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Do relacionamento com a equipe multiprofissional e o lugar ocupado

CAPÌTULO II – A PESQUISA: DESVELANDO AS SITUAÇÕES DE

2. Os Achados da Pesquisa

2.3 O Serviço Social e o Atendimento às Situações de Negligência

2.3.5 Do relacionamento com a equipe multiprofissional e o lugar ocupado

O assistente social, compreendido aqui como um profissional legitimado e inscrito na divisão sociotécnica do trabalho, detentor de um saber profissional específico e amparado por seu Código de Ética Profissional e pela Lei de Regulamentação da Profissão, apresenta como direito, dever e responsabilidade posicionar-se diante das mais diversas demandas a ele apresentadas, fazendo uso do repertório construído ao longo do percurso da profissão.

No que tange ao relacionamento com os demais profissionais, vale identificar de que maneira a profissão se identifica e se apresenta frente às demandas a ela direcionadas, permitindo, assim, traduzir, a partir de suas respostas, quais são seus posicionamentos, dilemas e embates, em um campo que, além de teórico, é também político e ideológico.

Especialmente nas situações compreendidas como de negligência, perguntamos aos sujeitos entrevistados se outros profissionais também utilizavam esse conceito, e, assim como já apontamos, a resposta afirmativa indicou ser esse um conceito compartilhado por outros profissionais.

Percebe-se que o principal profissional interlocutor do assistente social, nessas situações, é o(a) psicólogo(a), que também está inserido(a) nas esferas jurídicas, de saúde, e em menor escala, da assistência social, compartilhando muitos atendimentos com o Serviço Social. Segundo os sujeitos que apresentam interlocução com esse profissional, é baixo o nível de divergência entre os pareceres de identificação de situações de negligência, já que os profissionais afirmaram apresentar um diálogo estabelecido e positivo com a Psicologia, nessas situações.

Apesar de a maioria dos entrevistados preocupar-se com os rebatimentos para a família, após a categorização de negligência, percebe-se um dado que merece destaque, no campo sociojurídico. Ao mesmo tempo em que localizamos preocupação com as consequências de uma intervenção profissional, uma vez reconhecida a dimensão de uma decisão judicial para as famílias, notamos que, quando há situações de divergência de conduta entre os profissionais, a decisão, que fica a cargo do juiz, parece não mais ser de responsabilidade do assistente social.

Por exemplo, eu considero que uma mãe é negligente, e a Psicologia não vê; isso vai ser colocado em relatório e encaminhado ao juiz, para que ele decida. (Sujeito J2).

A partir dessa conduta, percebe-se a fragmentação do atendimento, a não possiblidade de exercê-lo em sua totalidade, fracionando também o sujeito que está sendo submetido a esse modelo de atendimento, conforme problematiza Barroco (2012, p. 81):

[...] se o usuário passa por diferentes profissionais e não é atendido em suas necessidades, o resultado da ação profissional é a não viabilização de suas necessidades acrescida de situações de humilhação e constrangimento. Nesse sentido, de quem é a responsabilidade? Do último que atendeu? Da instituição? Vê-se assim o quanto a fragmentação e a hierarquização institucional podem facilitar a desresponsabilização de um conjunto de profissionais em face do produto e das consequências do atendimento realizado nas instituições.

Mesmo reconhecida que a estruturação dos serviços públicos (geralmente burocratizada e segmentada) é uma condição posta ao assistente social, e que certamente interfere em sua autonomia, com possibilidades parciais de realização, o que se torna relevante apontar é a ausência de crítica a esse modelo, em que a “[...] responsabilidade de cada profissional termina quando um caso atendido é passado para outro profissional”. (BARROCO, 2012, p. 81).

Essa fala mostrou-se mais evidente nos profissionais inseridos na esfera do campo sociojurídico, o que nos leva a apreender que a tradicional estrutura desse aparelho ainda tende a considerar os pareceres dos assistentes sociais e dos psicólogos48 como produtos finalizados e subsidiários

à determinação judicial, sem superar a fragmentação do conhecimento.

Já os dois profissionais inseridos na esfera da saúde, que trabalham em equipe multidisciplinar, relataram que, para além do relacionamento com a Psicologia, onde há maior troca de impressões sobre as situações de negligência, o relacionamento com os demais profissionais que compõem a equipe não apresenta a mesma dinâmica. Para ambos os entrevistados, coexistem falas e impressões dos demais profissionais acerca de possíveis situações de negligência, entendidas pelos assistentes sociais como compreensões ainda preconceituosas:

E, para mim, tem ainda uma visão muito elitizada das coisas, e muitas vezes preconceituosa, por parte dos demais profissionais [...] Então, o pobre, muitas vezes, ou é muito coitadinho, ele não é cidadão, ele é um coitado. Ou é o pobre vilão, que é vagabundo mesmo, que é pobre porque quer, por falta de esforço. (Sujeito S1).

E, ainda:

Um tom muito acusatório, por parte de alguns profissionais [...] O que eu sinto é assim, entre eu e a psicóloga, existe um trabalho, a gente usa esse conceito (negligência) e tenta discutir o caso. Pelos outros profissionais não, eles só encaminham, mandam para o Serviço Social. (Sujeito S2).

Esse é um fator relevante que merece destaque na análise, pois, conforme já pontuado, diferentemente dos profissionais inseridos no Judiciário, que já recebem as situações denominadas como de negligência, e dos profissionais da Assistência Social, que atuam em equipes compostas exclusivamente por assistentes sociais, os profissionais de Serviço Social que atuam na Saúde lidam diariamente com as expectativas diretas dos demais profissionais, que, ao identificarem uma situação considerada como de negligência, “encaminham” ao Serviço Social e aguardam, desse profissional, as condutas que são interpretadas por eles como as de conveniência, a partir de seus repertórios teóricos e morais.

Em certa medida, nota-se a desresponsabilização de parcela dos profissionais da saúde, e consequente sobrecarga do assistente social, quando outros membros da equipe, ao identificarem uma situação considerada como de negligência, “apenas encaminham ao Serviço Social”, sem demonstrar qualquer outro tipo de envolvimento:

É muito difícil, às vezes, os profissionais vem relatando determinada situação, mas não querendo relatar, ou não querendo que o Serviço Social tenha uma atuação mais assertiva. (Sujeito S1).

Tal situação representa emblemas ao Serviço Social, pois ao mesmo tempo em que a equipe não assume, muitas vezes, junto com o Serviço Social, a notificação de uma situação de negligência (motivada por diversos fatores, como medo de ameaças, receio da perda do vínculo com a família, etc.), a mesma equipe tende a cobrar do assistente social alguma conduta:

Porque alguns já colocam que é negligência a ausência da vacina, então, o atraso na vacina tem isso: “É negligência, essa família tem que ser ameaçada, coagida”. E a gente vai com

outra fala, para tentar entender e esclarecer para a família a importância da vacinação, e aí tem aquela coisa da obrigatoriedade, ou não, de aspectos culturais também. (Sujeito S1, grifos nossos).

Para além da cobrança de uma conduta específica, nota-se que há, ainda, no imaginário da equipe e incorporada a partir do histórico da profissão, uma compreensão do Serviço Social ainda bastante difusa.

Uma vertente diz respeito à correlação do assistente social com o profissional da ajuda, da caridade, exemplificado nesta fala:

Sabe, vem demanda da equipe para o Serviço Social conseguir cama, conseguir alguma coisa, porque os profissionais nem sabem falar benefício, é para conseguir alguma ajuda. (Sujeito S1).

Outra compreensão diz respeito ao imaginário do profissional da coerção:

Alguns profissionais já têm a visão do Serviço Social como um profissional da coerção, que tem que, na medida em que viu a situação, fazer a notificação, para que aquela família seja punida. (Sujeito S2).

Para essa questão, pode-se recorrer à importante discussão que Iamamoto (2008, p. 42) faz:

Na tentativa de explicar o que unifica a demanda do Assistente Social em programas multifacetados, pode-se levantar a seguinte hipótese, que direciona as reflexões que se seguem: o Assistente Social é solicitado não tanto pelo caráter propriamente “técnico-especializado” de suas ações, mas antes e basicamente, pelas funções de cunho “educativo”, “moralizador” e “disciplinador” que, mediante um suporte administrativo-burocrático, exerce sobre as classes trabalhadoras, ou, mais precisamente, sobre os segmentos destas que formam a “clientela” das instituições que desenvolvem “programas sócio-assistenciais”. Radicalizando uma característica de todas as demais profissões, o Assistente Social aparece como o profissional da coerção e do consenso, cuja ação recai no campo político. (grifos da autora).

Ou seja, o que se percebe é que, para além de um descompasso entre as reais atividades pertinentes ao assistente social e a expectativa dos demais profissionais que compõem a equipe, a função de punir e a ação disciplinadora

incontestavelmente recaem para o Serviço Social, que “[...] derivada de sua trajetória histórica e constantemente atualizada” (IAMAMOTO, 2008, p. 42), pode assumir tais funções, de forma acrítica.

O que se apreende é um movimento repleto de contradições e embates, já que, ao mesmo tempo em que alguns profissionais apresentam a crítica sobre essa forma de atuação e posicionamento do Serviço Social, que remonta a um passado entendido como superado pela profissão, os mesmos profissionais demonstram, em suas práticas, condutas que preveem o estabelecimento de “acordos”, “prazos”, “comportamentos”, que, no limite, impõem aos sujeitos atendidos determinados tipos de respostas, pré- estabelecidas pelos profissionais como necessárias para superação de determinadas situações.

Em relação às situações de negligência:

[...] se já foram feitas várias intervenções, aí o Serviço Social também orienta, são os prazos que a gente dá, são os acordos que a gente faz com a família, quando todas essas possibilidades se esgotam, aí a gente pensa em acionar o serviço de proteção. (Sujeito S1).

Ainda sobre as orientações e os encaminhamentos para a família, em relação às situações de negligência:

Mas aí, a gente fala que ainda é pouco o que ela (mãe) está fazendo, o que a gente pode fazer para ajudar, mas existem situações em que eu não posso estar lá, na casa dela, pegar na mão e levar no Caps, então, se ela não me traz o comprovante que ela foi... (Sujeito J2)

Assim, o que se percebe é a necessidade de enfrentamento dessa forma de intervenção, por parte dos assistentes sociais, com a necessária reflexão e elaboração criativa de outras formas de atendimento que possam acessar a esfera do direito, porém que não impliquem conduta que possa beirar o autoritarismo, o controle e a “prescrição” de comportamentos morais.

Vale ressaltar que tal reelaboração da prática não aparenta ser de fácil construção, uma vez já incorporada tal metodologia de atendimento, condicionada também a uma rotina de intervenções que tende a cada vez mais

se configurar em âmbito individual e restrito, fragmentado, distanciando-se da perspectiva do coletivo.

O lugar ocupado pelo assistente social, em cada organização, revelou tanto a trajetória coletiva da profissão, que carrega consigo seus avanços e retrocessos, como a construção diária, de cada profissional, do que entende por Serviço Social. Assim, avaliamos que a oscilação entre os sujeitos sobre maior ou menor questionamento acerca das demandas atribuídas ao Serviço Social, nas situações tidas como de negligência, estão relacionadas tanto ao amadurecimento da profissão em cada organização quanto ao posicionamento crítico (em maior ou menor intensidade) desses sujeitos frente a essas questões.

Neste aspecto, ainda, o que se pode afirmar é que, enquanto alguns profissionais apresentaram postura voltada para ação de cunho mais conservador, outros demonstraram uma perspectiva mais crítica, com maior tendência a apresentar respostas profissionais com tom questionador.

Ressaltamos que essas variações percebidas nas falas dos sujeitos demonstram o vasto campo existente entre práticas mais alienadoras e práticas mais emancipatórias, pois um mesmo sujeito, em diferentes momentos, pode transitar por esses extremos, como percebido por meio das entrevistas. Com a recusa de absolutizar as ações profissionais percebidas por nossos sujeitos, pode-se afirmar que a maior parte dos entrevistados demonstrou inquietação sobre o lugar ocupado pelo Serviço Social nas instituições em que trabalham, demonstrando criticidade e incômodo ao que se revela como estabelecido nas demandas do Serviço Social.

2.4 A Cotidianidade e suas Repercussões no Campo Ético