4 AÇÕES AFIRMATIVAS PARA EGRESSOS, COMO
4.1 OS DIREITOS FUNDAMENTAIS DOS EGRESSOS
4.1.1 Do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana
A dignidade da pessoa humana é um princípio construído pela história, um valor que visa proteger o ser humano, sendo núcleo essencial da Constituição Federal de 1988.
Dentro de uma visão simplista, de acordo com Josef Esser (apud ÁVILA, 2009, p. 35), princípios são aquelas normas que estabelecem fundamentos para que determinado mandamento seja encontrado. Karl Larenz (1991, p. 74) define princípios como normas de grande relevância para o ordenamento jurídico, na medida em que estabelecem fundamentos normativos para a interpretação e aplicação do direito, deles decorrendo direta ou indiretamente normas de comportamento.
Dworkin (apud ÁVILA, 2009, p. 37), por sua vez, informa que os princípios possuem uma dimensão de peso, demonstrável na hipótese de colisão entre princípios, caso em que os princípios com peso relativamente maior se sobrepõem ao outro, sem que este perca sua validade.
Alexy (apud ÁVILA, 2009, p. 37), partindo da ideia de Dworkin, considera que os princípios jurídicos consistem apenas em uma espécie de normas jurídicas por meio das quais são estabelecidos deveres de otimização aplicáveis em vários graus, segundo as possibilidades normativas fáticas, desconstituídos, pois, de força normativa.
É de se observar, entretanto, que os princípios também possuem força normativa. Não procede a afirmação de que os princípios não determinam absolutamente decisão, mas contêm fundamentos que devem ser conjugados com outros fundamentos provenientes de outros princípios.
Humberto Ávila conceitua um sobreprincípio como aquele que atua sobre outro princípio. Eles não exercem a função integrativa nem definitória, mas têm função rearticuladora, pois permitem a integração entre vários elementos que compõem o estado ideal de coisas (2009, p. 99).
Assim, cada elemento, pela relação que passa a ter com os demais em razão do sobreprincípio, recebe um significado novo, diverso daquele que teria caso fosse interpretado isoladamente.
A dignidade da pessoa humana, de acordo com Humberto Ávila é um sobreprincípio. Neste contexto, analisando-se o direito à saúde sob a ótica desse sobreprincípio, outros princípios como, por exemplo, a reserva do possível ou a separação de poderes, recebem um novo significado, diverso daquele se fosse interpretado separadamente.
A Carta Magna de 1998 dispõe em seu Título II sobre os direitos e as garantias fundamentais, subdividindo-os em cinco importantes capítulos: direitos individuais e coletivos, direitos sociais, nacionalidade, direitos políticos e partidos políticos.
O conceito da dignidade da pessoa humana é bastante complexo, dada a sua nobreza e a sua amplitude, pois se tornou um assunto de extrema importância, haja vista a sua incidência em todas as áreas do direito, bem como nas normas internacionais.
Neste contexto, conceitua Ingo Wolfgang Sarlet (2012, p. 62):
[...] qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.
Dirley da Cunha Júnior (2010, p. 540) diz que o princípio da dignidade da pessoa humana constitui o critério unificador de todos os direitos fundamentais, ao qual todos os homens se reportam em maior ou menor grau. Entretanto, esta opinião não é absoluta, Canotilho critica severamente a ideia de relacionar tal princípio ao conceito de direitos fundamentais.
Assim, é pertinente e conciliatória a lição de Humberto Ávila, ao tratar a dignidade da pessoa humana como um sobreprincípio, atuando juntamente com outros princípios para a concretização de direitos fundamentais.
Todavia, a questão que se impõe é se o egresso, o preso provisório, o autor dos crimes mais graves possui dignidade. É claro que, dentro de uma concepção jusfilosófica, todo homem tem dignidade. Mas a realidade que se apresenta é outra: a dignidade é um atributo da personalidade jurídica do ser humano, mas que depende de uma série de fatores para se efetivar.
A história das privações de liberdade, bem como as teses abolicionistas e minimalistas, confirmam a situação de privação desse direito fundamental que, de uma forma geral, alcança todos os selecionados pelo sistema penal.
O inimigo não é cidadão, logo, desprovido de dignidade. Esta é uma concepção neorretribucionista, como visto alhures, que infelizmente não é desprovida de verdade.
A seletividade do sistema capta principalmente aqueles já violados em sua dignidade, os vulneráveis às prescrição penais, tornando-os mais vulneráveis ainda, com o terrorismo da pena e sua execução, situação, muitas vezes, irreversível, diante da ausência de finalidade da ação punitiva.
Ademais, diante da teoria da vulnerabilidade de Zaffaroni, é imperioso salientar que antes da própria ideia de prestação estatal, para a efetividade da isonomia material, deve-se também buscar a efetividade do direito à proteção do egresso, como corolário da dignidade da pessoa humana. Como bem informa Alexy(2012, p 450-1):
Por “direitos a proteção” devem ser aqui entendidos os direitos do titular de diretos fundamentais em face do estado a que este o proteja contra intervenção de terceiros. [...]. Não são apenas a vida, a saúde, os bem passíveis de serem protegidos, mas tudo aquilo que seja digno de proteção, a partir do ponto de vista dos direitos fundamentais: [...]. Direitos à proteção são, nesse sentido, direitos constitucionais a que o Estado configure e aplique a ordem jurídica de uma determinada maneira, no que diz respeito à relação dos sujeitos de direito de mesma hierarquia entre si.
As decisões judiciais pautadas nas normas populistas de pseudogarantia da segurança pública, sem atenção a princípios, principalmente no âmbito das
punições, têm revelado violações à dignidade da pessoa humana e não efetividade do direito à proteção dos sujeitos mais vulneráveis ao sistema penal seletivo.
Como bem salienta Ricardo Maurício Soares(2010):
Outrossim, a interpretação da norma não deve se ater à sua literalidade, há necessidade de se buscar o espírito das leis, e, para tanto, com temperos, o intérprete tem participação ativa, para se chegar ao objetivo maior que é a dignidade da pessoa humana. O direito humanizado, determinado por situações concretas não previstas, mas culturalmente enraizadas e jurisprudencialmente reconhecidas.
Neste contexto, há que se expor a realidade do encarceramento brasileiro que demonstra a violação da dignidade social, pois, de acordo com os dados do Ministério da Justiça27, a população carcerária é a quarta maior do mundo. Em 2012 houve um aumento do encarceramento de 10% (dez por cento) em relação a 2011. São mais de 548.003 presos no sistema carcerário e na polícia. São Paulo, por exemplo, tem a maior concentração de presos em regime fechado, são 103.509 reclusos, contra 63.043 presos provisórios.
O que mais surpreende é a quantidade de presos provisórios. Em média 1/3 (um terço) do total de presos definitivos que cumprem pena nos três regimes (aberto, semiaberto e fechado). Assim, custodiados no sistema penal 548.003, destes, 195.036 são presos cautelares.
Na Bahia, o número de presos provisórios ultrapassa o número de presos definitivos em mais da metade. Isso se deve ao número de prisões decretas, em face, até mesmo, de homologações de flagrantes ilegais e consequente conversão em prisão preventiva, sem a observância de outras medidas cautelares, conforme inteligência do art. 39, do Código de Processo Penal.
É dentro deste cenário que se verifica a enorme violação da dignidade da pessoa humana, uma vez que, sob o manto da prevenção delitiva, executam-se prisões preventivas, sem qualquer finalidade, além de antecipação de pena definitiva, tornando os reclusos, que, de acordo com os ditames constitucionais, não
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Dados disponíveis em: <http://portal.mj.gov.br/main.asp?ViewID={887A0EF2-F514-4852-8FA9- D728D1CFC6A1}¶ms=itemID={0174EA9F-A262-4D3F-969E-091076FD45F5}; &UIPartUID={286 8BA3 C-1C72-4347-BE11-A26F70F4CB26}>. Acesso em: 12 jan. 2014.
poderiam ser considerados culpados, mais vulneráveis ao sistema de controle social.
Por conseguinte, se há um princípio constitucionalmente previsto, totalmente violado pelo próprio sistema, no tocante à realidade dos presos e egressos, esse princípio é o da dignidade da pessoa humana, do qual o princípio da proteção é corolário.
Destarte, egresso, em tese, tem dignidade, todavia, nesta situação, trata-se de uma norma-princípio programática, desprovida de eficácia imediata, pois, sobre esses sujeitos pesa, além da condenação jurídico-penal, a marginalização e o estigma do cárcere.