CAPÍTULO II DO CONTRATO DE MÚTUO NO CONTEXTO DO DIREITO
2.2 Do Objeto Contratual
Não obstante o facto de o contrato ter por objeto dinheiro, não nos podemos esquecer do preceito legal presente no art.º 207.º do CC, em que o mútuo pode envolver outros objetos, desde que fungíveis, no entanto, entre nós, a possibilidade de o objeto contratual não ser dinheiro no contexto bancário parece-nos uma situação quase impossível de se verificar.
Segundo ENGRÁCIA ANTUNES, o objeto contratual do mútuo bancário consiste em dinheiro legal ou escritural. Assim sendo, o objeto do contrato é outra
particularidade onde a presente modalidade contratual especial reside169.
Neste âmbito, à semelhança da distinção realizada no Capítulo anterior entre o contrato de mútuo civil e o contrato de comodato, realizamos também uma distinção
166 JOSÉ A. ENGRÁCIA ANTUNES,Direito dos Contratos Comerciais, op. cit. p. 498.
167 No mesmo sentido, na sequência da resolução de uma situação prática, CÁTIA MARQUES CEBOLA
aponta à mesma distinção, individualizando o mútuo civil em contraposição com o mútuo bancário “No presente caso em análise está em causa um mútuo civil. Não integra a categoria de mútuo bancário na medida em que, no plano dos sujeitos, o mutuante não é uma entidade bancária.” in CÁTIA SOFIA MARQUES CEBOLA, op. cit. p. 36.
168 JOÃO VASCONCELOS RAPOSO, op. cit. p. 20.
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comparada, entre o contrato de mútuo bancário e o contrato de abertura de crédito a partir do seu objeto, que pode numa primeira impressão gerar confundibilidade no domínio dos contratos bancários, tornando-se assim pertinente uma análise comparativa entre os dois contratos, evidenciando as suas distintas particularidades.
Designa-se por abertura de crédito o contrato pelo qual o banco (creditante) se obriga a colocar à disposição do cliente (creditado) uma determinada quantia pecuniária, por tempo indeterminado ou não, ficando este obrigado ao reembolso das somas utilizadas e ao pagamento dos respetivos juros e operações. O presente contrato de crédito constitui um contrato atípico, (sem regime legal próprio), embora nominado, no âmbito do art.º 362.º do CCOM, trata-se assim de um contrato socialmente típico
sedimentado na praxis bancária170. Uma outra particularidade que nos permite distinguir
os dois tipos contratuais é o facto de a abertura de crédito ser um contrato consensual,
por oposição à natureza real quoad constitutionem do mútuo171.
Nas palavras de PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA, “Inteiramente distinto do mútuo, na sua estrutura, é o contrato de abertura de crédito que, além de ser um contrato consensual, pode inclusivamente constituir-se e extinguir-se normalmente,
preenchendo a sua função sem chegar a haver nenhuma datio rei”172.
Na mesma perspetiva aponta JOÃO VASCONCELOS RAPOSO, “Teremos assim, em nosso entender dois tipos contratuais claramente separados, um legal e outro socialmente típico e sem que o estabelecimento de uma natureza real quoad effectum
para o mútuo estabeleça qualquer tipo de confusão”173.
No que respeita à forma contratual, já encontramos uma particularidade igualitária, uma vez que a abertura de crédito está sujeito às regras de forma para o
mútuo bancário174.
Quanto à cessação, a abertura de crédito volta a divergir do mútuo, uma vez que se trata de uma matéria regulada no art.º 1845.º do Código Civil Italiano, mas para a qual não há regime legal direto, entre nós. A solução desejável reside na regulação
contratual entre os contratantes175-176.
170 JOSÉ A. ENGRÁCIA ANTUNES, Direito dos Contratos Comerciais, op. cit. pp. 501-502. 171 ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO, Direito Bancário, op. cit. p. 694.
172 PIRES DE LIMA/ANTUNES VARELA,op.cit. p. 763. 173 JOÃO VASCONCELOS RAPOSO, op. cit. p. 17.
174 ANTÓNIOMENEZES CORDEIRO,Direito Bancário, op. cit. p. 694. 175 ANTÓNIOMENEZES CORDEIRO, Direito Bancário, op. cit. p. 696.
176 No mesmo sentido, veja-se a jurisprudência “I – O contrato de abertura de crédito é aquele pelo qual o
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A FORMA DO CONTRATO DE MÚTUO BANCÁRIO
Contrariamente ao exigido no contexto do Direito Civil, sendo a instituição
bancária a mutuante (ou outra instituição de crédito), aplica-se o artigo único177 do DL
n.º 32 765, de 29 de abril 1943, que dispõem que os contratos de mútuo ou usura, seja qual for o seu valor, quando feitos por estabelecimentos bancários autorizados, podem provar-se por escrito particular, ainda mesmo que a outra parte contratante não seja
comerciante178.
A disposição legal vem desta forma aligeirar os requisitos de forma179, com o
objetivo de simplificar a forma dos contratos desta natureza, sempre que sejam celebrados por bancos, face à forma mais exigente do regime civil, vigorando assim em
benefício das instituições bancárias180.
Notemos que não obstante a particularidade da forma escrita exigida para os mútuos bancários estender-se pelas regras gerais, no que respeita às taxas de juro, ela
sempre deve ser fixada por escrito, visto o disposto do art.º 102.º, § 1.º, do CCOM181.
acreditamento ou linha de crédito – por tempo indeterminado ou não, ficando o último obrigado ao reembolso das somas utilizadas e ao pagamento dos respetivos juros e comissões.
II - O contrato de abertura de crédito constitui um contrato nominado mas atípico (art.º 362.º do Código Comercial).
III – Trata-se, porém, de um contrato socialmente típico, meramente consensual, num duplo sentido: no sentido de não estar, quanto à sua formação, sujeito a qualquer exigência legal , embora a praxis bancária subordine a sua celebração invariavelmente a documento a escrito, e possa mesmo ser requerida a escritura pública, se a abertura de crédito incluir negócio que a exija, como sucede quando surge associada a garantias hipotecárias; no sentido de que a sua validade não se encontra dependente de qualquer ato de entrega do montante pecuniário: ao contrário do que sucede no empréstimo bancário, a abertura de crédito pode ficar perfeita com o mero acordo tendente à disponibilização daquele montante, que aliás, poderá nem sequer chegar a ser movimentado ou mobilizado pelo cliente. Dito doutra forma, a abertura da conta corrente não é um contrato quoad constitutionem.” in Ac. do TRC, Proc. 132/12.2TBCVL-A.C1, de 19-12-2012, relatado por o Doutor Juiz Desembargador HENRIQUE ANTUNES.
177 Também PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA aludem ao referido artigo, vide PIRES DE
LIMA/ANTUNES VARELA, op. cit. pp. 764-765.
178 Relativamente a forma contratual, veja-se a jurisprudência “2- Independentemente do seu valor, o
mútuo bancário deve ser titulado por escrito particular, que não pode ser substituído por outro meio de prova ou por outro documento que não seja de força probatória superior” in Ac. do STJ, Proc. 06A2999 de 31-10-2006, relatado por o Juiz Conselheiro NUNO CAMEIRA.
179 No mesmo sentido, MENEZES CORDEIRO “o mútuo bancário tem uma forma aligeirada: nos termos
do artigo único do Decreto-Lei n.º 32.765 de 29 de abril de 1943” in ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO,Direito Bancário, op. cit. p. 688.
Também MENEZES LEITÃO “O mútuo bancário possui uma especialidade de forma em relação ao mútuo mercantil, de acordo com o previsto no artigo único do DL n.º 32 765, de 29 de abril de 1943” in LUÍS MANUEL TELES DE MENEZES LEITÃO, op. cit. p. 401.
180 L. MIGUEL PESTANA DE VASCONCELOS, Direito Bancário, Coimbra,op.cit. pp. 182-183. 181 ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO,Direito Bancário, op. cit. p. 688.
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Os contratos de mútuo bancário devem seguir o modelo aprovado pela Portaria n.º 669- A/93 de 16 de julho, com as alterações introduzidas pela Portaria n.º 882/94 de 1 de
outubro182.
Contrariamente à forma do contrato de mútuo bancário típico, supra mencionado, os contratos de mútuos bancários de escopo, que abordamos detalhadamente infra, cujo objeto do escopo exija forma legal especial, v.g., os contratos de compra e venda de prédio ou fração autónoma com mútuo, acompanhados ou não de hipoteca, conforme exigido pelo DL n.º 255/93 de 15 de julho, devem ser celebrados por documento
particular com reconhecimento de assinaturas de acordo com o n.º 1 do art.º 2.º183, e
registado obrigatoriamente em consonância com o art.º 3.º 184.
Segundo MENEZES CORDEIRO, presenciamos aqui, um primeiro caso em que as exigências do Direito Bancário vêm alterar áreas jurídicas circundantes, na medida
em que são tocados princípios básicos e tradicionais do nosso ordenamento185.
182 ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO,Direito Bancário, op. cit. p. 689.
183 Segundo PESTANA DE VASCONCELOS “o fim visado pelo legislador não foi, ou pelo menos não
terá sido a título principal, a criação de um regime de benefício para os bancos (embora esse beneficio exista, porque se simplifica a aquisição de bens nestes termos e o crédito à habitação constitui hoje uma significativa parcela da sua atividade), mas sim, facilitar o acesso à habitação, o que seria obtido neste caso pela simplificação de forma e redução de custos a quem adquire um prédio urbano para esse fim, recorrendo para o efeito ao crédito bancário.” in L. MIGUEL PESTANA DE VASCONCELOS, 2007, A cessão de créditos em garantia e a insolvência, Coimbra, Coimbra Editora, op. cit. p. 998.
184 NUNO RICARDO PINTO DA SILVA,op.cit. p. 407.
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