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Do principio protetor como fundamento nas relações de trabalho

No documento Fixação do dano moral ao trabalhador (páginas 78-81)

CAPÍTULO 4. DANO MORAL NO DIREITO AO TRABALHADOR

4.2. Do principio protetor como fundamento nas relações de trabalho

Na clássica lição de Bandeira de Mello, principio é o mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição que se irradia sobre diferentes normas, compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. É o conhecimento dos princípios que preside a intelecção da diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome sistema jurídico positivo118.

O termo princípio é utilizado de forma indistinta em vários campos do saber humano, servindo-se alguns campos da ciência para estruturarem um sistema ou conjunto articulado de conhecimentos a respeito de objetos cognoscíveis exploráveis na própria esfera de investigação e de especulação a cada uma dessas áreas do saber. Assim, pode se concluir

118

MELLO. Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo,São Paulo, Malheiros Editores, 2001, p. 771-772.

que a idéia de princípio ou sua conceituação, seja lá qual for o campo do saber que e tenha em mente, designa a estruturação de um sistema de idéias, pensamentos ou normas por uma idéia mestra, por um pensamento chave, por uma baliza normativa, donde todas as demais idéias, pensamentos ou normas derivam, se reconduzem e/ou se subordinam 119.

Consistindo a Ciência Jurídica em objeto singular traduzido em realidades essencialmente conceituais, realidades ideais e normativas, desdobradas em proposições ou modelos de comportamento ou de organização , diz-se que tem seu ponto central ou basilar no dever-ser (elemento nitidamente ideal) e não no ser (elemento nitidamente concreto- empírico). Nesse sentido, é que noção de principio, como proposição diretora à compreensão de uma certa realidade- surge como um condutor importante à compreensão do sentido da norma e do instituto jurídico, do dever-ser jurídico. Daí conclui-se que a importância dos princípios na Ciência do Direito traduz-se em diretrizes centrais que se inferem de um sistema jurídico e que, após inferidas, a ele se reportam, informando- o120.

Tratando do conceito de princípio, Nelson Saldanha entende que, no caso do direito, os princípios consistem freqüentemente em formulações historicamente consagradas, tias como prescrições fixadas pela prática ou juízos de valor assumidos pela doutrina121.

Antes de se falar no princípio protetor como princípio nuclear do Direito do Trabalho, deve ser destacado que os princípios do Direito do Trabalho são princípios particulares ou peculiares a essa disciplina jurídica, não sendo afastada a aplicação dos princípios gerais do direito no campo dogmático desta ciência jurídica.

Assim, afirma Bobbio que, os princípios gerais são normas fundamentais

ou generalíssimas do sistema, as normas mais gerais 122.

O Direito do Trabalho tem como fundamento para sua existência o trabalhador, orientando-se de forma a trazer sempre a proteção ao trabalhador, quase sempre, a parte mais fraca da relação, ao contrario do Direito Civil que pressupõe a igualdade dos sujeitos em suas relações .

119

ESPÍNDOLA. Ruy Samuel. Conceito de Princípios Constitucionais, São Paulo : Ed. Revista dos tribunais, 1999, p.46-48.

120

DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho, São Paulo: Editora LTr, 2002, p. 181 e 182

121

SALDANHA. Nelson. Filosofia do Direito. Rio de Janeiro : Editora Renovar, 1998, p. 217.

122

O Direito do Trabalho, através do princípio protetor à parte hipossuficiente- que é o trabalhador – visa atenuar no plano jurídico o desequilíbrio e diferenças existentes entre empregado e empregador no plano fático, oriundo do contrato de trabalho.

Esclarece Mauricio Godinho Delgado que, “o principio tutelar influi em

todos os segmentos do Direito Individual do Trabalho, influindo na própria perspectiva desse ramo ao construir-se, desenvolver-se e atuar como direito. Efetivamente, há ampla predominância nesse ramo jurídico especializado de regras essencialmente protetivas, tutelares da vontade e interesses obreiros; seus princípios são fundamentalmente favoráveis ao trabalhador; suas presunções são elaboradas em vista do alcance da mesma vantagem jurídica retificadora da diferenciação social prática. Na verdade, pode-se afirmar que sem a idéia protetivo-retificadora, o Direito Individual do Trabalho não se justificaria histórica e cientificamente 123”.

O princípio protetor se desdobra em mais outros três princípios: a) norma mais favorável; b) in dúbio pro operário; c) condição mais benéfica.

O princípio da norma mais favorável, consiste na existe6ncia de duas ou mais normas, de criação estatal ou não, deve ser aplicada a mais favorável ao trabalhador, não implicando tal procedimento em subversão da hierarquia das leis. Visa tal principio trazer melhores condições sociais ao trabalhador.

O principio do in dúbio pro operário fora uma transposição do princípio in

dúbio pro reo do Direito Penal.

Salienta Godinho Delgado que este princípio atualmente apresenta dois problemas: o primeiro, consiste no fato de que ele abrange a dimensão do princípio da norma mais favorável e a segunda, reside no fato de que ele entra em choque com o princípio jurídico geral da essência da civilização ocidental, hoje, e do Estado Democrático de Direito : o princípio do juiz natural 124.

O princípio da condição mais benéfica consiste no fato de que em uma mesma relação trabalhista, as vantagens já conquistadas não podem ser reduzidas ou suprimidas para os trabalhadores que gozaram de tais vantagens no curso de seus contratos de trabalho.

123

DELGADO. Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho, São Paulo : Editora LTr, 2002, p 193.

124

O princípio da irrenunciabilidade dos direitos, velando pelas normas de proteção de ao trabalhador, veda qualquer renúncia no que tange a esses direitos, salvo em casos especiais e após a cessação do contrato de trabalho.Nesse sentido é que, o principio da irrenunciabilidade ganha expressão na cogencia das leis trabalhistas e tem especifico meio de expressão no artigo 9º da CLT, que comina de nulidade os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar os preceitos nela contidos. A mais autorizada doutrina nacional não admite a renúncia , salvo casos especialíssimos e após cessada a relação de trabalho125.

O princípio da continuidade da relação de emprego tem como corolário que o contrato de trabalho é de trato sucessivo, prolongando-se sua continuidade no tempo na medida em que o empregado vai prestando seu trabalho, sendo que este perdura até que ocorra alguma circunstância que o desfaça. A regra é que o contrato de trabalho é celebrado indeterminadamente, não sendo de execução instantânea.

O princípio da razoabilidade consiste no uso do bom senso e da razão pelas partes.

Pelo principio da primazia da realidade, considerando o que consta dos documentos e o que efetivamente se dá na prática, deve ser levado em conta o que se extrai de real daquela relação.

Inobstante ter se constituído historicamente o direito do trabalho protegendo, primacialmente, o trabalhador, bem como do fato de modernamente ser preocupação do ordenamento jurídico o tratamento de direitos não patrimoniais, no que se refere ao exercício da autonomia da vontade das partes, quanto ao conteúdo e modo do contrato de trabalho, ainda apresenta, a questão do dano moral, inúmeras controvérsias demonstrando ser um terreno pantanoso e movediço126.

No documento Fixação do dano moral ao trabalhador (páginas 78-81)