maior consequência dessa discrepância social, que tem como importante causa a centralização, por uma minoria, das riquezas produzidas. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2002 um terço dos brasileiros sofria de desnutrição em consequência da desigualdade social e não por escassez de alimentos.
Apesar de divulgar-se, atualmente, que a fome no Brasil foi erradicada, através de programas emergenciais, o problema não foi eliminado totalmente. Significativa parcela da população ainda sofre de desnutrição. Segundo dados de IBGE, em 2009, a falta de alimentos ainda causa uma aguda insegurança ao Brasil, principalmente na região Nordeste, onde atinge 46,1% dos domicílios.
A desigualdade social aprofundada pelo neoliberalismo contribui para a exclusão socioeconômica da maior parte das familiais brasileiras, no que tange ao acesso à proteção social básica, com destaque para a permanência da fome.
Diante disso, foram criados, por parte do Estado, vários projetos para minimizar os efeitos da fome, dentre eles o FOME ZERO1, que tem como objetivo promover a segurança alimentar e nutricional buscando a inclusão social da população mais vulnerável à fome.
Uma fatia do mundo empresarial também demonstrou sua parcela de preocupação diante dos problemas gerados pela desigualdade social, em especial pela questão da fome, o que motivou o surgimento de inúmeras iniciativas e projetos sociais de combate a esse problema.
Nesse contexto, o SESC instituiu, em 1990, o MESA BRASIL SESC, programa de responsabilidade social voltado para a redução da fome, da desnutrição e do desperdício de alimentos, embora seu público-alvo não sejam os famintos e sim, os comerciários e suas famílias.
O MESA BRASIL SESC é um programa de segurança alimentar e nutricional voltado para a inclusão social, constituindo-se numa rede nacional de solidariedade contra a fome e o desperdício. É um trabalho de compromisso social e tem na parceria, que envolve diversos segmentos da sociedade, a base de sustentação de todas suas ações. Demonstra, na prática, que a união de vários organismos sociais pode responder de maneira eficaz às dificuldades que afligem o país.
O programa atua de forma conjunta com empresas privadas e estatais, instituições sociais, voluntários e a sociedade como um todo, no esforço de amenizar as carências alimentares e o desperdício de alimentos. Baseia-se no cumprimento dos direitos sociais básicos garantidos pela Constituição Federal de 1988, na qual a alimentação é um direito fundamental de todo e qualquer cidadão brasileiro. Esse direito social básico não se estende a todas as
1 Fome Zero é uma estratégia impulsionada pelo governo federal para assegurar o direito
humano à alimentação adequada às pessoas com dificuldades de acesso aos alimentos. Tal estratégia se insere na promoção da segurança alimentar e nutricional buscando a inclusão social e a conquista da cidadania da população mais vulnerável à fome.
pessoas, o que exige ações capazes de enfrentar essa situação duplamente perversa: a fome e o desperdício de alimentos.
O programa MESA BRASIL SESC atua em boa parte dos estados brasileiros e, na sua maioria dos casos, utiliza a mesma denominação, porém, em alguns Estados, adota outra nomenclatura, como na Paraíba, onde é conhecido como Banco de Alimentos. Neste Estado, o programa surgiu no ano de 2002 e a primeira cidade contemplada foi João Pessoa. O Banco de Alimentos foi implantado e guiado por três objetivos:
Minimizar o desperdício de alimentos.
Colaborar com instituições assistenciais sem fins lucrativos. Cooperar para uma sociedade mais justa.
Em 2004, o Banco de Alimentos chegou a Campina Grande e, logo em seguida, passou a existir também nos municípios de Patos e Guarabira. Suas ações estão voltadas para:
Fornecer alimentos e combater o desperdício.
Expandir as ações para a comunidade em geral e as áreas circunvizinhas para atingir a sociedade como um todo.
Promover ações educativas e profiláticas voltadas para as instituições atendidas.
Operacionalmente, o Banco de Alimentos busca onde sobra e entrega onde falta. Seu papel é recolher os alimentos doados, selecioná-los, empacotá-los e redistribuí-los imediatamente às instituições cadastradas como receptoras. O trabalho de selecionar os alimentos doados tem como objetivo garantir seu melhor aproveitamento. No caso de haver uma doação de maior quantidade, o excedente é redistribuído com a comunidade carente, em geral. O programa também atende instituições beneficentes de áreas circunvizinhas ao município que possui o Banco de Alimentos.
Além de desenvolver o trabalho de distribuição de alimentos, o programa proporciona ações educativas nas áreas da nutrição e assistência social. Essas
ações diferenciam este de outros programas, melhorando a formação dos agentes multiplicadores das instituições e da comunidade. Desta forma, como foi mostrado, o Banco de Alimentos possibilita a complementação alimentar de todas as pessoas assistidas pelas instituições cadastradas.