C. DA NATUREZA JURISDICIONAL DA DECISÃO IMPETRADA E DA SUA DA VIOLAÇÃO AO DIREITO LÍQUIDO E CERTO A UM DEVIDO
2.3. DO PEDIDO DE CONCESSÃO DE MEDIDA LIMINAR.
Cumpre trazer neste tópico as razões que, a nosso aviso, justificam a concessão de medida liminar.
O art. 7o da Lei n. 12.016/09 (nova Lei do Mandado de Segurança), prevê a concessão de medida liminar, nos seguintes termos:
“Art. 7º Ao despachar a inicial, o juiz ordenará: (…)
III - que se suspenda o ato que deu motivo ao pedido, quando houver fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida, caso seja finalmente deferida, sendo facultado exigir do impetrante caução, fiança ou depósito, com o objetivo de assegurar o ressarcimento à pessoa jurídica.” (grifou-se) Assim, para a concessão da medida liminar, é de rigor que estejam presentes os requisitos do fumus boni iuris e do periculum in mora.
O fumus boni iuris, a nosso aviso, restou devidamente comprovado na fundamentação jurídica da presente petição inicial.
Já o periculum in mora resta evidenciado pelo fato de as prisões temporárias terem sido convertidas em preventivas (documentos
anexos), evidenciando a necessidade de urgência na presente tutela
mandamental, assim como denotando sérios indícios – reconhecidos pelo juiz natural da causa – no sentido de interferência na produção de provas ainda por vir, conforme anotado tanto na petição do Ministério Público, quanto na decisão de prisão preventiva proferida pelo juízo singular, o que passou ao largo da decisão monocrática do e. Ministro Relator, ora impetrada.
Na petição em que requereu a prisão preventiva, o Ministério Público deixou anotado que “tal situação, de influenciar as testemunhas e
do representado DIRCEU PUPO FERREIRA que procurou o corretor de imóveis AUGUSTO ALBERTINI, em seu local de trabalho portanto uma mala “suspeita”, para que ele mentisse sobre as condições de venda das salas localizadas no Centro Cívico que foram adquiridas pela família RICHA.”
Importa registrar que nas negociações de imóveis da família Richa, considerados em tese como lavagem de dinheiro, parte dos valores pagos o foi em dinheiro vivo. Não se trata de pouco dinheiro, mas de aproximadamente R$1.700.000,00 (hum milhão e setecentos mil reais)!! Ainda constam dos autos depoimento de Antonio Celso Garcia, investigado colaborador, relatando que o corretor de imóveis Augusto Albertini narrou que Dirceu Ferreira Pupo, contador e homem de confiança na realização de negócios imobiliários da família Richa (a ponto de possuir diversas procurações outorgadas por familiares e pelo próprio ex-governador Carlos Alberto Richa e de empresas da família Richa usarem o endereço do escritório do contador em seus contratos sociais), lhe procurou demonstrando preocupação em relação às investigações que estariam em curso contra a família Richa e que, segundo o corretor de imóveis, Dirceu o procurou para combinar uma versão da compra desses conjuntos localizados no Centro Cívico caso alguém o procurasse para prestar depoimento a esse respeito. Albertini ainda revelou que Dirceu Pupo o orientou sobre o que deveria falar. Os elementos colhidos na investigação, portanto, denotam práticas de lavagem de dinheiro e de interferência na produção de provas futuras que são características de ensejar prisão preventiva. O colaborador ainda apresentou prova documental desse encontro, isto é, o registro de entrada no prédio localizado na Rua Carlos de Carvalho, 417, em Curitiba, local de trabalho de Augusto Albertini, que demonstra que Dirceu Pupo Ferreira ingressou no edifício no dia 08 de agosto de 2018, às 10:49 e saiu às 11:42. Além disso, entregou as filmagens das câmaras de segurança do edifício que demonstram a entrada de Dirceu e o encontro com o corretor de imóveis, as quais foram transpostas para o pedido de preventiva em fotografias reveladoras desse
encontro. E estes aspectos foram considerados pelo Magistrado de primeiro grau para decretação da custódia preventiva dos pacientes, verbis:
Além da garantida da ordem pública e da garantia da ordem econômica, as prisões preventivas dos denunciados CARLOS ALBERTO RICHA (BETO RICHA) e DIRCEU PUPO FERREIRA se fundamentam na conveniência da instrução criminal. Conforme se infere das declarações prestadas por CARLOS AUGUSTO ALBERTINI (mov. 1.5 destes autos), em agosto de 2018 ele foi procurado pelo investigado DIRCEU PUPO,supostamente agindo no interesse de BETO RICHA, com o intuito de lhe orientar quanto ao teor das declarações que deveriam ser prestadas às autoridades, com a finalidade de ocultar supostos delitos de lavagem de dinheiro. Assim, resta concretamente demostrado que a liberdade dos investigados poderá implicar no comprometimento probatório, por meio de práticas que implicam no induzimento de testemunhas.20
Não bastasse, o fato de Carlos Alberto Richa ter saído do governo do Paraná para concorrer às eleições como candidato a Senador não afasta sua influência política no grupo que permanece no poder como é público e notório no Estado do Paraná. E o poder político e econômico dos investigados é fator decisivo para influenciar os ânimos das testemunhas – muitas delas ainda detentoras de cargos públicos – que ainda deverão prestar depoimentos e mesmo para facilitar possível produção de provas a posteriori. Ademais, chegou ao conhecimento do GAECO indícios de que BETO RICHA e PEPE RICHA podem estar utilizando a residência de sua genitora, Sra. Arlete Vilela Richa, localizada à
20 Decisão proferida nos autos 0023147-68.2018.8.16.0013, em trâmite na 13ª Vara Criminal de Curitiba.
Rua Gutemberg, 104, ap. 1501, bairro Batel, em Curitiba, para esconder valores ou provas que os incriminem. Com efeito, a informação dá conta que em meados do mês de julho de 2018 os irmãos Richa foram vistos entrando na residência de sua genitora com “grandes volumes em malas e bolsas”, acompanhados de terceiras pessoas, sendo que na saída da residência nada portavam. Tudo isso atualiza as práticas delitivas e revela a necessidade presente da medida cautelar da preventiva. De resto, afasta possível alusão a “teratologia” ou “manifesta ilegalidade” da prisão preventiva decretada pelo juízo “a quo”.
Diante desse cenário vê-se que o e. Ministro Relator da decisão ora impetrada, com a devida vênia, está distante do quanto anotado nessas peças processuais e na realidade fática que as sustenta, especialmente em relação ao fato objetivo de que o grupo das pessoas investigadas já procurara esse ano (2018), em agosto, pessoas que poderiam ser testemunhas, para que essas omitissem a verdade ou mentissem aos investigadores.
Ora, tal situação atualiza o periculum libertatis – e reforça
aqui, também, o periculum in mora – e é exemplo de dez entre dez manuais de processo penal caracterizadores da necessidade de decretação de prisão preventiva por conveniência da instrução criminal. De resto, repita-se pela relevância, esses dados objetivos afastam possível alegação de teratologia ou de manifesta ilegalidade nas decisões tanto do juiz de primeiro grau, quanto do Tribunal de Justiça do Paraná, quanto da e. Ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça.
Aí resta evidente o periculum in mora, razão pela qual o Ministério Público do Estado do Paraná requer seja concedida medida liminar para suspender os efeitos da decisão impetrada, afastando-se, pois, o óbice à prisão preventiva já decretada, assim como a possibilidade da decretação de novas medidas cautelares de natureza pessoa, pelo juiz natural da causa.