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CAPÍTULO 3 DO DIREITO E DOS FUNDAMENTOS JURÍDICOS

3.4 Do poder de polícia

O poder de policia é um dos poderes conferidos pelo Direito Administrativo, é a faculdade da qual dispõe a Administração Pública para buscar o bem comum. Deve-se usar o poder de policia de forma discricionária, onde através de critério técnicos, de oportunidade e de justiça, pode fazer cumprir sua ordem. Como o poder conferido é discricionário, e jamais arbitrário, o agente de segurança pública deve manter suas ações exatamente dentro dos limites legais.

Manoel Gonçalves Ferreira Filho afirma que:

“só se legitima o surgimento da sociedade se ela tiver por base o acordo de todos. Este é o pacto social, e para ele é imprescindível a anuência de todos, sem exceção. A partir dele é que se há de conceber a sociedade. A vida em sociedade exige o sacrifício que é a limitação dos direitos naturais. Não podem todos ao mesmo tempo exercer todos os seus direitos naturais sem que daí advenha à balbúrdia, o conflito. No pensamento político setecentista, a declaração de direitos, por um lado, explicita os direitos naturais, por outro, como já se apontou, enuncia as limitações destes, que são admitidas a bem da sociedade.”35

Hely Lopes Meirelles conceitua Poder de Polícia da seguinte forma:

“faculdade de que dispõe a Administração Pública para condicionar e restringir o uso, o gozo de bens, atividades e direitos individuais, em benefício da coletividade ou do próprio Estado36.Adita ainda que este Poder é o mecanismo de frenagem de que dispõe a Administração Pública para conter os abusos do direito individual37. Sua finalidade,

então, é a proteção ao interesse público.”

35 Ferreira Filho, Manoel Gonçalves. Op. cit., p. 4-5. 36 Meirelles, Hely Lopes. Op. cit., p. 115.

Diogo de Figueiredo Moreira Neto define Poder de Polícia como a atividade administrativa do Estado que tem por fim limitar e condicionar o exercício das liberdades e direitos individuais visando assegurar, em nível capaz de preservar a ordem pública, o atendimento de valores mínimos da convivência social, notadamente a segurança, a salubridade, o decoro e a estética38.

Cretella Júnior afirma que Poder de Polícia é a faculdade discricionária da Administração de limitar as liberdades individuais em prol do interesse público39. Adita que a coexistência da liberdade individual e o Poder

de Polícia repousam na conciliação entre a necessidade de respeitar essa liberdade e a de assegurar a ordem social40.

Segundo Álvaro Lazzarini, Poder de Polícia é o conjunto de atribuições da Administração Pública tendentes ao controle dos direitos e liberdades das pessoas, naturais ou jurídicas, a ser inspirado nos ideais do Bem - Comum41.

O Poder de Polícia que os integrantes da Administração Pública exercem tem por finalidade evitar as colisões no exercício dos direitos individuais de todos os indivíduos da sociedade, possuindo atributos específicos e peculiares, que são a discricionariedade, a autoexecutoriedade e a coercibilidade.

Quando se toca no assunto concernente ao poder de polícia, insurge-se citar dois aspectos que se colidem e se encontram amparados pela Norma Maior: as liberdades individuais e a restrição às mesmas. O cidadão quer ter todos seus direitos assegurados e quer exercê-los. O Poder Público tem por missão restringi-los, ou melhor, condicioná-los.

Na verdade não há colisão alguma de interesses, pois só é possível exercer os direitos constitucionais na medida em que estes direitos sejam assegurados a todos. E só é possível assegurá-los a todos restringindo o

38 Idem. Ibidem, p. 191.

39 Idem. Ibidem, Op. cit., verbete “Polícia Militar e Poder de Polícia no Direito Brasileiro”, p. 195. 40 Idem. Ibidem, p. 199.

alcance de cada direito individualmente. É aquele velho brocardo conhecido segundo o qual “o direito de um termina onde começa o do outro”. O Estado, no exercício de sua soberania, encontra-se acima desta paridade de direitos, justamente para regulá-los e protegê-los. Age, portanto, com autoridade sobre o administrado. Porém, a atuação estatal deve revestir-se sob o manto da constitucionalidade e da legalidade em seu sentido amplo.

Baseado nisto, a Lei nº. 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional), em seu artigo 78 com a redação dada pelo Ato Complementar nº 31, de 28 de dezembro de 1966, descreve o poder de polícia como sendo a atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos.

Nos dizeres de Maria Sylvia Zanella Di Pietro, o “poder de polícia é a atividade do Estado consistente em limitar o exercício dos direitos individuais em benefício do interesse público” 42. E o exercício do uso de algemas é justamente uma das modalidades do poder de polícia perpetrado pela Administração para a consecução de seus fins, haja vista restringir legalmente a liberdade do administrado em benefício de um bem de interesse público maior, qual seja, a segurança pública. Cumpre ainda salientarmos os atributos do poder de polícia e, consequentemente do uso de algemas.

Este é ato auto-executório, pois o agente, em se verificando a situação e os elementos autorizadores do uso de algemas, poderá exercê-lo, ou seja, sem autorização de qualquer autoridade judiciária. Fica evidente que pela situação de urgência da medida seria inconcebível a necessidade de autorização jurisdicional para a prática de tal ato. É ato coercitivo, pois como a Administração possui autoridade sobre o administrado, plausível é que aquela possua instrumentos adequados para alcançar seu fim público. E a

coercibilidade se caracteriza justamente por ser a imposição unilateral da Administração de um ato seu.

Por fim, é ato discricionário, haja vista que na sua utilização haverá a possibilidade do aplicador do ato verificar a necessidade ou não do uso do equipamento, deixando a norma possibilidade de se analisar se aquela situação se enquadra ou não nos contornos das situações a serem empregadas o uso de algemas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O uso de algemas é assunto delicado e provido de certa celeuma no que diz respeito ao seu uso, justamente por representar o cerceamento da liberdade individual, direito constitucionalmente protegido, ofendendo inclusive a dignidade da pessoa humana quando exercido o ato em desconformidade com os preceitos legais que o regulam.

A Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a liberdade é um direito irrenunciável e indisponível, não podendo ser restringido de forma arbitrária ou pelo abuso de poder por quem quer que seja e principalmente pelo Poder Público. Entretanto, ocorre que algumas vezes, em razão de estarmos diante de um Estado Democrático de Direito que tutela os direitos e garantias individuais, notadamente a dignidade da pessoa humana, não podemos olvidar que o Estado exercendo o seu poder de coerção através das forças policiais, muitas das vezes limita temporariamente e moderadamente direitos individuais com escopo de preservar a vida e a integridade da pessoa, sendo que esta limitação temporária do direito individual também visa o direito da coletividade e jamais pode ser considerado como afronta à dignidade da pessoa humana.

A questão atinente ao uso das algemas tem com objetivo de preservar a segurança do preso e a segurança do agente de segurança pública, além de assegurar a condução do detido, sem incidentes, à presença da autoridade competente. As algemas evitam o dispêndio de esforço e recursos do Estado para captura do foragido, não devendo ser usado como forma de punição ou humilhação a qualquer pessoa, mas somente usada em casos extremos, em que a autoridade estatal esteja em risco no cumprimento da sua missão.

O mau uso das algemas que por muitos anos tem se passado sem normatização efetiva em algumas situações, tem-se lançado de forma abusiva, com nítida intenção de execrar publicamente o preso, de constranger, de expô- lo vexatoriamente, sem nenhum respeito ao princípios da dignidade humana, proporcionalidade, adequação, necessidade e da presunção de inocência.

O uso indevido das algemas desse modo, por conta desses exageros, aquilo que sempre representou um legítimo instrumento para a preservação da ordem e segurança pública, tornou-se objeto de profundo questionamento pela sociedade.

Hoje, depois da regulamentação específica dada através da sumula vinculante do Supremo Tribunal Federal se busca pela real efetividade do serviço por parte dos agentes de segurança pública, e espera-se que o uso indevido das algemas seja punido como forma de atenuar essa barbárie e que se busque a efetividade da proteção da dignidade da pessoa humana, ora muito desvalorizada no mundo moderno.

Com a regulamentação, o uso das algemas será devido em situações específicas, onde não deve ser a regra, mas a exceção, priorizando sempre o princípio da dignidade da pessoa humana. Em todos os casos a exceção é o certo, dado somente em casos que se mostre viável e de suma necessidade.

A problemática do uso de algemas gera críticas e discussões em todos os setores da sociedade, por envolver a colisão de interesses fundamentais para a sociedade, o que dificulta a chegada a um consenso sobre o tema.

Deve-se buscar inclusive a conscientização de toda a sociedade quanto a real necessidade do uso de algemas respeitando o trabalho dos profissionais de segurança pública, cujas atribuições ao efetuar uma prisão têm a finalidade precípua de que não necessite usar de meios coercitivos mais violentos do que os que por vezes se torna imprescindível para a manutenção da ordem pré-estabelecida, resguardando-se assim a integridade física do agente do Estado e do administrado submetido à coerção e a consequente aplicação da justiça.

Ao finalizarmos o presente trabalho, acreditamos que o uso legítimo de algemas não é arbitrário, sendo de natureza excepcional, a ser adotada, com juízo de proporcionalidade, conveniência, necessidade, adequação e razoabilidade, nos casos e com as finalidades de impedir, prevenir ou dificultar

a fuga ou inibir a ação evasiva do preso e atos irracionais num momento de desespero, desde que haja fundada suspeita ou justificada receio de que tanto venha a ocorrer, e para evitar agressão do preso contra os próprios agentes de segurança pública, contra terceiros ou contra si mesmo. No entanto, faz-se necessária a padronização e a regulamentação do procedimento do uso de algemas, evitando-se o sofrimento físico ou mental da pessoa, o tratamento desumano ou degradante, além de evitá-la danos previsíveis e irremediáveis a si, ao preso, ou a terceiros.

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