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Do povoado do Porto Inglês à Vila de Sal-Re

FIG Nª 16 Povoação-Velha

3.4.1.3. A terceira fase do povoamento ou o aparecimento de outras povoações

3.4.1.3.7. Do povoado do Porto Inglês à Vila de Sal-Re

A vila que hoje se conhece por Sal-Rei, sede administrativa e eclesiástica da Boavista, teve as suas origens com a fundação do povoado do Porto Inglês, mais tarde povoação de Sal-Rei, tendo o povoado e povoação crescido sob o signo do seu porto e das suas salinas. Comecemos por observar a vista geral de Sal-Rei, em meados do século XX, exibindo o cais de madeira:

FIG. Nº 20

Vista geral da Vila de Sal-Rei (1936)

FONTE: I. A. N. / T. T. – Fundo “O Século”. Arquivo de Fotografia de Lisboa – CPF / MC, 1936

Com efeito, Porto Inglês foi o nome dado ao porto situado na parte Noroeste da ilha da Boavista, onde navios ingleses e navios de outras nações costumavam apanhar sal desde o século XVI, tal como aconteceu com o Porto dos Ingleses da ilha do Maio. Os topónimos dos respectivos portos principais poderão denunciar, com efeito, uma presença regular e demorada dos ingleses nas duas ilhas, pois o da Boavista denomina-se “Porto Inglês” e o do Maio “Porto dos Ingleses”,491 topónimos por que foram denominados os povoados que, em consequência, surgiram junto dos referidos portos, “[…] por ser alli que levantavam as suas barracas os Inglezes que iam á colheita e embarque do sal”.492

O Porto Inglês da Boavista era vasto e espaçoso, medindo cerca de 10 km de abertura e 3 de concavidade; tinha um bom fundo de areia e era abrigado de todos os ventos, o que o tornava seguro em todas as estações, com apenas duas ou três arrebentações por ano. Essas condições tornavam-no no segundo melhor porto natural do arquipélago, depois do Porto Grande de Mindelo, na ilha de S. Vicente, devido ao grande comércio externo de sal que a partir dele se fazia. O sal e o referido porto traçam, assim, a partir dos meados do século XVII, o destino não só da fundação mas também da evolução do núcleo populacional que emergia junto do referido porto e que seria baptizado de Porto Inglês.493 A opinião de Joaquim José Lopes de Lima de que o Porto de Sal-Rei era bom e seguro durante todo o ano foi entretanto contrariada por Chelmicky que, pelo contrário, afirma que a “maresia” ou arrebentações nos meses de Dezembro, Janeiro e às vezes Abril o tornam muitas vezes perigoso, nesses meses, às embarcações.494 Observemos que, das nossas pesquisas de terreno, a tradição oral, sobretudo no seio dos marinheiros da ilha da Boavista, corrobora a informação de Chelmicky. Note-se porém que, no geral, ainda de acordo com Chelmicky, “o porto de Sal-Rei com tudo é o único do Arquipelago, que offerece o melhor desembarque, existindo na villa um caes de pedra, embora muito tosco, mas aonde com tudo, tanto as pessoas como as fazendas podem desembarcar com segurança e commodiade; este caes foi feito a custa do Sr. Martins e é propriedade sua”. 495

Assim como foi a pecuária que serviu de força geradora ao povoamento da zona Sul-Sudeste da ilha da Boavista, o sal exportado através do Porto de Sal-Rei seria o responsável pela fundação e evolução do núcleo populacional, na zona Noroeste da ilha, onde foi descoberta a possibilidade de fabricar essa substância, então muito procurada por navios estrangeiros. De acordo com T. Bentley Duncan, desde o século XVI, paralelamente à criação do gado, o sal já

491 MONTEIRO, … – Diccionario Geographico …, p. 180.

492 MONTEIRO, … – Diccionario Geographico …, p. 363 e 428-429; “Diccionario de Geographia

Universal”. TOMO I. Lisboa: Editor-David Corazzi, MDCCCLXXVIII, p. 614.

493 LIMA, José Joaquim Lopes de – “Ensaios sobre a statistica das ilhas de Cabo Verde no mar

Atlântico e suas dependências na Guiné Portugueza ao Norte do Equador”. Livro I, PARTE II. In “Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na Ásia occidental; na China, e na Oceânia”: Lisboa: Imprensa Nacional, 1844, p. 46-48.

494 CHELMICKY, … – Corografia Cabo-verdiana …, p. 49. 495 CHELMICKY, … – Corografia Cabo-verdiana …, p. 51.

atraía colonos para a ilha da Boavista.496 E no mesmo século, as ilhas salineiras do Sal, da Boavista e do Maio são mais frequentadas por navios ingleses, americanos e holandeses, que nos seus portos vão carregar clandestinamente sal.497 Foi entretanto no século XVII que se deu conta do potencial económico do sal das salinas da localidade que viria a ser denominada, sucessivamente, “Porto Inglês” e “Sal-Rei”. Neste sentido, nos finais do século XVII e princípios do XVIII os ingleses iam, tanto aos seus portos da ilha da Boavista como aos do Maio buscar e preparar sal, com que carregavam os seus navios, gratificando os seus habitantes pelo trabalho com algum dinheiro.498

No caso da Boavista, “descobertas porém junto do porto magnificas, cuja exploração chamou para ali principalmente a attenção dos inglezes, cresceu tanto a sua população e tanto augmentou a importancia da ilha, que foi necessario crear e estabelecer uma câmara e juízes. Decaindo depois, como vimos, parece renascer agora pela agricultura para um futuro mais prospero”.499

Com a chegada à ilha da Boavista do reinol Aniceto António Ferreira e nomeado Capitão-mor Comandante da ilha em 1787,500 incrementou-se a exploração e o comércio do sal das salinas do Porto Inglês, o que terá contribuído para que, nos finais do século XVIII, o povoado evoluísse para povoação, com o nome de “Sal-Rei”. Com efeito, lê-se na legenda à carta da Vila de Sal-Rei de 1888, cerca de um século mais tarde, que a sua fundação “regula pelos últimos anos do século passado”, e que a referida fundação é atribuída a Aniceto António Ferreira.501 Logo, partindo dessa informação, a povoação do Porto Inglês é erigida a vila nos finais do século XVIII, pelo menos em data até ao ano de 1788. O topónimo “Sal-Rei” tirou-o do excelente sal das salinas próximas do porto que, por isso mesmo, granjeara o epíteto de Rei, por isso, “Sal-Rei”.502

A evolução do povoado do Porto Inglês, que vivia à sombra da então “villa do Rabil”, que então era a sede administrativa e paroquial da ilha desde 1810, não parece, contudo, ter sido tão dinâmica. Neste sentido, de acordo com Chelmicki, em 1812 a chamada Vila de Sal-Rei possuía apenas seis casas e algumas choupanas.503 Parece que a situação não era melhor em 1823, pois de passagem por Boavista nesse ano, a Senhora Bowdich refere a Vila de Sal-Rei

496 DUCAN, … – Atlantic Islands …, p. 187.

497 DUNCAN, … – Atlantic Islands …, 1972, p. 255-256.

498 MONTEIRO, ….. – Diccionario Geographico …, p. 180; “Diccionario de Geographia

Universal”. TOMO IV. Lisboa: Editor-David Corazzi, MDCCCLXXVIII, p. 614.

499 “Diccionario de Geographia Universal”. TOMO I. Lisboa: Editor-David Corazzi,

MDCCCLXXVIII, p. 466; Cf. tb. PEREIRA, Esteves; RODRIGUES, Guilherme (redigido por) – “Diccionario Histórico Chorographico, Heráldico, Biographico, Bibliographico, Numismático e Artistico”. Vol. II. Lisboa: João Ramos Torres-Editores, 1904, p. 354.

500 Carta Patente de Novembro de 1787. IAHN, Praia. Secretaria Geral do Goveno, A1/ Liv.

0017, fol. 223v.

501 IAHU – Cartografia Impressa: “Vila de Sal-Rei, Povoação Principal da Ilha da Boa Vista”. Doc.

Nº 104, 1875.

502 “Diccionario de Geographia Universal”. TOMO IV. Lisboa: Editor-David Corazzi,

MDCCCLXXVIII, p. 2; VALDEZ, … – Africa Occidental …, p. 166; MONTEIRO, … – Diccionario Geographico ….., p. 430.

como uma “[…] reunião de cabanas, que se chama vila […]”.504 A apreciação da Senhora Bowdich colide com a de Senna Barcellos que, ao se referir à transferência da igreja paroquial da Povoação-Velha para a do Rabil, em 1810, acrescenta: “[…] e como o sitio de Sal-Rei offerecesse maiores commodidades aos habitantes, para carga e descarga dos navios, ficaram alli residindo as auctoridades civil e militar, erigindo-se então uma capela sob a invocação de Santa Isabel”.505 Outrossim, do ponto de vista comercial, como escreve Simão Barros, “o desenvolvimento do comércio do sal chamou os comerciantes para Sal-Rei, cujas salinas ficavam perto do porto”. Assim, “em pouco tempo a nova povoação cresceu em riqueza, edifícios e importância social, até que por fim foi elevada a vila e a capital da ilha”.506

Acresce ainda, a favor da promoção de Sal-Rei, o facto de a povoação do Rabil ser, por volta de 1820, doentia e comunicar com a então povoação do Porto de Sal-Rei através de dunas de areia.507 Mas referindo-se à Freguesia de S. Roque, no Rabil, em 1841, Chelmicky e Vernhagen afirmam que “é allí que se conserva ainda tanto a Paroquia como a caza da Camara, e não no Sal-Rei”,508 embora, como escrevem ainda Chelmicky e Vernhagen, “[…] de poucos annos para cá augmentou consideravelmente: tem grande numero de cazas boas, e melhora de dia em dia com a maior frequencia de navios estrangeiros, tanto para tomar refrescos e negociar, como principalmente para carregar de sal”.509

Essas informações mostram que, na década de 40 de 1800, o povoado do Porto Inglês cresceu muito. Mas, ainda em 1844 continua a ser denominado, “povoação de Sal-rey” por Joaquim José Lopes de Lima, quando escreve que “[…] a povoação de Sal-rey cresce cada dia em riqueza, e em edifícios, e em importância social; e todavia não é ella ainda nem Villa, nem ao menos freguesia, o que é grave falta, tendo apenas uma Capella, sem Cura, e sem Sacramentos, para os quaes depende da Matriz de S. Roque do rabil […]”.510

O desenvolvimento comercial e urbano de Sal-Rei dessa época não era alheio à exploração do sal, cujo fabrico e comercialização atraíam cada vez mais colonos, exigiam cada vez mais mão-de-obra escrava, o que, aumentando a população da ilha, contribuía para a mudança da fisionomia urbanística dos centros populacionais, particularmente da referida vila. Nesta última asserção, com efeito, com a exploração das salinas da Boavista, tanto as do Porto de Sal- Rei como as do Porto do Norte, tornou-se necessária a importação de mais contingentes de africanos como escravos. Neste sentido, temos a informação de

504 Traduzido da língua francesa. Mme. BOWDICH – Excursions …, p. 281.

505 BARCELLOS, Christiano José de Senna – “História de Cabo Verde e Guiné”. 2ª ed.Vol. II,

Parte III (Apresentação, Notas e Comentários de Daniel Pereira). Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2003, p. 165-166.

506 BARROS, … – Origens …, p. 37; Cf. tb. “Diccionario de geographia Universal”. TOMO IV.

Lisboa: Editor-David Corazzi, MDCCCLXXVIII, p. 186.

507 BARROS, … – Origens …, p. 37.

508 CHELMICKY, …; VERNHAGEN, … – Corografia Cabo-verdiana …, p. 153. 509 CHELMICKY, … – Corografia Cabo-verdiana …, p. 52.

510 LIMA, José Joaquim Lopes de – “Ensaios sobre a statistica das ilhas de Cabo Verde no mar

Atlântico e suas dependências na Guiné Portugueza ao Norte do Equador”. Livro I, PARTE II. In “Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na Ásia occidental; na China, e na Oceânia”: Lisboa: Imprensa Nacional, 1844, p. 47 e 49-50.

Simão Barros de que “no século XIX houve grande importação de escravos da Guiné e das outras ilhas para o serviço do embarque do sal”.511

Há uma outra notícia que dá conta do ofício nº 61, de 4 de Setembro de 1829, dirigido ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar, sob a cobertura do qual se enviava um requerimento de Manuel António Martins, onde este pedia licença à Coroa para transportar de 100 a 150 escravos de Bissau e Cacheu, para trabalharem nas salinas das ilhas da Boavista e do Sal, respectivamente. Embora não tenhamos encontrado nem o ofício nem o requerimento de António Manuel Martins, tivemos porém acesso à carta resposta ao referido ofício, na qual o então Governador de Cabo Verde transmitia ao requerente o deferimento do seu requerimento por “Avizo” régio, nos seguintes termos: “portanto ficando V. Excia. na inteligencia desta Regia e Muieficiente Ordem deve tambem estar certo de que terei toda a satisfação em poder observalla de hum modo que surta os dezejaveis fins a que V. Excia. se propõe, e para isto espero que V. Excia. me dirija quaes quer conducentes informações, e requerimentos principalmente o respectivo ao transporte dos cem a cento e cincoenta Escravos, declarando quantos devem embarcar nos Estabelecimentos de Bissau, e quantos nos de Cacheu afim de serem passados os respectivos Passaportes e dirigidas as necessarias Ordens aos Comandantes daquelas Posseções”.512

Por seu turno, Christiano da Senna Barcellos refere que a 30 de Dezembro de 1812 a chalupa inglesa Souvereign, dando entretanto o nome de

Dryne, aprisionou, no Porto de Sal-Rei, o lugre “Princeza da Beira” que,

procedendo de Bissau, trazia um carregamento de negros. O capitão-mor da Boavista protestou junto do capitão do navio inglês mas este não deu atenção aos protestos do capitão-mor. Pelo contrário, convicto de que o lugre trazia um carregamento de escravos, conduziu o referido lugre à Serra Leoa, onde o seu capitão foi condenado pelas autoridades inglesas, encarregados de vigiar o tráfico de escravos.513 Ora, por que se estava na época da proibição do tráfico negreiro, podia tratar-se de um caso de contrabando do comércio de escravos, tão em voga na altura.

A mão-de-obra escrava foi fundamentais para o desenvolvimento de Sal- Rei, nomeadamente no trabalho nas salinas. Por isso, de acordo com o testemunho de Francisco Travasso Valdez, em 1864 “ha em Sal-Rei muitas casas de commercio com boas residencias e armazéns edificados ao gosto

511 BARROS, … – Origens … p. 43.

512 Carta do Governador, dirigida a Manuel António Martins. IAHN, Praia. Secretaria Geral do

Governo da Província de Cabo Verde, A2.3 / Livº. 0116, s/p. Quanto à ilha do Sal, Manuel António Martins já a vinha explorando, economicamente, a partir da ilha da Boavista onde residia desde 1793, como testemunha Ernesto Vasconcelos, nos seguintes termos: “[…] alguns caboverdeanos activos e emprehendedores procuravam explorar algumas das ilhas, entre eles citaremos Manuel António Martins que em 1793 passou á ilha do Sal, então deserta, para tratar da creação de gado, aproveitando os seus pastos, conseguindo em três anos exportar bastante para as Antilhas” (VASCONCELLOS, … – Colonias Portuezas …, p. 18).

513 BARCELLOS, Christiano José de Senna – “História de Cabo Verde e Guiné”. 2ª ed.Vol. II,

Parte III (Apresentação, Notas e Comentários de Daniel Pereira). Praia: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2003, p. 183-184.

europeu, de maneira que esta villa, hoje capital da ilha, com perto de 1.000 habitantes, poderia competir, se é que não compete já, com a capital do archipelago, a cidade da Praia na ilha de S. Thiago”.514 Sendo o sal o principal produto exportado entre 1830 e 1870, a ilha da Boavista era “[…] bastante importante pelo seu movimento comercial, chegando a dizer-se nesse tempo: S. Tiago é o empório de Sotavento, Boa Vista o de Barlavento”.515

Esses testemunhos mostram que o comércio na Vila de Sal-Rei era, nos meados do século XIX, bastante movimentado, em relação ao contexto de Cabo Verde, o que justificava a ideia de que a ilha da Boavista era considerada em 1864, como o empório do grupo das ilhas de Barlavento, pois “[…] tem muito mais giro commercial do que as ilhas do Sal e do Maio; possuindo diversas casas de commercio fortes e agentes das outras ilhas que vendem toda a qualidade de mercadorias, assim nacionaes como estrangeiras, importando as ultimas principalmente da Europa e dos Estados Unidos da America por meio de permutação dos productos insulares”.516 E a propósito de agentes das outras ilhas na Boavista, assinale-se que em Sal-Rei também residiam, no século XIX, agentes de representações diplomáticas estrangeiras, como o primeiro cônsul dos E.U.A, Elisa Field, antes de 1817; mais tarde o cônsul geral da Inglaterra, John Rendall, pelo menos até 1845, e, por volta de 1850, um outro representante inglês; um vice-cônsul brasileiro e um cônsul da Argentina.517

Como testemunhos dessa fase áurea da Vila de Sal-Rei, em 1878 uma outra fonte dá conta da copiosa igreja de Santa Isabel, da casa da alfândega, com vastos armazéns, e de uma grande casa que servia ao mesmo tempo de quartel militar e de cadeia civil, para além dos seus sobrados.518 Observemos a seguir uma planta da Vila de Sal-Rei, referente a 1888:

514 VALDEZ, … – Africa Occidental …, p. 168.

515 TORRES, …; SOARES, … – Formações sedimentares …, p 225.

516 VALDEZ, … – Africa Occidental …, p.171. Ver tb. LIMA, José Joaquim Lopes de – “Ensaios

sobre a statistica das ilhas de Cabo Verde no mar Atlântico e suas dependências na Guiné Portugueza ao Norte do Equador”. Livro I, PARTE II. In “Ensaios sobre a statistica das possessões portuguezas na Africa occidental e oriental; na Ásia occidental; na China, e na Oceânia”: Lisboa: Imprensa Nacional, 1844, p. 49.

517 KASPER, … – Ilha da Boa Vista …, p. 47; Cf. Tb. DUNCAN, … – Atlantic Islands …, p. 240. 518 “Diccionario de geographia Universal”. TOMO IV. Lisboa: Editor-David Corazzi,

MDCCCLXXVIII, p. 186. Observámos os vestígios dessa decadência nas pesquisas de terreno que realizámos na Boavista durante os meses de Janeiro e Fevereiro de 2005.

FIG. Nº 21

Planta da Vila de Sal-Rei (Finais do século XIX)

Fonte: IAHU – Cartografia Impressa: “Vila de Sal-Rei, Povoação Principal da Ilha da Boa Vista”. Doc. Nº 104, 1975.

A planta dá conta que essa vila contava, em 1888, 161 fogos, constituídos por 30 sobrados e 131 rés-do-chão. Mais informa que, dos 161 fogos, 151 eram habitados e 10 desabitados e em ruínas; habitavam neles 902 indivíduos, dos quais 408 eram masculinos e 494 femininos; dos 902 indivíduos, 64 eram da raça branca, 682 eram mistos e 156 da raça negra; do ponto de vista profissional, entre os varões maiores, 32 eram empregados públicos, 36 comerciantes, 44 artistas e 95 trabalhadores. Observemos uma rua de Sal-Rei dos meados do século XX:

FIG. Nº 22

Aspecto de uma rua movimentada de Sal-Rei (1936)

FONTE: I. N. / T. T. – Fundo “O Século”. Arquivo de Fotografia de Lisboa – CPF / MC, 1936

Das informações atrás arroladas e da figura, podemos depreender que nos finais do século XIX a Vila de Sal-Rei ostentava uma certa importância urbana e sócio-laboral. De acordo com o mesmo documento, nomeadamente quando diz que, dos 161 fogos, 10 eram desabitados e em ruínas, infere-se porém que é precisamente nesse mesmo final de século que começa a decadência da referida vila, embora ainda existissem importantes edifícios, de acordo com a legenda principal do referido mapa, a seguir transcrita:

“Edifícios do Estado” – “(a) “Edifício ao rés-do-chão construído em 1884 e 1885, para n’elle funcionar a repartição fiscal. (b) Edifício de sobrado, em ruínas, aonde funccionava a alfandega, hoje são aproveitados os armazéns e o pateo para depósito de mercadorias sujeitos a direitos. (c) Edifício ao rés-do- chão, antigo quartel militar e hoje cadeia do julgado. (d) Barracão ou telheiro para abrigo dos escaleres d’alfandega. (e) Posto fiscal. (f) Edifício em ruínas pertencente ao município. (g) Edifício particular em que funcciona a câmara municipal”.519

A decadência da Vila de Sal-Rei e, com ela a de toda a ilha da Boavista, deve-se, por ironia, precisamente à pouca produtividade da indústria salineira,

519 I.A.H.U. – Cartografia Impressa: “Vila de Sal-Rei, Povoação Principal da Ilha da Boa Vista”.

por causa, por sua vez, de vários factores, nomeadamente o da invasão das salinas pelas dunas,520 condenando a qualidade do sal e assim a sua exploração e comércio para o exterior. Acompanhando essa decadência, a própria população decresce drasticamente. Por exemplo, dos 5.804 em 1850, decresce para 2.647, em 1860.521

O golpe final viria com o pesado imposto de 400 réis por alqueire de sal, imposto pelo governo brasileiro em 1887, tornando o sal da Boavista não competitivo com o sal do próprio Brasil, cuja produção começara nessa época. Boavista acabara de perder, então, um grande mercado.522 Em termos populacionais, a ilha da Boavista tinha, nos finais do século XIX e em relação ao grupo das ilhas de barlavento e de todo o Cabo Verde os seguintes números populacionais, nos anos que se indicam:

QUADRO Nº 13

População da Boavista comparado com o número de habitantes de Barlavento e de Cabo Verde (Finais do século XIX)

População da Boavista, Barl.to e C. Verde

Anos

Boavista Barlavento Cabo Verde

1881 2.727 35.197 103.762

1885 3.086 38.585 110.927

1890 2.957 42.438 127.390

1895 3.776 46.365 138.796

Fonte: Extraído do QUADRO Nº 2, in CARREIRA, António – “A evolução demográfica de Cabo Verde”.

Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Vol. XXIV. Nº 94.

Abril, 1969, p. 496-497

O quadro revela-nos que, enquanto no cômputo geral, tanto das ilhas de Barlavento como no total de Cabo Verde, a população cresce, na Boavista a população apresenta ainda uma forte oscilação entre o crescimento e o decréscimo, devido à sua dependência de factores externos, como do comércio internacional, como é o caso de sementes da purgueira. Com efeito, o comércio de sementes de purgueira veio a substituir, a partir dos meados do século XIX, o comércio da urzela, que até a essa época, quando desapareceu o seu comércio, equilibrava o orçamento da Província de Cabo Verde.523 “Mas é de esperar”, escreve Valdez, “que bem depressa exporte igualmente purgueira, pois que em 1844 a 1845 se semearam ali alguns moios de noz d’esta arvore, e em 1860 foi recommendada pelo governo a sua plantação”.524 Efectivamente, a exploração

520 PEREIRA, …; RODRIGUES, … – Diccionario Histórico Chorographico…, p. 479. 521 VALDEZ, … – Africa Occidental …, p.172.

522 MARTINS, … – Madeira …, p. 83.

523 CARREIRA, António – “A urzela e o pano de vestir – dois produtos de exportação das ilhas de

Cabo Verde”. Revista do Centro de Estudos de Cabo Verde. Série de Ciências Humanas. Praia, I