CAPÍTULO III – O IMPACTO DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO PARA OS
3.5 A percepção dos jovens
3.5.7 Do relacionamento com os funcionários do CSEJF
Sobre o relacionamento com as pessoas que trabalhavam na unidade socioeducativa, apesar de alguns terem feito referência à equipe técnica, o que foi mais marcante foram as declarações que evidenciaram dificuldades vividas em algum momento em relação aos agentes de segurança socioeducativos, revelando práticas que não estão respaldadas na política de atendimento socioeducativo.
Augusto: Com alguns era tranqüilo, mas com alguns agentes eu
preferia ficar na minha, porque eram meio arrogantes... aí pra não
ter problema, ficava assim. (...) Eu gostava de conversar com o
psicólogo que me atendia, ele que me ajudou a pensar mais no meu filho, que eu tinha que ser responsável... quando ele nasceu eu
tava lá (CSEJF), aí eu lembro que ele me deu uns conselhos [grifo
nosso] [acréscimo nosso].
Lorenzo: Era bom. Só um agente que sempre tentava me
apavorar. Mas era tranqüilo, porque eu nunca entrava na pilha dele...
Sempre respeitei eles e todo mundo sempre me respeitou também. Eu sempre te respeitei, né, Lívia? Na época que você era minha
técnica, você me levou em tudo quanto é lugar pra tirar meus documentos, tava ali que nem meu psicólogo, fazendo as coisas pra eu melhorar, mas não teve jeito, eu te decepcionei, né? Fiz tudo o que você falava que não era pra fazer de novo... [grifo nosso].
Luan: Era meio agressivo no começo... eu era um moleque mais agressivo... via os agentes fazendo contenção nos meninos com
brutalidade e isso me deixava nervoso ver aquilo, eu não concordava... eu não entendia que tinha que ser daquele jeito,
depois que eu fui acostumando aí foi melhorando... eu fui ficando estável... e me acostumando... mas eu me desentendi com muitos agentes... principalmente. (...) Mas com os técnicos e com os
diretores eu sempre fui tranqüilo... era bom conversar nos atendimentos, porque às vezes quando a gente fica sem
atendimento, parece que a gente tá preso mesmo na cadeia, sem ninguém pra ver como você tá, pra falar da sua família...
entendeu? [grifo nosso].
Matias: Era bom, porque eles me tratavam bem e eu tratava eles bem. Só na vez da rebelião, que eu fui uns que puxou ela, aí foi
ruim que eu apanhei muito da polícia e de um agente pilantra lá,
mas ele nem tá lá hoje mais não... Os diretores sempre me ajudaram muito também... Eu nunca ia pros atendimentos dos técnicos,
178
tava de boa... e se fosse o psicólogo, era a mesma coisa, eu não gostava que ninguém quisesse morar na minha mente... eu não gosto de conversar... [grifo nosso].
Tales: No começo era muito ruim... porque eu tinha vindo de um sistema pra cair no outro, né... só que o sistema lá era pressão e aqui era mais solto, aí eu achava que tinha liberdade pra fazer o que eu quisesse, vamos supor, se eles me davam meia hora de banho de sol e ficava correndo deles pra ficar mais tempo, chutava portão... fazia
um monte de coisa de errado que os agentes não gostavam... mas aí depois eu fui entrando no ritmo e melhorei um pouco... acho que foi por causa das dificuldades que eu passei lá
dentro... aí uma vez sete agentes me bateram... ai piorou tudo de novo, até que a gente fez um motim lá dentro e depois a rebelião, aí
mudou a direção, um monte de agente foi mandado embora, a direção passou a dar mais atenção pra gente, aí ficou melhor, tinha uma equipe maior, mais técnicos... começou a ter mais atividades, aí meu comportamento passou a ser bom e o tratamento deles comigo também ficou bom... (...) antes a gente chutava o portão pra ter
atendimento, mas aí depois todo mundo parou com isso porque tinha mais técnicos para conversar e eles passaram a se
envolver mais com a gente, porque na época da rebelião eles nem entravam lá nos núcleos, acho que tinham medo, sei lá... [grifo nosso].
Elias: Nunca tive problemas com ninguém. Sempre tratei todo
mundo com respeito e os agentes também me respeitavam.
Tanto é que na rebelião que teve eu e mais dois ou três adolescentes que não nos envolvemos. (...) Eu sempre aproveitava o máximo
dos atendimentos pra poder ver o que que aquilo ali podia me ajudar. E meus técnicos sempre me ajudaram, só não gostava de técnico que vinha dar notícia ruim... [grifo nosso].
Francisco: Por incrível que pareça, muito bem. Eu nunca tive
problema, nada pra reclamar. Eles me tratavam com respeito, acho
que é porque eu era conhecido porque já tinha sido preso desde a época do Instituto Jesus. E eu sempre ajudei muito lá no cerespinho, acho que por isso eles reconheciam. (...) Você era minha técnica
você lembra que eu não era muito de conversar, mas nos
atendimentos você me deu maior força pra eu aproximar do meu pai, tava sempre falando que eu tinha que dar um jeito e que ia conversar com a minha mãe pra deixar ele vim me visitar... reconheço muito isso aí... (...) Eu gostava de dar umas viajadas com o psicólogo, pena que não era todo dia que dava pra gente conversar porque todo mundo quer atendimento, eu ficava tranqüilo pra caramba com as conversas que tinha com ele... [grifo nosso].
Ainda que não sejam generalizadas, as falas de alguns jovens revelam a prática de maus tratos físicos e psicológicos dentro de um ambiente construído para ser
179
socioeducativo, mas, como vemos – não só nesse momento, mas em várias denúncias tiradas de relatórios de órgãos responsáveis por fiscalizar – infelizmente é comum esse tipo de prática dentro das unidades socioeducativas em todo o Brasil.Atitudes como tortura ou a tentativa de “apavorar” os adolescentes e jovens internados marcam a presença do desrespeito para com os mesmos e um enorme atraso diante das garantias advindas das lutas por melhores condições de atendimento ao público infanto-juvenil em conflito com a lei. De acordo com as orientações do SINASE, é
responsabilidade da unidade estabelecer um fluxo na comunicação com os adolescentes favorecendo o bom andamento do trabalho socioeducativo e a manutenção de um clima de entendimento e paz e, sobretudo coibindo e evitando todo e qualquer tipo de tratamento vexatório, degradante ou aterrorizante contra os adolescentes. Além disso, a contenção com algema92 do adolescente deve ser realizada somente como recurso para situações extremas que envolvam risco à sua integridade e de outrem.
Importa esclarecer a fala de Matias ao referir-se à presença da polícia dentro da unidade. Acontece que nos casos em que os internos iniciam qualquer tipo de manifestação conjunta que não consiga ser mediada internamente por meio do diálogo, a Polícia Militar é acionada a tomar frente da situação, como prevê o SINASE. Destaca-se que os agentes socioeducativos não se utilizam de nenhum tipo de armas, o único recurso que eles tem é a algema para ser usada em caso de contenção do adolescente quando este oferecer risco.
Merece destaque também a recorrência da expressão “preso” utilizada pelos jovens, mesmo para referir-se à condição de internados em medida socioeducativa. Tal fato pode indicar que a reprodução dessa expressão está diretamente ligada a uma falha na sistematização de um projeto pedagógico que dê conta de quebrar alguns paradigmas junto a esses sujeitos durante o processo de internação. Talvez tenha seu início muito antes de chegar a seus executores, revelando a prevalência, dentro da própria sociedade, dos antigos moldes de tratamento à criança e adolescentes em conflito com a lei. E o que reforça ainda mais esse argumento é a nomeação do Centro Socioeducativo de Juiz de Fora, conhecido popularmente por “cerespinho”, como citado na fala de Francisco.
92
Em relação aos instrumentos adotados pela equipe de segurança dentro da unidade, a algema é o único instrumento do qual os agentes socioeducativos podem fazer uso e somente na situação descrita acima, como regulamenta o SINASE, diferenciando-se, assim, dos agentes penitenciários que podem fazer uso de armas de fogo, cachorros, escudos, etc.
180
Já acerca do atendimento técnico, apenas Matias declarou que não gostava de ser atendido, pois não queria que “morassem em sua mente”, no sentido de aconselhá-lo ou conversar sobre sua realidade e seus planos. Os demais trouxeram comentários queevidenciam a necessidade de se ter uma proposta pedagógica fundamentada para que o atendimento, enquanto instrumento de atuação, possa colaborar para que os jovens encontrem possibilidades de construir novos valores e formas de sobrevivência para suas vidas.
Luan fez uma observação interessante, uma vez que em sua fala destaca o atendimento técnico como um dos mecanismos que diferencia a medida socioeducativa da prisão. A ausência de atendimentos, tanto individuais quanto em grupo, propicia uma lacuna quanto à proposta pedagógica, fazendo com que a medida seja permeada apenas do caráter punitivo. Para que isso não aconteça, estratégias como capacitação da equipe e destinação de locais apropriados para sua realização são fundamentais. Além disso, a garantia de uma equipe que caminhe em comum acordo, para que o trabalho junto aos internos possa ser executado segundo o SINASE. Isso poderia ser facilitado, por exemplo, por meio de espaços de integração entre as equipe técnica e de segurança.
No contexto da política de atendimento socioeducativo, sabemos que a humanização do atendimento e a transformação das unidades em ambientes
verdadeiramente socioeducativos, diferentes de cadeias, serão possíveis a partir de uma mudança de conceitos e posturas profissionais, baseados em um projeto pedagógico.
Uma vez que o processo de responsabilização dos adolescentes e jovens internados está associado aos diálogos com os técnicos para o encaminhamento das questões individuais, é imprescindível a manutenção de profissionais em número suficientes e capacitados para o atendimento aos mesmos. Tal prerrogativa fica clara na fala de
Francisco quando ele manifesta o anseio que tinha por ser atendido freqüentemente.
Assim, para se ter realmente uma política de atendimento socioeducativa de internação que faça grande diferença em relação às políticas anteriores e ao próprio sistema prisional, os centros de internação devem contar com estruturas físicas adequadas, tais como salas de atendimento; recursos materiais e humanos, sendo esses últimos
plenamente capacitados; uma equipe de segurança composta de agentes em número suficiente para que as atividades possam ser realizadas com a garantia de segurança de todos os envolvidos e que sejam dotados de práticas educativas e não repressoras.