• Nenhum resultado encontrado

DO PROGRAMA UNL

No documento A nova lingua do imperador (páginas 131-137)

Entre as várias vias de entrada disponív eis para o Programa UNL, a mais interessante talvez seja a oferecida pelo logotipo oficial apresentado acima. Trata-se da criação de um conhecido designer gráfico japonês, Ikko Tanaka, que contempla o desejo último da língua em torno da qual todo o Programa se organiza: o de ser a sétima língua oficial das Nações Unidas, integrando-se às demais por meio de três níveis de representação do significado, ali representados pelas cordas que vinculam os vários nodos, a formar uma rede universal de conhecimento.

Isso não implica dizer que o desdobramento do acrônimo seja elusivo: a UNL não se apresentará apenas como “a” língua das Nações Unidas52, mas como uma língua eletrônica cujo

suporte é a rede mundial de computadores, a Internet, da qual pretende ser um protocolo universal de transmissão de conteúdo. Neste sentido, a iniciativa do Programa UNL persegue, em larga medida, o caminho já trilhado por outras linguagens eletrônicas de codificação de informações, nomeadamente as línguas de marcação em que são vertidas hoje as instruções referentes à formatação e à exibição dos textos disponíveis na Web, como a HTML, a SGML e a XML. No entanto, e diferentemente do que se observa nos casos das línguas de marcação, UNL tem por objetivo codificar, não o modo gráfico de apresentação dos textos, mas o seu próprio conteúdo, que poderia ser então interpretado e processado por interfaces de navegação construídas especificamente para este fim, conformando uma nova geração de browsers capazes de exibir, na língua do usuário, informações originalmente representadas em qualquer língua natural.

52 Concebida originalmente por Hiroshi Uchida e Meiying Zhu, da Universidade das Nações Unidas, em Tóquio, a UNL é atualmente propriedade da ONU, e seu processo de patenteamento está em curso na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).

O Programa UNL teve início em 1996, junto ao Instituto de Estudos Avançados (IAS) da Universidade das Nações Unidas (UNU), em Tóquio, autarquia vinculada diretamente à Assembléia Geral das Nações Unidas, e que era então conduzida por dois brasileiros, Heitor Gurgulino de Souza, reitor da UNU, e Tarcísio Guido Della Senta, vice-reitor e diretor do IAS. O objetivo do Instituto, àquela época, estava relacionado à pesquisa em desenvolvimento sustentável, assim entendida “a transformação, ou a mudança, das práticas e sistemas tecnológicos, econômicos, societários e de estilos de vida, na direção de uma maior sustentabilidade”53. O Instituto contemplava vários programas multidisciplinares de pesquisa,

entre os quais alguns relativos ao uso de novas tecnologias de comunicação e informação para o desenvolvimento sustentável, como a Universidade Virtual, cujo objetivo seria o desenvolvimento de novas ferramentas para apoiar e ampliar a educação, a pesquisa e a disseminação de informações via Internet.

Neste contexto, o Instituto passou a investir em um programa de pesquisa específico, vinculado ao desenvolvimento de uma plataforma de comunicação multilíngüe, que instrumentalizasse, a princípio, o funcionamento da Universidade Virtual. O projeto contemplado, da autoria de Hiroshi Uchida, previa o desenvolvimento de uma língua eletrônica para representação e processamento do conhecimento. O projeto vinha amparado na larga experiência de Uchida junto à Fujitsu, no desenvolvimento do ATLAS -I e do ATLAS-II, então apontados entre os melhores sistemas de tradução automática entre o japonês e o inglês.

O lançamento oficial do Programa ocorreu em agosto de 1996, na sede do Instituto, em Tóquio, quando foram divulgados a missão e o estatuto, e as bases para a cooperação internacional:

The Mission of the UNL Programme is to develop and promote a multilingual communication platform, with the purpose of enabling all peoples to share information and knowledge in their native language. To this end, the UNLP invites individuals and institutions to a collective endeavour of building the UNL system, and of making available to the global community the scientific, cultural, social and economic resources generated by peoples from many different languages.54

53 “[...] the transformation, or shifting, of technological, economic, societal and lifestyle systems and practices towards a path of greater sustainability. Disponível em http://www.ias.unu.edu/research/past.cfm, em 09/09/03

Trata-se, portanto, de uma iniciativa de natureza filantrópica, que esteve associada, desde a origem, ao processo de democratização do acesso às informações que circulam hoje, na Internet, em língua inacessível à composição majoritariamente monoglota e não-anglófona da comunidade mundial. Será importante observar, no entanto, que o objetivo último do Programa, como indicado no texto acima, não seria a tradução automática propriamente dita, mas o compartilhamento de informação e de conhecimento entre os povos por meio de sua própria língua materna.

Integraram o Programa UNL, desde a primeira hora, a Sociedade Científica Real da Jordânia; o Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento Industrial da Microeletrônica e da Computação (CCID) do Ministério da Indústria e da Informação da República Popular da China; o Laboratório GETA-CLIPS, da Universidade Joseph Fourier, e o CNRS, da França; o Instituto para Ciências Aplicadas à Informação, de Saarbrücken, na Alemanha; o Instituto Indiano de Tecnologia de Bombaim, na Índia; o Diretório para Tecnologia em Informática e Eletrônica da Agência para Avaliação e Aplicação de Tecnologia (BPP Teknologi), da Indonésia; o Instituto de Lingüística Computacional de Pisa, e o CNRS, da Itália; o Instituto de Matemática e de Ciência da Computação da Universidade da Letônia; a Universidade Estadual Pedagógica da Mongólia; a Universidade de São Paulo, em São Carlos, Brasil; o Instituto para Problemas de Transmissão de Informações da Academia de Ciências da Rússia; a empresa STAR SPB Ltd, de São Petersburgo, na Rússia; a Universidade Politécnica de Madri, na Espanha; e o Centro Nacional para Tecnologia de Computação e Eletrônica da Tailândia. Além dessas instituições, muitos outros pesquisadores, de forma isolada, integram a Sociedade UNL, comunidade virtual de pesquisa, de acesso público, que disponibiliza aos membros, gratuitamente, mediante assinatura de termo de compromisso, todo o ferramental utilizado para a produção do Sistema UNL.

A diversidade dos participantes fez que o Programa se tornasse a maior iniciativa de processamento automático multilíngüe de que se tem notícia. Estavam representados: o indo- europeu (português, espanhol, francês, italiano, inglês, alemão, russo, letão, hindi), o semítico (árabe), o sino-tibetano (chinês), o uralo -altaico (mongol), o malaio -polinésio (indonésio) e o japonês. O número de grupos filiados ao Projeto tem variado bastante ao longo dos anos, principalmente em função dos problemas de financiamento local. Atualmente estão ativos grupos que representam pelo menos 12 línguas: o português, o espanhol, o francês, o italiano, o russo, o hindi, o marathi, o japonês, o inglês, o thai e o árabe.

A cada grupo de pesquisadores vinculados a uma língua – chamado Centro Lingüístico (Language Center) – correspondem basicamente três atividades: a de desenvolvimento de um dicionário bilíngüe e bidirecional UNL- língua natural; a de desenvolvimento de uma gramática de análise de língua natural para UNL; e a de desenvolvimento de uma gramática de geração de UNL para língua natural. Os protocolos de desenvolvimento de cada um desses módulos são sugeridos pelo Centro UNL (UNL Center), que disponibiliza um conjunto de ferramentas básicas para criação de dicionários e para compilação das gramáticas de geração e análise. Cada grupo é livre, no entanto, para fazer uso dos recursos próprios disponíveis. É o que se observa, por exemplo, no grupo GETA-CLIPS, da Universidade Joseph Fourier, de Grenoble, França, que vem utilizando a UNL como um módulo adicional do sistema multilíngüe que já vinha sendo desenvolvido, o ARIANE. Da mesma forma, o Centro UNL-Russo, do Laboratório de Lingüística Computacional, do Instituto para Problemas de Transmissão de Informação, da Academia de Ciências da Rússia, integra o desenvolvimento das componentes UNL à plataforma multilíngüe ETAP-3, de tradução entre russo e inglês.

Ao longo dos três primeiros anos do Programa – de 1996 a 1999 – os esforços foram concentrados no processo de geração, para língua natural, de documento s codificados manualmente em UNL. A partir de 2000, passaram a ser observadas, mas de maneira irregular, iniciativas de codificação automática e semi-automática de língua natural para UNL. O processo de produção de recursos é geralmente baseado em corpus. O UNL Center arbitra um conjunto de textos a serem gerados em língua natural, que servem de partida para o trabalho de todos os grupos. Em 1997, elegeu-se, como corpus, o texto do próprio panfleto de divulgação do Programa; em 1998, trabalhou-se sobre a Carta das Nações Unidas (UN Charter); em 1999, o corpus versava sobre esportes; em 2000, era constituído de textos sobre futebol; a partir de 2001, foram trabalhados os textos referentes às notícias da UNDL Foundation.

Desde 1999, o Programa vem enfrentando sérios problemas de financiamento. A maior parte dos grupos era co-financiada pelo próprio Instituto de Estudos Avançados, que era, por sua vez, patrocinado por instituições e personalidades japonesas. Com a crise que se abateu sobre a economia do Japão em 1998, os investimentos refluíram consideravelmente, e o Programa passou a depender, de forma quase exclusiva, das contrapartidas locais de agências públicas e privadas de fomento e apoio à pesquisa e ao desenvolvimento.

Como produto dessas restrições orçamentárias, e também por força da renovação política dos cargos da Universidade das Nações Unidas, o Programa desvinculou-se do Instituto de Estudos Avançados em janeiro de 2001, e passou a ser conduzido por uma fundação criada especificamente para este fim, a UNDL Foundation, sediada em Genebra, Suíça, que tem sido desde então responsável pela captação de recursos e pela direção executiva do Programa.

Ao longo dos últimos seis anos, foram realizados vários simpósios, workshops e congressos para a divulgação e o desenvolvimento do Programa UNL. Após o evento de lançamento (Universidade das Nações Unidas, Tóquio, 1996), foram realizados simpósios internacionais na sede da Unesco, em Paris (1997); na sede da ONU, em Nova Iorque (1998); na sede da Comunidade Européia, em Bruxelas (1999); e na sede da UNDL Foundation, em Genebra (2001). O I Congresso Internacional sobre a UNL ocorreu em novembro de 2001, em Suzhou, na China; o II Congresso foi realizado em novembro de 2002, em Goa, na Índia; o III Congresso foi oferecido pela Bibliotheca Alexandrina, em Alexandria, no Egito. As discussões técnicas têm também ocorrido nos vários workshops internacionais: Beijing (China, 1997), Curitiba (Brasil, 1997), Madri (Espanha, 1998), Phuket (Tailândia, 1998), Beijing (China, 1999) e Perúgia (Itália, 1999).

O Brasil, que acompanha desde o inicio o desenvolvimento do Programa, é a sede do centro de pesquisa e desenvolvimento para a língua portuguesa e representa, por ora, toda a comunidade lusófona. O Centro Português, dirigido por Eduardo Tadao Takahashi, está associado ao Núcleo Interinstitucional de Lingüística Computacional (NILC), que vincula pesquisadores da Universidade de São Paulo, em São Carlos, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara. Mais recentemente, em setembro de 2002, foi criado o Instituto UNDL Brasil, sediado em Florianópolis, Santa Catarina, que também vem conduzindo o desenvolvimento de aplicativos em UNL.

No documento A nova lingua do imperador (páginas 131-137)