JANONE PRADO
14. DO PERDIMENTO DOS BENS
De acordo com o artigo 63 da Lei nº 11.343/2006, quando da lavratura da sentença, o Juiz deverá decidir a respeito do perdimento de bens ou valores apreendidos, sequestrados ou declarados indisponíveis.
Nesse sentido, o parágrafo único do artigo 243 da Constituição Federal dispõe que “todo e qualquer bem de valor econômico apreendido em decorrência do tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins será confiscado e reverterá a fundo especial com destinação específica, na forma da lei”.
Na hipótese vertente, pelos elementos probatórios
anteriormente analisados, reputo ter ficado suficientemente
comprovado que a maior parte do patrimônio apreendido no curso desta ação foi adquirido diretamente com proventos oriundos do tráfico ilícito de entorpecentes. Por outro lado, verifico que os acusados não lograram êxito em demonstrar a origem lícita dos recursos utilizados na aquisição desses bens.
Diante desse quadro, com apoio no disposto no art. 243 da Constituição Federal, no art. 63 da Lei nº 11.343/2006 e no art. 91, inciso II, alínea “b”, do Código Penal, decreto a perda em
dos seguintes bens apreendidos no bojo desta ação: favor da União
(I) Veículo Mitsubishi ASX 2.0 AWD, de placas QJV7327 e demais bens apreendidos no endereço sito à Rua Eredes Serpa, nº 90,
bairro Cordeiros, Itajaí/SC, residência do casal JANONE PRADO e
(autos de apreensão de ID DAMARIS ALMEIDA DOS SANTOS ANDRADE
29614532 – pág. 15/26 – MBA 34/2019);
(II) Aparelhos telefônicos e demais bens apreendidos no endereço sito à Rua Virgílio Raiser, 410, Navegantes/SC, residência
do acusado WANDERLEY ALMEIDA CONCEIÇÃO (ID 29614532 – pág. 64/71);
(III) Aparelhos telefônicos e demais bens apreendidos no endereço sito à Rua Onze de Junho, nº 233, Condomínio Ópera Residencial, apto. 2003, bairro Fazenda, Itajaí/SC, residência do
Registro que os caminhões, carretas, veículos e demais bens apreendidos na sede da empresa TRANSLITORAL TRANSPORTES RODOVIÁRIO já foram objeto de perdimento nos autos da ação penal nº 0000334-69.2019.4.03.6104, visto ter ficado demonstrado naquele feito que tal sociedade empresária pertence na realidade a KARINE DE OLIVEIRA CAMPOS e MARCELO MENDES FERREIRA, constituída com proventos oriundos do tráfico internacional de entorpecentes.
Isso posto, no que toca ao requerimento de alienação
antecipada formulado pelo Parquet Federal em suas alegações finais,
com fundamento nas mesmas considerações antes expostas, tenho como razoável o acolhimento da providenciada propugnada, diante dos expressos termos do art. 144-A do Código de Processo Penal, do art. 61, § 1º, da Lei nº 11.343/2006, e da Recomendação nº 30, de 10.02.2010, do Colendo Conselho Nacional de Justiça-CNJ.
Consigno que além da referida medida possuir fundamento de validade nas regras postas no art. 144-A do Código de Processo Penal, e no art. 61, § 1º, da Lei nº 11.343/2006, também é aceita e estimulada pela jurisprudência predominante. Nesse sentido são os v. acórdãos assim ementados:
“PENAL. PROCESSO PENAL. BENS APREENDIDOS. VEÍCULOS. ALIENAÇÃO ANTECIPADA. TRÁFICO INTERNACIONAL DE ENTORPECENTES. AUSÊNCIA DE PROVAS QUANTO À AQUISIÇÃO LÍCITA. PRESERVAÇÃO DO VALOR DOS BENS. APELAÇÃO A QUE SE NEGA PROVIMENTO.
- Os bens foram apreendidos por serem considerados proveito dos crimes de tráfico internacional de drogas supostamente perpetrados pela Organização Criminosa.
- O art. 60 da Lei 11.343/06 autoriza a apreensão de bens considerados produtos ou proveito do crime de tráfico e ainda, condiciona a liberação desses bens à prova da origem lícita do produto, bem ou valor, nos termos do parágrafo 2º do art. 60 da Lei n. 11.343/06.
- Não foi esclarecida a origem dos recursos supostamente utilizados na aquisição dos veículos, o que reforça a necessidade de apreensão dos bens. Ao contrário, há fortes indícios de que os bens em questão constituem proveito da prática criminosa.
- A alienação antecipada determinada no caso em tela visa a preservar a própria efetividade da medida, por meio da manutenção do valor econômico dos veículos que, se não alienados, sofrerão deterioração e perda de valor por circunstâncias econômicas, além dos custos envolvidos em sua manutenção.
- Preliminar rejeitada. Apelação a que se nega provimento.” (TRF 3ª R e g i ã o , 1 1 ª T u r m a , A p C r i m - A p e l a ç ã o C r i m i n a l , 5002468-47.2020.4.03.6104, Rel. Desembargador Federal Jose Marcos Lunardelli, julgado em 14.09.2020, Intimação via sistema data: 15.09.2020)
“PROCESSO PENAL. APELAÇÃO. MEDIDA CAUTELAR DE ALIENAÇÃO ANTECIPADA DE BENS APREENDIDOS. VEÍCULO UTILIZADO NA PRÁTICA DE TRÁFICO TRANSNACIONAL DE ENTORPECENTES. LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO. ART. 62, §4º, DA LEI 11.343/06. INOCORRÊNCIA DE INCOMPATIBILIDADES CONSTITUCIONAIS. DEVIDO PROCESSO LEGAL ASSEGURADO.
1 - Recurso de apelação interposto em face de decisão que inadmitiu o processamento de medida cautelar de alienação antecipada de bem apreendido em processo instaurado para apuração de crime de tráfico de drogas.
2 - Legitimidade do Ministério Público para requerimento da medida cautelar. A legitimidade ministerial encontra previsão legal no art. 62, § 4º, da Lei nº 11.343/2006.
(...)
4 - Inexistência de incompatibilidades constitucionais. A venda antecipada do bem apreendido, por si só, não constitui em perda da propriedade, valendo ressaltar que o desapossamento do veículo já ocorrera com a constrição e, portanto, os direitos inerentes à propriedade já se encontram reduzidos.
5 - A medida acautela não só o interesse público no ressarcimento ou perdimento do bem, mas também o interesse do proprietário, onde, na eventualidade de uma sentença absolutória perceberá o respectivo valor do veículo, sendo certo que na hipótese de manutenção da constrição, com a decorrente deterioração, o objeto poderá estar, inclusive, imprestável ao fim a que se destina e, portanto, ocasionando prejuízo ao proprietário, o que não se verificaria com a realização da venda antecipada.
6 - Resta assegurado o direito ao proprietário à percepção do valor do bem, não havendo que se falar em negação da propriedade, aplicação de pena antes do trânsito em julgado, tampouco efeito da sentença antes de sua prolação.
(...)
8 - Apelação provida.” (TRF 3ª Região, Primeira Turma, Ap. - Apelação Criminal - 55087, 0001943-40.2012.4.03.6005, Rel. Desembargador Federal Hélio Nogueira, julgado em 21.06.2016, e-DJF3 Judicial 1 DATA:01.07.2016)
“PROCESSO PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. CONSTRIÇÃO DE BENS. POSSIBILIDADE. MEDIDAS ASSECURATÓRIAS. ALIENAÇÃO ANTECIPADA. A alienação antecipada de bem constrito judicialmente em processo penal, já perdurando a medida por prolongado período de tempo, legitima-se com a finalidade de preservação do valor patrimonial da res. Uma vez alienado o patrimônio em hasta pública, o valor auferido com a venda deverá reverter para uma conta-corrente à disposição do Juízo, aguardando-se o desfecho da ação penal para a destinação da importância.” (TRF4 5004587-11.2012.404.0000, Oitava Turma, Relator p/ Acórdão Paulo Afonso Brum Vaz, juntado aos autos em 01.06.2012)
“PROCESSO PENAL. MANDADO DE SEGURANÇA. VEÍCULOS APREENDIDOS. DEPRECIAÇÃO. LEILÃO ANTECIPADO. CABIMENTO. OPORTUNIDADE.
1. Mostra-se cabível a alienação antecipada dos veículos apreendidos em procedimento criminal, quando sujeitos a riscos de deterioração e desvalorização, ocasionando prejuízo à Fazenda Pública. Precedentes. 2. A medida em tela se revela adequada e conveniente, de modo a preservar o valor dos bens e resguardar os interesses de ambas as partes, atendendo ao devido processo legal.
3. No caso concreto, as condenações do réu foram mantidas nas duas instâncias, inclusive o decreto de perdimento, não se mostrando razoável aguardar a remota definição dos recursos especiais e extraordinários.” (TRF4, MS 2008.04.00.007112-1, Oitava Turma, Relator José Paulo Baltazar Junior, D.E. 04.06.2008)
Pelo exposto, por se apresentar adequada, conveniente e oportuna, e embasada na lei e na orientação jurisprudencial
predominante, determino a alienação antecipada dos bens móveis
ressalvados arrolados nos autos de apreensão antes mencionados,
aqueles cujo uso foi concedido à Polícia Federal nos autos do incidente nº 5008473-22.2019.4.03.6104, bem como os dispositivos eletrônicos que ainda possam interessar a eventuais investigações que ainda estejam em curso.
Providencie a Secretaria ao necessário para avaliação e alienação dos aludidos bens. Sem prejuízo, comunique-se ao SENAD e
traslade-se cópia desta sentença aos autos nº
5006846-80.2019.4.03.6104 e nº 5008473-22.2019.4.03.6104.