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Do Morro do Cristo ao Museu Mariano Procópio

No documento eduardodecamposbastosneto (páginas 164-167)

4.3 Descrevendo o passeio

4.3.8 Do Morro do Cristo ao Museu Mariano Procópio

Em dez dos doze passeios que realizei no RHC, o Morro do Cristo foi o último atrativo a ser visitado. Apenas dois encerraram-se com a visita ao Museu Mariano Procópio, sobretudo em razão deste estar fechado para reformas. Ao todo, foram apenas três visitas a este atrativo, sendo que uma delas foi realizada no início do passeio, como o nosso primeiro “ponto de paragem”. Ainda que pouco recorrente, estas visitas ao museu merecem ser mencionadas aqui, em virtude da riqueza dos dados colhidos ali.

Com todos de volta aos “seus lugares” no microônibus, partimos então em direção a este atrativo. Mais uma vez a pergunta: “Gostaram deste atrativo”? Mais uma vez as crianças lamentam não poderem aproveitar mais o parquinho. Mais uma vez os adultos são unânimes com suas respostas positivas. Descemos da “Cidade Alta” pela Rua Engenheiro Gentil Forn, uma via tortuosa, em meio a uma mata abundante. Nesta descida, avistamos de longe o prédio

do museu, após a indicação dos guias. Converso com uma menina de nove anos que me diz ter conhecido o museu através de sua participação numa recente oficina de férias, chamada “Enigmas do Museu”. Ela me conta, com um certo entusiasmo, a sua experiência lúdico- educativa naquele atrativo. Logo, sua mãe intervém dizendo que acha muito importante que sua filha participe desses projetos culturais, incluindo aí o nosso passeio. Para Gisele (mãe de Júlia) o que fazíamos ali era mais do que um mero passeio. Na (sua) verdade, estávamos participando de um evento cultural-educativo, que ela considerava importante para o desenvolvimento intelectual de sua filha, que estava “em idade escolar”. Ali, ela poderia aprender um pouco mais da história de sua cidade. Como se pode observar, sua fala opera a partir de uma estrutura de significados estranha a do turismo, embora se possa classificar aquela prática como tal, a partir de um ponto de vista acima daquele do nativo. Gisele não estava ali motivada pela idéia de “fazer turismo” ou simplesmente de passear com sua filha pela cidade, mas para acompanhá-la naquele aprendizado que ela imaginava que o passeio proporcionaria. Poder-se-ia contra-argumentar aqui que o turismo – e, em especial, o cultural - também é um meio ou uma forma de aprendizagem. Mas o fato é que o turismo, enquanto uma “província de significados”, nos termos de Schultz (apud CASTRO 1994) não é ativado aqui na fala desta “turista-nativa”, cuja experiência ocorre em outra província96. Deste ponto

de vista, não é o turismo (enquanto representação) que leva à aprendizagem (enquanto prática), mas é a aprendizagem (enquanto representação) que leva ao turismo (enquanto prática). Todavia, o turismo, enquanto um “campo de possibilidades”, permite aos indivíduos “o trânsito entre os diferentes mundos, planos e províncias”, que se torna possível “graças à natureza simbólica da construção social da realidade” (VELHO, 1994, p. 29). O “encontro etnográfico” que esta forma de “fazer turismo” proporciona é visto aqui sob este prisma.

Viramos à esquerda, na Rua Engenheiro Morais Sarmento e, em poucos minutos, já estamos na Avenida dos Andradas. Segue-se o ritual. Os guias apontam para a Igreja da Glória, construída em 1878 pelos alemães católicos da Colônia D. Pedro II, em terreno doado pela antiga Cia. União Indústria, e atualmente sob a administração dos padres redentoristas. O que hoje se conhece como “Morro da Glória”, naquela época, chamava-se “Morro da Gratidão”. Passamos em frente ao Colégio Santa Catarina, fundado em 1909, pelas irmãs da 96 “Um modo de pensar para além da questão da autenticidade ou não da experiência turística é vê-la como ocorrendo numa 'província do significado' particular, para usar uma expressão do filósofo Alfred Schultz. A idéia é que o turista viaja por um plano da realidade que não é falso, inautêntico ou mentiroso; apenas diferente, com um estilo cognitivo especial que o distingue da realidade da vida cotidiana. Esse plano é constituído, como vimos, por narrativas e imagens muitas vezes dissonantes e conflitivas entre si. Cada turista, por sua vez, delas se apropria como quer. Não há, portanto, uma experiência turística melhor que outra, não há um modo privilegiado de se ver as atrações turísticas. Qualquer maneira de viajar vale a pena” (CASTRO, 1999, p. 86).

Congregação de Santa Catarina – mais uma obra do onipresente arquiteto Pantaleone Arcuri, esta, em estilo eclético. Um dos guias comenta: “Reza a lenda que existia ali um túnel subterrâneo, ligando o Colégio à Igreja, pelo qual as irmãs se encontravam secretamente com os padres redentoristas”. E completa: “Não sei se é verdade. Eu estudei neste Colégio, mas nunca vi o tal túnel”. Mais uma vez a seriedade da história é suspensa aqui, desta vez, pelo sarcasmo da lenda. Ainda na antiga Rua da Gratidão, atual Avenida dos Andradas, passamos pelo prédio da Cia. Têxtil Ferreira Guimarães, antiga “Fábrica dos Ingleses” e depois Cia. Industrial Mineira, fundada em 1883 (mais antiga, portanto, que a fábrica de Bernardo Mascarenhas, inaugurada em 1889), cujas fachadas, todas em tijolo aparente, revelam o seu estilo inglês de construção. Entretanto, esta que, nos tempos áureos da “Manchester Mineira”, foi a maior fábrica da cidade, seja pelo montante do capital, seja pelo número de operários e de teares (ANDRADE, 1987), não é focada pela narrativa dos guias, passando despercebida por todos. Pouco mais à frente, está a “primeira estação ferroviária da cidade”, construída por Mariano Procópio Ferreira Lage – esta sim é destacada pelos guias. Viramos à direita, na Rua Mariano Procópio e passamos em frente às instalações da 4ª Brigada de Infantaria Motorizada, antiga sede da 4ª Região Militar, lugar de onde partiram as tropas do General Olympio Mourão Filho, rumo ao Golpe Militar de 1964 – mas, também esta história não consta da narrativa dos guias naquele passeio. O foco ali está direcionado àquele que dá nome ao nosso próximo atrativo, que já se aproxima. Neste momento, os guias explicam aos turistas que o museu é composto de duas edificações: uma, que era a casa original, construída por Mariano Procópio para hospedar a família imperial quando na inauguração da Rodovia União Indústria; e outra, um anexo construído por seu filho, Alfredo Ferreira Lage, com a finalidade específica de abrigar um museu. Nesta ocasião, é salientada, pelos guias, a importância de Mariano Procópio para o progresso e o desenvolvimento da cidade. Entramos, então, na Rua D. Pedro II e, após percorrida toda a sua extensão, já estamos em frente ao portão de entrada do museu (no pé de uma colina). Antes de descermos do microônibus, um dos guias pede a atenção de todos para que direcionemos o nosso olhar para duas casas antigas, também em estilo inglês, em frente às quais havíamos parado (fotografia 24). Tratam-se de “casas da época” - conta o guia – onde moravam os empregados de Mariano e onde ficava também a cozinha do palacete. É que – explica o estagiário - para evitar incêndios, Mariano (“homem de visão” e “esperto”) resolveu isolar a cozinha da casa principal. Pior para seus empregados, que tinham a árdua tarefa de subir a colina, várias vezes ao dia, para servir as refeições aos ilustres moradores. “Que mão-de-obra, hein!” - comentou o Sr. Geraldo (o motorista). Tal observação, despertou risos e outros comentários semelhantes por parte dos turistas,

prolongando o assunto. Mais uma vez aqui, a seriedade da história é suspensa por alguns instantes.

Fotografia 24 – Edificação em estilo inglês, situada na rua D. Pedro II e próximo ao portão de entrada do Museu Mariano Procópio (no pé da colina), onde funcionava a cozinha do palacete

que hoje é museu, tendo servido também de morada para os empregados.

Fonte: acervo pessoal.

No documento eduardodecamposbastosneto (páginas 164-167)