2.1 DIREITOS SUBJETIVOS: DA CONQUISTA AO RECONHECIMENTO
2.1.1 Do reconhecimento de si ao reconhecimento do outro
A formação da identidade do indivíduo ou do grupo social depende do reconhecimento recíproco ou da luta por ele, no caso do mesmo ter sido
desrespeitado, negado ou violado, ou, em outras palavras, quando se constituem expectativas normativas não concretizadas.
Ao colocar-se como receptor da ação que infligiu ao outro, numa perspectiva excêntrica, o indivíduo obtém as condições de surgimento da autoconsciência, ou seja, a “capacidade de suscitar em si o significado que a própria ação tem para o outro”. (HONNETH, 2003, p. 129). A autoconsciência estaria intimamente relacionada, ou melhor, dependente, da percepção da existência de outro sujeito, como propunha Hegel. Para Honneth, apoiado em Mead, somente a partir dessa posição excêntrica o indivíduo seria capaz de estabelecer sua conduta moral, ampliada na medida em que aumenta seu círculo de parceiros de interação e as expectativas normativas de comportamento se universalizam.
Contribui com este aspecto a fala de Hermann (2014), quando acrescenta que é na relação com o outro que o indivíduo pode reconhecer-se e reconhecê-lo. Embora pareça tarefa simples, não o é, pois exige estar aberto verdadeiramente ao desconhecido e ao inusitado que o outro provoca.
Olhar o diferente enquanto particular, sem qualquer graduação ou preconceito, permite enxergar aquilo que não estava visível ou, conforme Hermann (2014), acessível. Abrir-se para essa experiência exige, portanto, o rompimento com padrões idealizados e dualistas (bom/ruim, feio/belo, normal/anormal) e, sobretudo, entrega. Por meio da entrega é possível olhar verdadeiramente o outro e entender sua pretensão, reconhecendo-a numa pluralidade de aspirações da qual se pode partilhar, numa espécie de mundo comum.
São essas relações de interdependência que compõem a configuração social sociedade-indivíduos. Afinal, “[...] se não convergimos em relação ao outro, como podemos construir um mundo comum e reconhecer normas com validade universal? Como podemos fazer justiça à singularidade do outro?” (HERMANN, 2014, p. 486).
Para Hermann (2014, p. 488), a resposta está no diálogo que busca um horizonte comum e não o consenso, pois “[...] só podemos entender o outro porque temos a capacidade de nos colocar no seu lugar, ter a percepção de suas expectativas [...]”.
Não é um diálogo falso, numa posição niveladora ou que absorve o outro, mas sim numa posição que permite a elaboração de novas formas de pensar as exigências e anseios que se colocam diante do coletivo e a emergência de novas compreensões acerca do outro.
Através do diálogo, presente nas relações intersubjetivas, seria possível e desejável perceber o outro e entender suas expectativas.
O diálogo autêntico, aquele em que nos implicamos e do qual não sabemos o que resultará, apresenta a possibilidade de criarmos um mundo comum, decisivo para a ética em educação, pois permite o convívio, o acolhimento e a expansão de nossa própria individualidade. (HERMANN, 2014, p. 491).
Quanto mais relações os indivíduos estabelecem entre si, mais tendem a reconhecer as relações de interdependência que compõem a configuração social sociedade-indivíduos e a prospectar pretensões comuns. Essa compreensão de diálogo é também discutida por Gadamer (2011) na primeira parte da obra “Verdade e Método”. Para o filósofo é o autêntico diálogo que está no centro do processo de formação humana. As relações que o sujeito estabelece quando em diálogo com o outro, a partir da abertura, possibilita o estabelecimento de sentido à experiência vivida e vai conduzindo sua autoformação, um aspecto que é fundamental para compreender também o processo pedagógico.
A universalização de pretensões advindas da coletividade nem sempre se tornam normas jurídicas, mas se tornam normas sociais introjetadas de tal modo que controlam a reação dos indivíduos, como mencionou Reale. Honneth a explica como sendo a sintetização das expectativas de todo um grupo social, a partir do seguinte exemplo:
[...] assim como a criança, com a passagem para o game adquire a capacidade de orientar seu próprio comportamento por uma regra que ela obteve da sintetização das perspectivas de todos os companheiros, o processo de socialização em geral se efetua na forma de uma interiorização de normas de ação, provenientes da generalização das expectativas de comportamento de todos os membros da sociedade. Ao aprender em si mesmo as expectativas normativas de um número cada vez maior de parceiros de interação, a ponto de chegar à representação das normas sociais de ação, o sujeito adquire a capacidade abstrata de poder participar nas interações normativamente reguladas de seu meio; pois aquelas normas interiorizadas lhes dizem quais são as expectativas que pode dirigir legitimamente todos os outros, assim como quais são as obrigações que ele tem de cumprir justificadamente em relação a eles. (HONNETH, 2003, p. 135).
Inserido no todo social, ao aprender a assumir as normas sociais de outrem, o indivíduo estará apto a desenvolver plenamente sua identidade, uma vez que são as relações intersubjetivas que favorecem tanto o reconhecimento individual quanto o reconhecimento mútuo dentro de sua coletividade, o que explica o conceito de reconhecimento empregado por Honneth.
Percebe-se que quando o indivíduo ou os grupos sociais se acham desrespeitados, sob a forma de violação ou privação, sua integridade social é atingida, sua autorrelação prática fica comprometida e os demais membros da comunidade político-jurídica são afetados. Decorre disso o entendimento de que a formação de suas identidades só poderá ocorrer mediante luta moral. Ainda, nas palavras de Salvadori:
As mudanças sociais podem ser explicadas por meio do desrespeito, gerador de conflitos sociais. Os conflitos surgem do desrespeito a qualquer uma das formas de reconhecimento, ou seja, de experiências morais decorrentes da violação de expectativas normativas. A identidade moral é formada por essas expectativas. Uma mobilização política somente ocorre quando o desrespeito expressa a visão de uma comunidade. Portanto, a lógica dos movimentos coletivos é a seguinte: desrespeito, luta por reconhecimento, e mudança social. (SALVADORI, 2011, p. 192).
Mead e Hegel, segundo a leitura feita por Honneth (2003), concordam que o indivíduo que aprende a conceber-se pela perspectiva do outro é capaz de perceber- se também como uma pessoa de direito. Assim, aprende sobre suas obrigações em relação aos demais e sobre os direitos que lhe pertencem, uma vez que os direitos representam suas pretensões tornadas concessões sociais pela coletividade e pela norma jurídica.
Ao ver-se reconhecido pela sociedade através da concessão de direitos, o sujeito adquire valor social sobre si mesmo ou autorrespeito, como prefere Mead. Entretanto a base para o autorrespeito vai além da concessão de direitos, residindo na manutenção da palavra e no cumprimento das obrigações atinentes aos princípios jurídicos. Para Honneth, a distribuição dos direitos é insuficiente para assegurar o reconhecimento.
[...] reconhecer-se reciprocamente como pessoa de direito significa que ambos os sujeitos incluem em sua própria ação, com efeito de controle, a vontade comunitária incorporada nas normas intersubjetivamente reconhecidas de uma sociedade. Pois, com a adoção generalizada da perspectiva normativa do “outro generalizado”, os parceiros de interação sabem reciprocamente quais obrigações eles têm de observar em relação ao respectivo outro; por conseguinte, eles podem se conceber ambos, inversamente, como portadores de pretensões individuais, a cuja satisfação seu defrontante sabe que está normativamente obrigado. A experiência de ser reconhecido pelos membros da coletividade como uma pessoa de direito significa para o sujeito individual poder adotar em relação a si mesmo uma atitude positiva; pois, inversamente, aqueles lhe conferem, pelo fato de saberem-se obrigados a respeitar seus direitos, as propriedades de um ator moralmente imputável. (HONNETH, 2003, p. 138-139).
Ser reconhecido, numa perspectiva integral, significa não somente o reconhecimento enquanto membro de uma coletividade, mas também em sua identidade, visto que para o sujeito formar sua identidade moral não basta que seja reconhecido pela perspectiva do outro, mas também que seja reconhecido em sua individuação. O conflito normal encontra-se aí, pois o sujeito precisa ter sua vontade assentida pelos demais para que possa pôr em prática sua exigência íntima. Neste caso, opta por engajar-se em novas formas de reconhecimento social, buscando um reconhecimento mais abrangente de direitos através do qual possa sentir-se publicamente assumido.
A partir desta perspectiva jurídica ampliada, o indivíduo persegue reiteradamente as suas pretensões espontâneas e o assentimento coletivo, numa expectativa de conquista de um número maior de direitos e de ampliação de relações de reconhecimento.
A espécie de confirmação de que depende um tal sujeito não pode, por isso, ser aquela que ele encontra como portador de direitos e deveres normativamente regulados; pois as propriedades que lhe são adjudicadas como pessoa de direito, ele as partilha justamente como todos os outros membros de sua coletividade. (HONNETH, 2003, p. 148).
O indivíduo precisa ter sua particularidade confirmada e isso se dá através das relações intersubjetivas, quando consegue perceber seu valor para a coletividade e também para sua própria realização individual, alcançando um reconhecimento recíproco pleno. Luta então pelo reconhecimento de suas pretensões jurídicas, pois delas se têm expectativas às quais correspondem os direitos objetivos e os direitos subjetivos, mas, sobretudo pela garantia de que as pretensões jurídicas asseguradas coadunem com as condições necessárias para a autorrealização individual. Para Honneth, a luta social seria a força estruturante do desenvolvimento moral da sociedade.
São as lutas moralmente motivadas de grupos sociais, sua tentativa coletiva de estabelecer institucional e culturalmente formas ampliadas de reconhecimento recíproco, aquilo por meio do qual vem a se realizar a transformação normativamente gerida das sociedades. (HONNETH, 2003, p.155).
De forma específica – e para fins desse estudo, que busca entrelaçar o direito à educação às culturas de intervenção pedagógica que o legitimam ou não –, a forma de reconhecimento do direito e da estima social são aquelas a que corresponderiam não somente os direitos subjetivos, mas especialmente o direito à
educação, pela perspectiva que se propõe discutir aqui. Ambas seriam explicadas pelo mesmo mecanismo de reconhecimento recíproco, ou seja, quando o indivíduo percebe-se portador de direitos, observa que tem deveres com relação ao outro na medida em que, reconhecendo a si próprio, reconhece também o outro como portador de direitos.
Essa perspectiva excêntrica cria no indivíduo a segurança do cumprimento coletivo de uma pretensão individual, especialmente nas sociedades modernas, nas quais as relações jurídicas se estendem, por princípio, a todos os seres humanos, seres livres e iguais, não mais obedecendo a critérios de posses de bens ou de posição social.
[...] com a passagem para a modernidade, os direitos individuais se desligam das expectativas concretas específicas dos papéis sociais, uma vez que em princípio eles competem de agora em diante, em igual medida, a todo homem na qualidade de ser livre, então já é dada com isso uma indicação indireta acerca do novo caráter do reconhecimento jurídico. (HONNETH, 2003, p. 183).
Para tornar claro esse entendimento, com a modernidade, “[...] o sistema jurídico precisa ser entendido de agora em diante como expressão dos interesses universalizáveis de todos os membros da sociedade, de sorte que ele não admita mais, segundo sua pretensão, exceções e privilégios”, o que definiria cada sujeito humano como um membro da sociedade e, portanto, portador de direitos. (HONNETH, 2003, p. 180-181).
O ser humano deixa de ser reconhecido pela estima social em função de suas realizações, de seu caráter (honra) ou de suas propriedades particulares para ser reconhecido juridicamente, numa propriedade universal. Esse desacoplamento constitui o argumento teórico inicial para a discussão proposta, uma vez que, com o não privilégio, o direito de todos estaria salvaguardado e sua aplicação seria feita na mesma medida de igualdade.
[...] a estrutura do reconhecimento jurídico tornou-se um pouco mais transparente: confluem nela, por assim dizer, duas operações da consciência, uma vez que, por um lado, ela pressupõe um saber moral sobre as obrigações jurídicas que temos de observar perante pessoas autônomas, ao passo que, por outro, só uma interpretação empírica da situação nos informa sobre se se trata, quando a um defrontante concreto, de um ser com a propriedade que faz aplicar aquelas obrigações. Por isso, na estrutura do reconhecimento jurídico, justamente porque está constituída de maneira universalista sob as condições modernas, está infrangivelmente inserida a tarefa de uma aplicação específica à situação: um direito universalista válido deve ser questionado, à luz das descrições empíricas da situação, no sentido de saber a que círculo de sujeitos ele deve se aplicar, visto que eles pertencem à classe das pessoas moralmente imputáveis.
Nessa zona de interpretações da situação referida à aplicação, as relações jurídicas modernas constituem, como veremos, um dos lugares em que pode suceder uma luta por reconhecimento. (HONNETH, 2003, p. 186).
Não estando mais ligado ao status ou à honra, o direito moderno legitima-se no assentimento livre e na obediência individual e racional de todos os indivíduos, bem como na disposição moral para a assunção da ordem jurídica. A pressão de uma luta por reconhecimento exige a efetivação do princípio de igualdade universal, independente das disposições econômicas, por exemplo.
Diante da imputabilidade moral referida e de novas situações sociais conflitantes em que o sujeito se sinta lesado, cabe ao mesmo a ampliação de suas pretensões jurídicas e a luta pelo reconhecimento de seus direitos. Dito de outro modo, a extensão de propriedades universais das quais se considera digno.