O período regencial (1831-1840) foi um mais agitados da história do país, marcado por uma série de disputas políticas e revoltas sociais que chegariam a ameaçar a unidade territorial do Brasil e a própria manutenção do Império. Considerando a menoridade de Dom Pedro II e a condição da Monarquia estar temporariamente destituída do poder central, pôs-se em curso uma intensa disputa entre os grupos dominantes para definir o papel do Estado de acordo com os seus interesses particulares ante as demandas gerais do Império. Nesse contexto, a arena política encontrava-se acirradamente dividida em três facções que disputavam o poder, com princípios e
propostas bastante distintos. De um lado, os Liberais Moderados, que controlavam o
novo governo, preocupando-se em preservar a integridade territorial do Império e da
própria elite “brasileira”; de outro, os Liberais Exaltados, que, apesar de terem
promovido, ao lado dos primeiros, o movimento de Abdicação, foram alijados da esfera do poder central, por conta de sua intenção em instaurar um governo mais democrático
e, mesmo, de caráter republicano; por fim, ao centro, os Restauradores ou Caramurus,
absolutistas simpatizantesdavoltade D. Pedro I, que tiveram suas intenções frustradas
com a morte do ex-imperador, em 1834 (BASILE, 2007; CUNHA, 2008).
Imersos em um contexto de intensa instabilidade, as elites dirigentes acreditaram que medidas descentralizadoras, que contemplassem os interesses dos grupos dominantes regionais, pudessem de alguma forma estabilizar a situação e conservar a ordem civil, de acordo com os padrões tradicionais de harmonia da sociedade imperial.
Para tanto, aprovou-se o Ato Adicional à Constituição, de 1834, na intenção de se firmar
uma aliança entre o poder central, sediado na capital, e as oligarquias das províncias, concedendo mais autonomia a essas últimas, com a criação das Assembleias Provinciais
e a consequente possibilidade de legislarem no âmbito local sobre diversos assuntos, dentre eles, a “Instrução Pública”.
Contudo, como afirma Cunha (2008), “as medidas não surtiram os efeitos esperados”, a instabilidade nas províncias generalizou-se, comprometendo a governabilidade do país, levando o então Regente Diogo Feijó à renúncia, em 1837. A
partir de um rearranjo político que aproximou os Caramurus e os Moderados em torno
da criação do partido Regressista, isto é, o “Partido Conservador” , esse grupo, também
denominado Saquaremas, assumiu o controle do Estado Imperial a partir da eleição do
Regente Araújo Lima, em 1838, com o claro objetivo de “salvar” a sociedade da “anarquia” e da “desordem”. De acordo com José Murilo de Carvalho, o Partido Conservador e o Partido Liberal (que congregou moderados dissidentes), “dominaram a política até o final da monarquia” (CARVALHO, 2012, p. 95).
Em meio às crises que assolavam o país, a preocupação em promover meios que favorecessem o estabelecimento de alguma “harmonia” entre elites políticas e econômicas do Império, desde meados da década de 1830, passou a constituir-se como um fator importante não somente para manter na unidade física e institucional do Império, como também para cuidar das próprias bases sobre às quais deveriam se
alicerçar a sua cultura e a sua identidade enquanto grupo distinto. Diante disso, se a
“centralização”, a “ordem” e a “civilização” se tornariam palavras-chave para resumir o
projeto Saquarema, não há como desconsiderar a importância que a educação e a
instrução tiveram nesse projeto, como um possível meio de controle administrativo e
ideológico do processo de construção da “Nação brasileira” (CUNHA, 2008; SOUZA, 2010). Perspectiva que ajuda a compreender a própria criação do Colégio Pedro II nesse
contexto, em 1837, e a sua função de ser um padrão ideal do Ensino Secundário
brasileiro, voltado para o recrutamento e a formação das elites políticas, econômicas e, especialmente, culturais do Império.
Após a conquista do poder central, os conservadores aprovaram em 1840 uma
Interpretação do Ato Adicional reduzindo substancialmente as competências dos
poderes provinciais. Foi quando, como sintetiza José Murilo, os liberais, receosos com a avanço da reformas, “tentaram preveni-las recorrendo a uma causa popular, embora mais próxima dos conservadores, qual seja, a antecipação da maioridade do imperador que, pela Constituição, só se daria em dezembro de 1843” (CARVALHO, 2012, p. 98). A partir de então, iniciou-se um período de estabilização política, econômica e social que chegaria ao seu ápice com a década de 1850. Sem perder de vista que a escravidão foi mantida até o fim da monarquia, nesse contexto, a capital do Império se reafirmava
perante o país não somente em termos políticos e econômicos, como, também, em termos culturais, pretendendo afirmar-se como uma referência de “civilidade” e de “modernidade”, notadamente, sendo um celeiro de novas modas, hábitos e comportamentos. Como afirma Melo (2014), nesse contexto:
Gestou-se no Rio de Janeiro uma dinâmica social mais mundana, uma maior estruturação do comércio de luxos e entretenimentos, relacionados, inclusive, à conformação da sociedade civil que desejava (e precisava) expor publicamente seus símbolos de status e distinção” (p. 753).
Além da estabilização registrada na década 1850 ser acompanhada também por uma fase de crescimento econômico, a denominada política de “Conciliação” partidária foi um fator fundamental para a definição desse quadro. Com essa política o governo conseguiu articular a implementação de uma série de medidas que visavam superar as disputas que dividiam o país, promovendo um certo equilíbrio de interesses entre os liberais e conservadores – política que, segundo José Murilo de Carvalho (2012), manteve-se em vigor entre 1853 e 1862. Procurando ser bem sintético, após a Guerra do Paraguai (1864-1870), inicia-se então uma fase de intensa desestabilização da monarquia, envolvendo, sobretudo, a abolição da escravidão, conflitos com a Igreja e questões militares, o que, em seu conjunto, fez ruir as bases do Império culminando na proclamação da República, em 1889.
*****
Assim, em meio a esse extenso recorte que José Murilo de Carvalho (2012) denominou como o período da “construção nacional” (1830-1889), que se situam os sujeitos, os objetos e as instituições sobre os quais serão dirigidas as observações, as análises e as reflexões que norteiam os interesses desta pesquisa. O que tornará possível compreender então as relações que foram estabelecidas historicamente entre a música, os músicos e a educação durante esse período, focando-se, sobretudo, no processos de institucionalização do seu ensino, na construção da sua forma escolar e na afirmação do valor profissional da música que ocorreram, especificamente, ao longo do Segundo Reinado (1840-1889).
A partir de 1822, estabelecimento do Estado imperial no Brasil foi acompanhando por um processo de institucionalização que emergiu a partir das suas novas demandas como país recém-independente, em face da necessidade de manutenção dos expedientes políticos e administrativos e, particularmente, dos desafios e paradoxos para definir a sua identidade e afirmar o seu espaço junto às nações civilizadas. Mantido como capital do país, o Rio de Janeiro continuou a ser um pólo privilegiado diante da concentração do aparato burocrático do Estado imperial e das principais instituições de ensino e cultura do país, bem como, das oportunidades de emprego que potencialmente giravam em torno dessas esferas. Uma condição que acabou implicando num intenso fluxo e num recrutamento contínuo de pessoas, fortalecendo a função da capital no processo de centralização do governo monárquico e o papel do Rio de Janeiro como o pólo principal de articulação da unidade nacional, em termos administrativos, políticos e cultuais.
Esse fluxo levou à cidade pessoas de diferentes províncias, motivadas pelo interesse em participar da política ou exercer alguma função pública na capital do Império, constituindo-se, direta ou indiretamente, como uma base de apoio ao governo, defendendo suas bandeiras e/ou implementando suas pautas, por meio da política, da burocracia e, também, da atuação em diversas instituições culturais. Um grupo formado em sua maioria nas áreas de direito, medicina e engenharia, que, dentre “homens de letras”, filhos de fazendeiros ou de comerciantes, teve como característica comum a condição de fazer parte de uma nova elite de letrados no país. Segundo Myers (2008), tanto na América hispânica como no Brasil, um sintoma dos processos de independência foi o surgimento de um novo tipo de “intelectual” que distinguia-se tanto do “letrado eclesiástico e evangelizador da primeira etapa colonial”, quanto do “letrado barroco do século XVIII”. Como afirma o autor:
Se o clero foi a frente par excellence dos executantes das funções do intelecto na primeira era colonial e ainda na barroca, se nos anos da ilustração e da crise imperial outros grupos sociais [...] começaram a competir com os primeiros por esse lugar de primazia, as primeiras décadas posteriores à derrubada dos impérios espanhol e português nas Américas presenciaram à diversificação e modificação na estrutura de recrutamento dos quadros ‘intelectuais’ do novo estado (Idem, p. 35).
Compreendendo esse grupo como uma “elite intelectual”, Altamirano (2008) destaca quatro pontos gerais que nos ajudam a perceber o seu “lugar” diferenciado nos
espaços da política e da cultura na América Latina, no século XIX. “Lugar” definido por: uma rede social conectada por meio de instituições, círculos, revistas e movimentos associativos; uma preocupação específica, enquanto elite cultural, em produzir e transmitir informações “esclarecidas” sobre a história, a sociedade, o mundo natural e
transcendente; um vínculo direto com o que Régis Debray chamou de grafoesfera, isto
é, a crescente dimensão do “espaço público” determinada pelo poder da imprensa e dos livros; e, por fim, as expectativas de que o alcance de seus “atos de fala” se estendesse além da vida intelectual, repercutindo na arena política. Conjunto de pontos que se mostra fundamental na construção histórica de um papel social dos intelectuais como “apóstolos seculares, educadores do povo ou da nação”, como “heróis do pensamento e da palavra”, em suma, “visionários” “dedicados à salvação cultural de seus povos” que, por meio de seus “atos de fala”, revelariam os “verdadeiros” interesses e perspectivas de
progresso e futuro de sua “pátria natal” (ALTAMIRANO, p. 15-17, 2008).
Configurando-se, assim com uma nova “elite intelectual” que, dependendo de sua menor ou maior margem de autonomia em relação ao Estado, foi definida por Myers (2008), respectivamente, como “letrados ilustrados” e “letrados patriotas”.
Esse grupo se caracterizou no Brasil por uma certa homogeneidade social, ideológica e de formação (CARVALHO, 2012), reunindo bacharéis (educados em Coimbra, em Paris, em São Paulo e Olinda), “doutores” (formados na Bahia e no Rio de Janeiro) e aqueles que se enquadravam na denominação genérica de “homens de letras” (poetas, literatos e periodistas). Contudo, como evidencia Leticia Squeff (2004), essa homogeneidade traz dificuldades para perceber se havia algum diferencial entre aqueles denominados como bacharéis e os “homens de letras” e, ainda, quais seriam essas diferenças. Em um contexto no qual o saber erudito, isto é, aquele expresso pelos “atos” de eloquência, de fluência retórica e de remissão à cultura clássica e livresca, era também uma forma de evidenciar “a distinção” dos membros da “boa sociedade”, a autora concluiu que, “sob certo ponto de vista, todos os representantes da ‘elite cultural’ do Império – políticos, magistrados e funcionários públicos em geral – eram ‘homens de letras’” (SQUEFF, 2004, p. 58).
Considerando a situação dos “bacharéis” que se dedicavam à política e ao funcionalismo, a autora destaca, contudo, que pode ser estabelecido um diferencial, mesmo que de maneira tênue, a partir da própria definição que os “homens de letras” davam a si mesmos, como “homens que, a despeito das atividades díspares que realizavam, tinham uma missão vinculada às artes e à literatura”. Diferença que estabelecia funções, lugares e interesses próprios aos “homens de letras”, diante da
missão de “atuar no Império de modo a dotá-lo, simultaneamente, de uma identidade
própria e de uma ‘alta’ cultura” (Idem, p. 58-59).
A partir dessa perspectiva política que se procurará analisar, então, quais eram a ideias e os projetos de Manuel Araújo Porto-Alegre, Raphael Coelho Machado e Francisco Manuel da Silva, tendo como foco específico compreender os seus interesses comuns em afirmar a importância da música e de seu ensino para a sociedade, promovendo um “regime de amadorismo” e atuando diretamente no campo da educação.