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PARTE II – A ESTRUTURA DO SANEAMENTO EM PORTO ALEGRE

3.4 Do saneamento de limpeza para o saneamento de higiene

Como vimos até o momento, os três elementos constantes do saber hipocrático são presentes diante as políticas adotadas pelo poder público municipal sobre o saneamento da cidade no século XIX. É verificável também que estes três elementos se fazem presentes mediante uma constante interação entre os aspectos ligados a saúde e/ou problemas derivados de determinadas doenças. Tal interação por sua vez, torna-se mais nítida quando podemos contemplar o diversificado número de agentes que estavam envolvidos direta ou indiretamente com este assunto na cidade.

É deste universo marcado pela interação entre os diferentes agentes do saneamento (indivíduos), saberes e/ou saber (hipocrático) ligados em grande parte as concepções de saúde e de doenças, que se movem as políticas públicas direcionadas ao saneamento da Porto Alegre oitocentista. Políticas estas, que no decorrer da segunda metade do século XIX, seriam marcadas profundamente por aquilo que denominamos de “momento de passagem” entre uma dada concepção de limpeza, vista por seus agentes como o ideal para a saúde para uma determinada concepção de higiene, percebida a partir daquele momento como essencial a saúde. Segundo o historiador Jean-Pierre Goubert, este é um período onde: “o mundo contemporâneo prepara-se para renegar o antigo código social da limpeza, para substituí-lo pelo da higiene”.271

Neste sentido, a história do saneamento público da cidade de Porto Alegre no século XIX é marcada por dois momentos distintos. O primeiro, ao qual denominamos de “fase limpezista”, cobre basicamente a primeira metade do século XIX, tendo por característica principal as ações do saneamento pautadas por discursos que visavam à saúde, mediante interferências diretas sobre o espaço. Esta ocorrência da ligação entre a saúde e a ambiência torna-se melhor observável quando se trata, por exemplo, dos assuntos respectivos ao espaço cemiterial.272

Em um segundo momento, temos então a chamada “fase higienista”, que pode ser verificada sobre toda a segunda metade do século XIX. Esta fase é marcada pela inversão das ações, ou seja, das práticas direcionadas prioritariamente ao espaço, que visavam conseqüentemente à saúde dos corpos em um primeiro momento, passa-se agora para uma

271 GOUBERT, Jean-Pierre. A conquista da água na era industrial. In: SERRES, Juliane; SCHWARTSMANN,

Leonor. (Orgs.) História da Medicina: instituições e práticas de saúde no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. p.24.

ação cuja prática, apesar de continuar se concentrando sobre o espaço, começa a identificar este espaço relacionando-o como um problema ligado aos indivíduos.273 Nesta visão, não era a ambiência que era corrompida, ela se encontrava nesta situação em função da ação “perniciosa” de “certos” indivíduos sobre o espaço. Neste sentido, como verifica Tocchetto:

Visando acabar com as epidemias, focos de infecção, a contaminação de ares e

águas, o discurso médico passou a exercer um controle fiscalizador contra a

insalubridade generalizada. Foram difundidas regras de higiene pessoal e coletiva, de manutenção das moradias, de descarte e remoção do lixo para locais periféricos, de inspeção de feiras e abatedouros, criação de novos bairros, etc.274

Um exemplo mais direcionado sobre este momento de “passagem” pode ser verificado sobre a documentação do saneamento referente a este período. Destacamos aqui um Parecer enviado pela Comissão Médica ao então Presidente da Província, José Antonio de Azevedo Castro:

A fim de indagarmos as causas próximas ou remotas do empeoramento do estado sanitário desta capital pelo aparecimento simultâneo de enfermidades diversas e algumas das quaes tem tomado o caráter endêmico, terminando muitas delas pela morte, fazendo assim desapparecer repentinamente cidadãos pouco antes válidos e sãos; e outro sim encarregados de darmos parecer sobre este assumpto, indicando os meios convenientes para conjurar este estado, que tanto sobressalta o espírito público, temos a honra de declarar a V. Exª. que depois de havermos feito os necessários exames e estudos, discutindo entre nós esta matéria d‟accordo com os preceitos de nossa profissão, somos de parecer [...] Que concorrem poderosamente para o apparecimento quase constante de certas enfermidades, havendo por isto aviso de serem denominadas endêmicas, causas diversas, a saber: o pouco asseio da cidade, havendo [...] falta de condições hyggienicas em grande numero de casas,

- essas habitações denominadas cortiços, onde se acumula muita gente, quase sempre pouco escrupulosa quer a respeito d’asseio, quer de alimentações e dos demais cuidados hyggienicos indispensáveis a vida do homem [...] Que para

afastar de nós o mais possível, estas causas de enfermidades convém que se estabeleça na Capital encanamento para o esgoto dos materiaes e das águas servidas, a fim de que desapareçam com promptidão esses agentes de infecção – que se realize o asseio das casas, principalmente dos cortiços, os quaes devem ser

subordinados as regras hygienicas prescriptas por pessoa autorisada, que as inspecione frequentemente [...] entretanto, parece-nos que realizando-se os meios

que temos a honra de indicar, obteremos consideráveis vantagens em favor do estado sanitário d‟esta Capital, cujos habitantes não devem continuar nesse sobressalto d‟espirito e porque é de esperar, que o acrisolado cuidado de V. Exª. pelo

273 Cabe lembrar que esta “passagem” era reforçada também por incertezas com relação às causas das doenças.

Neste sentido, segundo Finkelman: “Tanto na versão contagionista quanto na anticontagionista, uma das características mais marcantes da higiene no período que antecedeu a consagração da bacteriologia consistia na indeterminação da doença. O ar, a água, as habitações, a sujeira, a pobreza, tudo poderia causá-la. A fluidez do diagnóstico era acompanhada pela imprecisão terapêutica. Essa característica também permitia que os higienistas atuassem como tradutores dos mais diversos interesses.” FINKELMAN, Jacobo (Org.). Caminhos da Saúde

Pública no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002. p.32.

274 TOCCHETTO, Fernanda Bordin. O descarte de lixo doméstico na Porto Alegre oitocentista: uma construção

bem público faça com que em pouco tempo esta cidade veja realisada todas as medidas hygienicas por nós lembradas.275

Neste caso, o corpo social era percebido como um dos objetos diretamente responsável pelo meio a sua volta. Entretanto, como o meio externo era um dos elementos centrais, visto e percebido muitas vezes como ponto fundamental para a compreensão de assuntos que diziam respeito à saúde e a doença, ganhava importância nesta concepção fiscalizar diretamente os indivíduos, vistos agora como os principais responsáveis pela degradação ou boa conservação do próprio espaço. Mesmo assim, como podemos observar na citação acima, não eram quaisquer indivíduos, mas sim grupos específicos cujos lugares denunciavam sua periculosidade.276

Esta nova fase marca uma visão diferenciada para a segunda metade do século XIX, no que diz respeito às questões relativas ao saneamento público da cidade de Porto Alegre. Fase esta que segundo Pesavento, “gerou as condições para que a questão social se coloque como problema e indagação: o que fazer com os desafortunados e, principalmente, o que fazer para impedir que a questão social degenere em conflito e este em ameaça efetiva?”. Estaria aberto assim um espaço para, “a elaboração de discursos científicos que a descrevem, analisam e despertam estratégias de abordagem para atingir resultados satisfatórios. É assim que se articula o discurso médico higienista, o discurso jurídico e criminológico, o discurso técnico e estético.”277 Discurso este que segundo Chalhoub, “permitiu aos governantes ocultar, ou ao menos dissimular, desde então, o sentido classista de suas decisões políticas.”278 Ganhava destaque neste momento os chamados higienistas e suas intervenções, que pareciam obedecer:

[...] ao mal confessado objetivo de tornar o ambiente urbano salubre para um determinado setor da população branca, e esperar que a miscigenação – promovida num quadro demográfico modificado pela imigração européia – e as moléstias

275 AHPAMV - Correspondências Expedidas pela Câmara Municipal, Livro 26/27, 23 jan. 1860. Grifo

nosso.

276 Para controlar esta periculosidade, foi criada a polícia administrativa do município que tinha por objetivo,

segundo Mauch: “velar pela ordem pública, como em qualquer outro lugar, mas pode-se dizer que a noção de ordem e desordem variou ao longo da última década do século XIX.” MAUCH, Cláudia. Policiamento em Porto Alegre nos primórdios da República. In: HAGEN, Acássia M. Maduro; MOREIRA, Paulo R. Staudt. Sobre a

rua e outros lugares: reiventando Porto Alegre. Porto Alegre: Caixa Econômica Federal, 1995. p.100.

277 PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os pobres da cidade. 2.ed. Porto Alegre: Editora da Universidade / UFRGS,

1998. p.8-9.

278 CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das

reconhecidamente graves entre os negros lograssem o embranquecimento da população, eliminando gradualmente a herança africana da sociedade brasileira.279

Todavia, como este momento de passagem não é um acontecimento que pode ser datado como um fato preciso, que tem dia e hora para acontecer e/ou para acabar, necessitamos para melhor compreendê-lo saber a forma como se processou o seu desenrolar ao longo da segunda metade do século XIX. Para entendermos melhor estes desdobramentos, vejamos a seguir como se apresentavam as políticas públicas para o saneamento da cidade, demonstrando a relação do discurso epidêmico com estas ações práticas, que se caracterizavam a partir daquele momento pelos preceitos higienistas.