要約 この研究はラテンアメリカ、特にメルコスール(南米共同マーケット)の国際関係
SEÇÃO 2: INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA: ANÁLISES CRÍTICAS
1.1.4. A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E O PODER SIMBÓLICO
1.1.4.2. DO PODER SIMBÓLICO
Para Bourdieu, num dado estado de um campo, onde se vê o poder por toda parte e que torna necessário reconhecê-lo sem dissolvê-lo numa idéia de que ele estaria em toda parte e lugar algum, “é necessário saber descobri-lo onde ele deixa ver menos, onde ele é mais
completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder
invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”.168
Os sistemas simbólicos – como arte, religião, língua, mito, ciência – são instrumentos de conhecimento e de construção do mundo objetivo, portanto, são estruturas estruturantes, onde as formas simbólicas “ativam” o conhecimento, têm uma função propulsora, dentro de uma tradição intelectual neokantiana.169 Por outro modo, dentro de uma tradição kantiana,
167 BOURDIEU; PASSERON, A reprodução..., p. 62-4. 168 BOURDIEU, O poder..., p. 7-8. Grifos nossos.
169 O neokantismo ou neocriticismo trata-se do movimento de retorno a Kant iniciado na Alemanha em meados do século XIX. São características comuns da corrente: a) negação da metafísica e redução da filosofia à reflexão sobre a ciência ou teoria do conhecimento; b) distinção entre os aspectos (i) psicológico e (ii) o lógico-objetivo do conhecimento, onde a validade do conhecimento é independente do modo como ele é psicologicamente adquirido ou conservado; c) tentativa de partir das estruturas das ciências para chegar às estruturas do sujeito. In: ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 710. O kantismo ou criticismo refere-se à doutrina de Kant, nos pontos básicos onde influenciou a filosofia moderna e contemporânea: a) formulação crítica do problema filosófico, condenando a metafísica com esfera de problemas
emerge uma sociologia das formas simbólicas, que se trata de uma forma de classificação social, arbitrariamente e socialmente determinada, revelando que há condições sociais que produzem as próprias formas simbólicas e os seus usos consagrados. Assim, a objetividade do sentido de mundo define-se pela concordância das subjetividades estruturantes.170
Enquanto estruturas estruturadas, os sistemas simbólicos querem significar a possibilidade de uma análise estrutural, vale dizer, cada uma das formas simbólicas podem ser apreendidas dentro de sua lógica específica; a análise estrutural busca alcançar o isolamento da estrutura imanente a cada produção simbólica a fim de dissecá-la, não tanto como atividade voltada para produzir consciência, mas para verificar como operam as estruturas estruturadas na produção de seus efeitos. Assim a língua – Saussure171 – é um sistema estruturado voltado para a inteligibilidade das palavras; trata-se de condição para compreensão da relação constante entre o som e o sentido.172
que estão além das possibilidades da razão humana; b) fixação da tarefa da filosofia como reflexão sobre a ciência, determinando as condições que garantem e limitam a validade da ciência e, em geral, das atividades humanas; c) distinção rigorosa entre os problemas relativos à origem e desenvolvimento do conhecimento e o problema da validade do mesmo conhecimento – psicologia x domínio lógico-objetivo; d) conceito de moralidade fundada no imperativo categórico e o conceito de imperativo categórico como forma da razão em seu uso prático. In: ABBAGNANO, idem, p. 223-4. A expressão “crítica” foi introduzida por Kant para designar o processo através do qual a razão empreende o conhecimento de si. O iluminismo havia submetido as coisas e os fatos à crítica da razão, para extração dos sentidos do mundo, agora Kant havia submetido a própria razão à crítica, ou seja, submetido a razão à condição de coisa para ser objeto de uma crítica racional quanto à sua validade. Não se trata da crítica dos sistemas filosóficos, dos livros com as teorias e idéias ali contidos, mas a crítica da faculdade da razão em geral, uma espécie de tribunal que garante a razão em suas pretensões legítimas, com respeito a todos os conhecimentos que ela pode aspirar independentemente da experiência. In: ABBAGNANO, idem, p. 223.
170 BOURDIEU, O poder..., p. 8.
171 Ferdinad de Saussure (1857-1913), lingüista suíço, pioneiro da semiologia e da semiótica. Sua principal contribuição foi para os fundamentos teóricos do estudo da linguagem – especialmente as chamadas línguas naturais humanas. Fundador da lingüística moderna, Saussure define o signo lingüístico, arbitrário, como a combinação de um significante – imagem acústica – e de um significado – conceito. Ele distinguiu entre dois aspectos da língua: (I) a língua, como um sistema compartilhado por uma comunidade de falantes, e (II) a fala, como o comportamento lingüístico real dos falantes individuais. Ele mostrou explicitamente que o estudo da língua pode ser de tipo diacrônico – tendo como objeto as mudanças e a evolução da língua – ou do tipo sincrônico – voltado para observação do funcionamento da língua em determinado momento, tratando-a como um sistema temporariamente autônomo. A esse respeito, afirmou ainda que os lingüistas sincrônicos deveriam ver a língua como sistemas estruturados de elementos inter-relacionados. Saussure desmembrou a língua em unidades lingüísticas básicas, como os fonemas e as palavras; tais unidades, segundo ele, não se definem isoladamente, mas somente por meio de suas inter-relações com outras unidades. As relações entre os termos ou elementos podem ser do tipo sintagmáticos – co-ocorrência, contigüidade – ou paradigmático – substituição. A idéia de que cada elemento em um sistema define e é definido por todos os outros elementos fundamenta a lingüística estruturalista e foi estendida a outros campos de pesquisa das ciências humanas e sociais, dando origem à semiótica. As teorias de Saussure foram publicadas após sua morte, no Curso de Lingüística Geral (1916), baseado em notas colhidas, durante suas aulas, por seus alunos, obra essa de considerável influência, sendo considerado o ponto de partida da corrente estruturalista. Em 1963 o livro teve uma importante reedição em que foi acrescido de novos subsídios textuais que aprofundaram o valor pioneiro da obra. In: NOVA ENCICLOPÉDIA ILUSTRADA FOLHA. São Paulo: Empresa Folha da Manhã, 1996. v. 2; GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL. São Paulo: Nova Cultural, 1998, v. 21.
Diante disso, é possível verificar que os sistemas simbólicos “como instrumentos de conhecimento e de comunicação, só podem exercer um poder estruturante porque estão estruturados. O poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) (...) conformismo lógico (...) concordância entre inteligências [sobre o todo que compõe o mundo da vida]”. Verificar-se-á, posteriormente, que a função social do simbolismo humano é uma autêntica função política, para além da mera comunicação, sendo fundamento até mesmo da solidariedade social. “Os símbolos são os instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação (...) eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração ‘lógica’ é a condição da integração ‘moral’”.173
Foi a tradição marxista que focou e desvelou as funções políticas dos sistemas simbólicos, explicando as produções simbólicas relacionadas com os interesses da classe dominante. Contrariamente ao mito, que é um produto coletivo e coletivamente apropriado, as ideologias servem a interesses particulares travestidos de interesses universais, portanto, comuns ao conjunto do grupo social. “A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções”.174
Tal efeito ideológico é produzido pela cultura dominante, mas observando-se que é dissimulada e função de divisão na função de comunicação: “a cultura que une (intermediário de comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) e definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante”. Daí que os sistemas simbólicos, enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento, cumprem essa função política de meios para imposição ou legitimação da dominação, e que perpetuam e asseguram a dominação de uma classe ou grupo sobre outro, uma autêntica violência simbólica; ao se legitimar dessa forma, produz-se um efeito realimentador, onde os sistemas
173 BOURDIEU, O poder..., p. 9-10. Grifos no original. 174 BOURDIEU, O poder..., p. 10.
simbólicos reforçam a sua própria força às relações de força presentes na sociedade, reforçando, em última instância, à domesticação dos dominados.175
Aqui não se trata de reduzir as relações sociais de força a meras relações de comunicação, ou reduzir as relações de comunicação a relações de poder que dependem – quanto a forma e conteúdo – do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes envolvidos nessas relações sociais de força. A luta entre diferentes classes ou grupos é uma luta propriamente simbólica, para impor um sentido hegemônico de definição – ou um sentido legítimo – do mundo social; trata-se de construí-lo e impô-lo arbitrariamente, conforme os interesses próprios envolvidos e, assim, impor o campo de tomada de posições ideológicas legítimo. Isso irá reproduzir, em forma transfigurada, o campo das posições sociais de uma dada formação social, pois as “tomadas de posição ideológica dos dominantes são estratégias de reprodução que tendem a reforçar dentro da classe e fora da classe a crença na legitimidade da dominação da classe”.176
A luta social – simbólica – assim travada, acontece nos conflitos simbólicos da vida cotidiana, e também na luta travada por especialistas da produção simbólica, sendo que o que está em jogo trata-se do monopólio da violência simbólica legítima, que significa o poder de impor e inculcar instrumentos de conhecimento e expressão – taxinomias177 – arbitrários acerca da realidade social de forma dissimulada, vale dizer, imposição e inculcação ignorados ou desconhecidos – portanto legitimados – por quem as impõem e quem as assimila.178
No microcosmo específico do campo de produção simbólica – portanto, dos produtores de símbolos sociais significativos e de sentido de mundo – trava-se uma luta especial entre aqueles que têm interesses nos resultados das lutas internas do campo de produção, onde também se trata de um jogo de interesses próprios, com repercussão nos grupos exteriores ao campo de produção; seus resultados acabam servindo aos grupos não- produtores que têm seus próprios interesses. Por outro lado, nesse processo, a classe dominante se subdivide em frações dominantes – detentores do capital econômico – e frações dominadas – letrados ou intelectuais e artistas, segundo cada época –, que lutam pela hierarquia dos princípios de hierarquização;179 os primeiros querem impor a legitimidade de sua dominação no topo da hierarquia por meio de sua própria produção simbólica ou por
175 BOURDIEU, O poder..., p. 10-1.
176 BOURDIEU, O poder..., p. 11, e nota de rodapé n. 4.
177 Taxinomias são classificações e toda classificação é distinção. Ao distinguir, separa-se, diferencia-se, qualifica-se, portanto elege-se os mais distintos e menos distintos.
178 BOURDIEU, O poder..., p. 11-2.
179 É preciso não esquecer que essa divisão da classe dominante tem em mira em princípio uma sociedade com a francesa, com sistema econômico capitalista e dividida em classes sociais estratificadas.
intermédio de ideólogos conservadores, enquanto que os segundos querem colocar o capital cultural específico, a que eles devem sua posição, no topo da hierarquia dos princípios de hierarquização.180
Resulta que os sistemas ideológicos,181 produzidos pelos especialistas na luta – e por meio da luta – do monopólio da produção ideológica legítima, reproduzem, de forma imperceptível, a estrutura do campo das classes sociais – as diferenças sociais –, tendo em vista a semelhança ou intensa proximidade – correspondência – entre o campo da produção ideológica e o campo das classes sociais.182
Os sistemas simbólicos distinguem-se conforme sua produção; podem ser produzidos e ao mesmo tempo apropriados pelo conjunto do grupo social, ou produzidos por um corpo de especialistas, significando aqui um campo de produção e circulação bastante autônomo. Assim, a religião, como ideologia, inicia com o mito; este, ao longo de tempo, se transforma, mas diretamente jungido à formação de um corpo de especialistas – produtores especializados – dos discursos e ritos religiosos, estabelecendo o progresso social da divisão do trabalho religioso – parte da dimensão maior do todo do trabalho social em curso numa dada formação social – e, portanto, do reforço da divisão da sociedade em classes, desapossando paulatinamente dos laicos os instrumentos de produção simbólica desse sistema simbólico que é a religião. É a emergência de um campo de produção especializado, o fundamento e condição do surgimento de lutas ortodoxas e heterodoxas, cujo único ponto em comum é estabelecerem distinções a partir da doxa,183 ou seja, do que é considerado indiscutido ou indiscutível.184
180 BOURDIEU, O poder..., p. 12.
181 No campo simbólico, são instrumentos de dominação estruturantes, uma vez que estão estruturados para tal. 182 BOURDIEU, O poder..., p. 12.
183 Como acima visto, Bourdieu e Passeron estabeleceram que há um poder de violência simbólica impondo significações como legítimas, dissimulando as relações de força que existem na imposição desse arbitrário. A ação pedagógica em seu sentido mais amplo ou específico, assim, é o ato da imposição desse arbitrário cultural, inculcando significações culturais, sendo que o que se reproduz – em última instância – é o sistema de valores estabelecidos por um arbitrário cultural dominante, que se utiliza – inconscientemente ou não – de todos os recursos – inclusive o sistema educacional – para impor a hegemonia de um sistema de mundo, de uma visão das coisas e de ordem, de um sentido para a existência humana. Para Bourdieu a doxa é a internalização da própria dominação – os lugares comuns indiscutíveis, a partir dos quais tudo se discute menos sobre eles – inconscientemente, sendo que as pessoas aceitam tal situação, naturalmente, por um lado, mas não sem dor, não sem tensão ou sofrimento corporal, como admite o próprio autor. Daí a psicanálise para compreender como esse ser humano suporta e lida com essa agressão diuturna. Assim, o que é trivial na vida das pessoas toma outro corpo e colorido sob ponto de vista de Bourdieu, pois aqui, nessa comum aceitação naturalizada dos fatos diuturnos do cotidiano social e seus heterogêneos protagonistas, se encontra materializado toda uma violência simbólica pulsando seu arbitrário cultural, impondo seus significados extraídos de um domínio cultural que se estabelece como hegemônico e assim quer viver. Diante disso, não é incomum querer-se afirmar que a visão econômica dos fatos – doxa centrada numa específica “eficiência” que deve ser alcançada – da existência humana domina nossas ações diuturnas de forma “automática” – natural – especialmente quando a lógica instrumental (Weber) decide o nosso agir; aqui tudo tem uma conotação custo-benefício e sempre ganhar é o que
As ideologias estão subordinadas às condições sociais de sua produção e circulação, devendo a elas a sua estrutura e funções. Em primeiro lugar, cumprem funções para os especialistas em concorrência; em segundo lugar, para os não-especialistas. Elas sempre são duplamente determinadas, vale dizer, “que elas devem as suas características mais específicas não só aos interesses das classes ou das frações de classes que elas exprimem (função de sociodiceia), mas também aos interesses específicos daqueles que as produzem e à lógica específico do campo de produção (comumente transfigurado em ideologia do ‘criação’ e do ‘criador’)”. Assim, deve-se (I) evitar reducionismos dos interesses ideológicos aos interesses das classes a que eles servem; (II) um etnologismo que acaba tratando as ideologias como mito – produto indiferenciado de um trabalho coletivo, desconsiderando aquilo que ele deve ao campo de produção –; e, também, (III) não considerar as produções ideológicas como “totalidades auto-suficientes e autogeradas, passíveis de uma análise pura e puramente interna (semiológica)”, enfim, fugir de uma ilusão idealista da mesma.185
Essa semelhança ou correspondência – intensa proximidade – de estrutura entre o campo da produção ideológica e o campo da luta das classes, faz com que as lutas em concorrência pelo monopólio da produção cultural legítima, produzam automaticamente formas eufemizadas das lutas econômicas e políticas entre as classes, fazendo com que a função propriamente ideológica do campo de produção ideológica se realize exatamente aí, ou seja, “é na correspondência de estrutura a estrutura que se realiza a função propriamente ideológica do discurso dominante [legítimo], intermediário estruturado e estruturante que tende a impor a apreensão da ordem estabelecida como natural (ortodoxia) por meio da imposição mascarada (logo, ignorada como tal) de sistemas de classificação e de estruturas mentais objectivamente ajustadas às estruturas sociais”.186
Essa correspondência de sistema a sistema, faz dissimular – esconder – aos olhos de todos – produtores e destinatários –, que os sistemas de classificação internos utilizados pelos grupos ou classes, conforme cada campo social de referência, reproduzem os sistemas de classificação políticas – portanto, ideológicas – em permanente luta; também dissimula que os
acaba importando para todos. Sobre como a ação pedagógica atua para impor um arbitrário cultural vide BOURDIEU, Pierre e PASSERON, Jean Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 3 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992; sobre a atuação da doxa vide BOURDIEU, Pierre e EAGLETON, Terry. A doxa e a vida cotidiana: uma entrevista. In: ZIZEK, Slavoj. Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 265-78.
184 BOURDIEU, O poder..., p. 12-3, e nota de rodapé n. 5. 185 BOURDIEU, O poder..., p. 13.
axiomas187 específicos de cada campo social especializado – religião, ensino, artes, direito, literatura, etc. –, sejam as formas transformadas – conforme o espaço de autonomia de cada campo, ou suas leis específicas – dos princípios fundamentais da divisão do trabalho social, convertendo propriedades sociais – divisões produzidas socialmente e culturalmente – em ordem natural. “O efeito propriamente ideológico consiste precisamente na imposição de sistemas de classificação políticos sob a aparência legítima de taxinomias filosóficas, religiosas, jurídicas, etc. Os sistemas simbólicos devem a sua força ao facto de as relações de força que neles se exprimem só se manifestarem neles em forma irreconhecível de relação de sentido (deslocação)”.188
“O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, as acção sobre o mundo, portanto o mundo, poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário”. Esse poder não está – não reside – nos sistemas simbólicos, mas materializado ou definido num ato de relação, vale dizer, por meio de uma relação determinada é que ele se manifesta, entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, na estrutura relacional do campo que produz e reproduz a crença. “O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras”.189
Desta forma, Bourdieu assinala que o poder simbólico é um poder subordinado, por ser uma forma transformada, irreconhecível, transfigurada e legitimada de outras formas de poder: “só se pode passar para além da alternativa dos modelos energéticos que descrevem as relações sociais como relações de força e dos modelos cibernéticos que fazem delas relações de comunicação, na condição de se descreverem as leis de transformação que regem a transmutação das diferentes espécies de capital em capital simbólico e, em especial, o trabalho de dissimulação e de transfiguração (... eufemização) que garante uma verdadeira transubstanciação das relações de força fazendo ignorar-reconhecer a violência que elas
187 Proposição que se admite como verdadeira porque dela se podem deduzir as proposições de uma teoria ou de um sistema lógico ou matemático; premissa imediatamente evidente que se admite como universalmente verdadeira sem exigência de demonstração. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Médio Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, [ ].
188 BOURDIEU, O poder..., p. 14.
encerram objectivamente e transformando-as assim em poder simbólico, capaz de produzir efeitos reais sem dispêndio aparente de energia”.190