2 LIBERDADE E NATUREZA (IN)HUMANA (ZIZEK VS.
2.11 Do perigo heideggeriano ao isso freudiano
Nesse sentido, somos tentados aqui a substituir a leitura que Heidegger faz do Wo aber Gefahr ist, wächst das Rettende auch de Hölderlin pela leitura que Lacan faz do Wo es war, soll ich werden de Freud. O que está em jogo nesse deslocamento é o lugar que o sujeito ocupa no pensamento de Zizek. Para sermos breves: vimos que Heidegger aponta no poema de Hölderlin o momento almejado da abertura ontológica, visando, com isso, a travessia do paradigma da modernidade. Ora, na medida em que, para Heidegger (1986), o paradigma da modernidade equivale à entificação do Ser pelo primado da subjetividade, sua proposta, então, consiste numa desobstrução do Ser a partir da desconstrução (Destruktion) dessa identidade. O primado da subjetividade é, portanto, apenas uma das formas de revelação do Ser, mas de modo algum sua revelação definitiva. Fica claro que, assim como para os teóricos da Escola de Frankfurt, para Heidegger (1954/2006), o primado da subjetividade moderna equivale, com efeito, ao niilismo expresso pela razão técnica. À diferença deles é que, para Heidegger, esse primado “tem de ser superado para que a humanidade deixe para trás o niilismo que ameaça sua própria essência” (ZIZEK, 2011a, p. 155).
Contudo, Zizek, nesse ponto, pensa de maneira completamente oposta. Para ele, não há saída possível para além do paradigma da modernidade, de modo que a negação do primado da subjetividade se mostra, para todos os efeitos, como uma negação totalmente ilegítima. Zizek revela-se aqui como um pensador eminentemente moderno, e, é preciso que se diga: sua concepção de modernidade é ainda mais radical do que a de Habermas, já que, para Zizek (2007), o núcleo da modernidade não pode jamais se desvencilhar de sua relação com o fenômeno da subjetividade. E para confirmar seu vínculo radical com a modernidade, Zizek vai recuperar o núcleo da subjetividade moderna na ideia de cogito cartesiano. Como ele diz logo nas primeiras linhas de seu “Sujeito Incômodo”:
(Um Espectro Assombra a Universidade Ocidental)... o espectro do sujeito cartesiano. Para exorcizá-lo, todos os poderes acadêmicos se coligaram numa Santa
Aliança: (...) o teórico habermasiano da comunicação (que insiste na mudança de uma subjetividade monológica cartesiana para a intersubjetividade discursiva) e o proponente heideggeriano do pensamento do Ser (que insiste na necessidade de “atravessar” o horizonte da subjetividade moderna que culmina na corrente devastação niilista) (ZIZEK, 2009, p. 15).
Isso não significa, todavia, que Zizek seja reticente no que concerne à destituição da subjetividade transcendental em sua nova configuração secularizada, contextualizada e pós- metafísica, salvaguardando, contra tudo e contra todos, a integridade metafísica desse conceito. Muito longe disso: o fato é que, para ele, o cerne da subjetividade moderna já carrega em seu bojo a sua própria destituição, e nesse sentido, é desnecessário projetar-se num para além e anunciar enfaticamente a morte do sujeito; o sujeito, na sua acepção mais profunda, já é a sua própria morte, ou sua própria destituição. Por essa razão, um pouco mais a frente Zizek afirma:
Não se trata, evidentemente, de regressar à forma do cogito sob a qual esta noção dominou o pensamento moderno (o sujeito pensante transparente a si mesmo), mas de trazer à luz o seu reverso esquecido, o núcleo do cogito, não reconhecido, excessivo, que está muito longe da imagem pacificadora do Si autotransparente (ZIZEK, 2009, p. 16).
Para dizê-lo brevemente, em contraste com Heidegger, o que Zizek oferece é a possibilidade de subjetivar mais uma vez essa destituição e, com isso, fazer emergir o verdadeiro âmago da subjetividade que permaneceu em estado latente desde a modernidade. Heidegger “deixou de ver o núcleo não metafísico da própria subjetividade moderna”; deixou de ver, portanto, que “a dimensão mais fundamental do abismo da subjetividade não pode ser apreendida pela lente da noção de subjetividade como atitude de dominação tecnológica'” (ZIZEK, 2011b, p. 155-156). E não seria esse retorno inesperado à subjetividade moderna que permite com que Zizek efetive de uma vez por todas os princípios da Aufklärung, levando, assim, a cabo o projeto da modernidade? Por isso, muito mais adequado nesse contexto do que o perigo (Gefahr) hölderliniano, é o modo freudo-lacaniano de pensar a subjetividade, conforme expresso na famosa passagem de Freud: “onde isso era, devo advir” (Wo es war, soll ich werden). O objetivo aqui é evitar a tentação de cair novamente na leitura pós-subjetivista de Heidegger. Nesse sentido, a fórmula freudiana revela uma torção subjetiva que só pode ser apreendida dialeticamente: o sujeito, para a psicanálise, consiste, portanto, no ponto de síntese da ideia clássica de sujeito (o sujeito cartesiano propriamente dito) e, paradoxalmente, de sua destituição, de sua morte, tematizada pela filosofia contemporânea pós-metafísica, em uma
palavra, o cerne da subjetividade passa a ser o próprio resto indestrutível do cogito que permanece operante na era pós-moderna.
Mas antes de dar o passo adiante, façamos uma cuidadosa digressão acerca da verdadeira implicação da expressão freudiana. Existem, basicamente, duas traduções para essa mesma expressão, mas com significados completamente heterogêneos. A primeira tradução, fornecida pelos psicanalistas da egopsicology, traduz Wo Es war, soll Ich werden por “onde o
isso era, o eu deve advir”. Como sabemos, quando o pronome eu é precedido por um artigo, o
termo adquire a função de substantivo. Assim, a tradução nos sugere que o eu já se apresente uma coisa já pré-definida, como uma entidade orgânica, uma substância finita e sólida, cuja função é ser o padrão de referência positiva do isso, o fosso desconhecido e caótico das pulsões. Nesse sentido, a preocupação básica dos adeptos dessa escola de psicanálise consistia, sobretudo, em fortalecer a consistência interna de nosso ego pessoal a fim de que fossemos, por fim, capazes de atravessar o campo sombrio e nebuloso das pulsões inconscientes. No entanto, Lacan forneceu uma mais brilhante versão dessa expressão, liberando-a de sua acepção conservadora e metafísica. A perspicácia da leitura de Lacan reside numa mera supressão do artigo o que precede o pronome eu – o que de fato não se apresenta na versão original em alemão. Portanto, Lacan de modo algum interferiu na estrutura original do texto freudiano, ele apenas o traduziu literalmente: “Onde isso era, devo advir”. A mudança sutil, mas fundamental, gera uma compreensão completamente distinta da anterior: o que se percebe agora é o efeito de subjetivação (o advento do sujeito em primeira pessoa) a partir do que antes era o isso (a ordem invariante e impessoal da substância). Ou seja, o isso torna-se eu (e não o eu) a partir de uma inversão puramente formal do processo dialético: “não como uma busca da simples subjetivação da substância inconsciente” (Eu deveria me apropriar do meu inconsciente), “mas como o reconhecimento do meu lugar dentro dele, de que o sujeito só existe pela inconsistência do inconsciente” (ZIZEK, 2012a, p.252). Quem nos fornece a chave precisa dessa interpretação é Jacques Alain-Miller, nessa passagem sucinta:
(...) Wo Es war, soll Ich weden, que se traduziu como: “Ali onde o isso era, o eu deve vir em seu lugar.” Lacan, porém, traduziu a frase de maneira mais poética e, aliás, de modo diverso: Ali onde isso era, eu deve advir, onde o Ich tem a significação de sujeito. Essa injunção exprime uma exigência de subjetivação: ali onde estava a pulsão acéfala e silenciosa – é famosa a fala de Freud sobre o silencia das pulsões –, ali mesmo o sujeito deve advir, o sujeito do significante (MILLER, 2011, p. 192).
O que Zizek procura mostrar com isso é que não somente o Eu é a mediação universal da objetividade, mas que ele é, também, mediado por uma certa “objetividade”. Mas de que objetividade se trata?