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Do que é feita a Caatinga? De realidade ou de mapas?

1.1 Instituição escola, um lugar comum: o trabalho com saberes e a sedentarização

II. O NORDESTINO, O QUE A IDENTIDADE FAZ COM ELE E O QUE ELE TEM FEITO COM O ESPAÇO: EXPERIÊNCIAS DE

2.4 Os espaços que se inventam e “os outros” do nordeste: a regulação da errância e os domínios educativos

2.4.2. Do que é feita a Caatinga? De realidade ou de mapas?

Aprender a ler o mundo através das apresentações geográficas é compreender que a “realidade” não existe a não ser a partir da linguagem. Pensemos na linguagem cartográfica ou qualquer outra linguagem e seus enunciados verbais e visuais. Em geral, pensa-se que é pela linguagem que representamos o mundo. Se pensada assim, as linguagens são formas de descrição do mundo e, desse modo, a realidade precederia a linguagem. Aí esperaríamos que um significante nos representasse.

Mas as linguagens, como as linguagens gráficas, por exemplo, não se limitam a descrever e explicar o mundo; a linguagem é constitutiva de práticas. O mapa não é somente uma representação, uma imagem, um reflexo da realidade, porque se assim fosse um mapa suporia que há fora dele um espaço pronto, preexistente, que ali está descrito como o estaria em qualquer outro mapa do mesmo espaço – e todos os mapas deveriam ser idênticos “e, além disso, deveriam se confundir com a própria

materialidade que lhe serviu de original. Um mapa é sempre diferença e nunca repetição do mesmo” (VEIGA-NETO, 2010)20.

Isso indica que mapear um espaço ou ler um espaço através do mapa e/ou outras enunciações implica inevitavelmente na sua produção. O lugar e as situações geográficas que pensamos ser representadas pelo mapa são, na verdade, produto de um entrelaçamento de linguagens. O mapa do Bioma da Caatinga na Região Nordeste do Brasil, por exemplo, representa um conceito de classificação paisagística criada pelo homem. Então, a suposta representação gráfica de uma unidade natural, de um índice, é criação de uma noção particular, por exemplo, de ecossistema da Caatinga do Nordeste brasileiro.

Vejamos um exemplo do que pôde ser considerada como a região semi-árida nordestina.

20 Contribuições apresentadas pelo prof. Alfredo Veiga-Neto, membro da banca examinadora, na ocasião da defesa desta dissertação.

Figura 6. Neste mapa a idéia de que a realidade não pré-existe às suas representações ou ainda a concepção de que o mapa não representa o espaço é bastante clara, pois os “rios” representados por traços mais espessos não existem, trata-se de um mapa de simulação; aqueles são canais fluviais previstos num projeto de transposição do Rio São Francisco, trata-se, portanto, de um mapa visionário (de um lugar utopia). Fonte: Magnoli e Araujo (2005, p. 357).

Figuras 7 e 8: Na enunciação visual do capítulo “Políticas territoriais: Nordeste” de um livro didático, o “semi-árido nordestino” é uma grande área homogênea, abrangida pelo polígono representado no mapa, com condições climáticas e ecológicas propícias ao fenômeno da seca, como a mostrada na foto. O texto que o acompanha vai apresentar que “o Polígono, aparentemente constituído em função da geografia física, constituía na verdade um produto do poder político dos “coronéis” nordestinos”. Isto significa que hoje sabemos que a área mapeada e que a foto a ela correspondente não representam o ambiente de toda esta área.

Fonte: Magnoli e Araujo (2005, p. 346 e 347).

A noção de “Nordeste” é gerada freqüentemente pela espacialidade física mostrada intensamente pela cartografia, e por imagens que mostram um ambiente castigado pela seca e a exoticidade dos nordestinos capturadas pelo olhar do estrangeiro.

Podemos dizer que o exemplo do “polígono da seca” se inscreveu no interior de práticas discursivas e de acordo com um certo regime de verdade , o que significa que estamos sempre falando segundo regras, obedecendo a um conjunto de regras e afirmando verdades de um tempo. Quando os livros, a televisão, o cinema se apropria de um discurso dos “coronéis” sobre o espaço nordestino, estas materialidades falam e fazem falar (colocam em repetição e circulação) esse discurso, falam e fazem falar um discurso segundo algumas de suas regras que fixaram enunciados sobre a região nordeste e a figura do nordestino. Apoiada no conceito foucaultiano de prática discursiva e sua relação com o enunciado, Rosa Fisher ajuda a pensar o exemplo do discurso do “polígono da seca” como vinculado a

um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou lingüística, as condições de exercício da função enunciativa (FOUCAULT apud FISHER, 2001, p. 204).

Figuras 9 e 10: Mapas que compõem o capítulo “Pobreza e exclusão social”, nos subitens “Pobreza e desenvolvimento humano” e “A geografia da pobreza”, de um livro didático de “Geografia do Brasil”. Fonte: Magnoli e Araujo (2005, p. 278 e 279).

As imagens revelam um mapeamento das oposições, em especial entre duas áreas do Brasil (a centro-sul e a nordeste) e a centralidade econômica nos seus temas. Observa-se um conceito de território fundado sobre a construção de fronteiras e que depende da construção de um “outro” e de uma oposição rígida entre o dentro e o fora. Observa-se também que há um privilégio dos aspectos econômicos nas temáticas dos mapas, cujas fontes dos dados advém do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do governo federal, que autoriza a classificação e hierarquização destes territórios – lembramos aqui que as materialidades dos enunciações obedecem ordens das instituições. Assim como já mencionamos que a mobilidade social é vista como o motivo principal da migração nas análises geográficas, os temas escolhidos para estes mapeamentos destacam os índices básicos de um modelo de sociedade medido pela sua capitalização, ao invés dos aspectos históricos, culturais e geográficos. Assim, vai tornando-se possível configurar “uma cartografia cujas coordenadas são traçadas para territorializar os espaços por meio de significados culturais” (TONINI, 2006).

Mas as apresentações que continuamente dão significação e produzem espaços e povos não fazem parte só do funcionamento biopolítico do currículo escolar, muitas

outras apresentações de imigrante atravessam nosso cotidiano. Por isso é importante relativizar o papel da escola e das enunciações oficiais na construção de noções de imigrante e de identidade espacial.