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Na fé da cruz venceu o imperador católico Heráclio ao filho de Cósroas, em cujo tempo e domínios surgiram Maomé e sua perfídia.

O imperador católico Constantino fez guerra ao tirano Maxêncio, e muito aflito levantava, amiúde, os olhos para o Céu lhe mandar auxílio. Vê então, durante o sono, o sinal da cruz rutilar, no alto, com brilho de fogo para o lado oriente, e ouve os anjos, que o cercavam, dizerem: Constantino, neste sinal vencerás. Então Constantino tornou-se alegre, e já seguro da vitória persignou, na fronte, o sinal da cruz, que Vira no céu. Mudou os estandartes militares para a forma desse sinal, e transportou, em sua mão direita, que havia munido com o sinal da salvação, a cruz de oiro, triunfando assim do tirano Maxêncio.

Este sacratíssimo sinal da cruz até os infiéis defende, como narra Gregório no Diálogo. Jazendo, certa noite, um judeu num templo de ídolos, onde se juntaram muitos demónios, atemorizado persignou-se. Quando isto viram, os demónios puseram-se em fuga, dizendo: Ai! Ai! Vaso oco, mas persignado! ”369

O que é importante destacarmos é a ligação estabelecida entre a fé em Cristo e a vitória militar, apresentada como reconhecimento paupável à devoção sincera e profunda dos governantes que guardavam a intenção de render glória a Deus combatendo um inimigo cristão. Tal estrutura de pensamento é constante nos documentos portugueses do século XV. Ela é a razão última sobre a qual repousa a legitimação da política externa durante os reinados avisinos.

369 Pais, Álvaro. Espelho dos Reis / Speculum Regum. (Edição bilingüe Latim/Português. Tradução de Miguel Augusto

Pinto de Menezes). Vol. I. Lisboa: Centro de Estudos de Psicologia e de história da Filosofia, 1955. pp. 17 e 19. Versão latina:

De signo crucis quo fideles pugnant

In fide crucis deuicit imperalor catholicus [H]eraclius filium Cosroe in cuius partibus et temporibus Magumet et cius perfidia insurrexit.

Constantinus imperator catholicus contra Maxentium tyrannum bellum induxit, multum anxius pro sibi mittendo auxilio ad coelum crebro oculos leuabat uidetqne per soporem ad orientem partem in coelo signum crucis fulgure igneo rutilare angelosque astare sibique dicere: Constantine, in hoc signo uinces.

Tunc Constantinos lados effeetus et de uictoria iam securus signum crucis, quod in coelo uiderat, in sua fronte signauit. Vexililla militaria in signaculum crucis transfigurauit, et in manu sua dextra, quam signo muniuerat salutari, auream crucem portauit, et sic de tyranno Maxentio triumphauit”.

Figuras do Impé Figuras do Impé Figuras do Impé Figuras do Império rio rio rio

Através de referências às histórias universais e bíblicas, da apresentação de ideais políticos, legalistas e teológicos, Zurara deu continuidade à construção dos Avis enquanto uma família sacralizada e messiânica, cuja missão salvacionista se expressou, primeiramente, através da expansão da fé no ultramar.

Concepção histórica figural e salvacionista Concepção histórica figural e salvacionista Concepção histórica figural e salvacionista Concepção histórica figural e salvacionista

Como demonstramos anteriormente, enquanto expressão ibérica, as crônicas portuguesas do século XV tinham o ideal imperial como um dos temas centrais. Os reis de Avis, apresentados enquanto messiânicos, revelavam-se salvadores porque promoviam a Reconquista. Esta, por sua vez, era associada à reconstituição da unidade imperial visigoda, tida como configuração política ideal.

Bernard Guenée considera que a historiografia produzida na Idade Média se situava mal no espaço, mas tinha o tempo como essência370. A coordenada temporal referencial era a

do tempo escatológico, baseado em grande medida no relato bíblico de Daniel371. Tal

concepção tem o Império como chave de compreensão. A idéia de que a história do mundo era dividida em quatro impérios históricos (babilônio, persa, macedônio e romano), que já haviam existido, e que se esperava a chegada do derradeiro Império, era corrente.

A estrutura escatológica da cultura historiográfica do Ocidente medieval foi outra via, ainda mais ancestral que a noção associada ao ideal visigodo, pela qual a referência imperial este igualmente presente como centro e tópica obrigatória do gênero discursivo historiográfico. Conhecendo profundamente as Sagradas Escrituras, poderia-se compreender com precisão a trajetória da história humana, conduzida forçosamente a um fim salvacionista. Além disso, tanto a Bíblia como os textos antigos permitiam a identificação de qual parte da existência terrena já havia sido percorrida. Por isso se explica a grande preocupação dos historiadores da Idade Média com a periodização372.

Obviamente, a corte portuguesa também não escapou da obsessão da temporalidade escatológica. Os homens do Paço, localizando na encruzilhada das heranças judaico-cristã e greco-romana, a parte da história que cabia aos portugueses no quadro das realizações dos

370 Guenée, Bernard. Histoire et Culture Historique... p. 22. 371 Guenée, Bernard. Histoire et Culture Historique... pp. 148-149

governantes que serviam a Deus, tinham meios de melhor compreender as ações que promoviam e também de vislumbrar um futuro histórico relativamente próximo, o que permitia planificar os próximos passos.

A procura do sentido da ação portuguesa ultramarina através da análise da história passada da Cristandade se iniciou, aparentemente, quando se considerou tomar Ceuta. Quando D. João I reuniu o primeiro conselho para deliberar sobre a possibilidade de invadir o Marrocos, os clérigos foram incumbidos da missão de buscarem a fundamentação de tal pretensão:

“Os confessores, sobre quem principalmente o encargo disto ficava, não tomaram aquele

feito com pequeno cuidado, assim pela necessidade que os tanto constrangia a seguir os mandados de el-Rei, como pela substância do feito ser de tamanho peso, que nenhum homem de são entender não o devia de ter em pequena conta. E, porem, foram-se logo para seus mosteiros e com grande cuidado proveram seus estudos por tal guisa, que lhe não ficou nenhuma cousa por ver daqueles textos e glosas da Sagrada Escritura em que os santos doutores determinaram tais conclusões”373.

Zurara afirmou que os clérigos concluíram, através do estudo das Escrituras, que a guerra contra Ceuta era um serviço a Deus.

O historiador ainda nos revela outro raciocínio que nos permitiu aprofundar a compreensão de como o tempo escatológico cristão foi referência capital para empreender e explicar a política empreendida pelos portugueses no ultramar. Lembra Zurara que o Apóstolo Paulo afirmava que “Todas as cousas em figura aconteceram (...)”374.

Erich Auerbach considerou que o apóstolo Paulo e Tertuliano cunharam significados para o termo figura, que foram muito fundamentais para a noção de história na Idade Média. Em autores antigos como Plínio, Terêncio e Ovídio, figura tem as acepções de forma plástica, imagem ou cópia375. Na cultura cristã, a noção foi ampliada por Paulo376:

372 Guenée, Bernard. Histoire et Culture Historique... p. 148. 373 Zurara. Crônica da Tomada de Ceuta... Cap. XI. p. 64. 374374 Zurara. Crônica da Tomada de Ceuta...Cap. LIII. p. 187. 375 Auerbach, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997. p. 07.

376 “Não quero, pois, irmãos, que vós ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e que todos

passaram o mar, e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, e todos comeram do mesmo alimento espiritual e todos beberam da mesma bebida espiritual; (...)

Estas coisas foram figura do que nos diz respeito (se formos infiéis a Deus), para que não cobicemos, coisas más, como eles cobiçaram (...)”.

“(...) a interpetação figural , que desde o apóstolo Paulo amplia por analogia o âmbito do texto bíblico, ‘até o fim do mundo e a vida eterna’, está fundada numa alegoria, mas difere da maioria das formas conhecidas de alegorização em virtude do caráter histórico dos seus termos377. Ou seja: na ‘figura’ um acontecimento terreno é elucidado pelo outro; o primeiro significa o segundo, o segundo ‘realiza’ o primeiro. Dessa perspectiva a História, continua sendo sempre uma figura que necessita de interpretação”378.

No século seguinte, Tertuliano enriqueceu ainda mais a idéia, ao defender que:

“(...) a figura possuía tanta realidade histórica quanto aquilo que profetizava. A figura profética, em seu entendimento, era um fato histórico concreto, preenchida por fatos históricos concretos”379.

“(...) ‘figura’ indica a representação concreta de algo que vai se realizar no futuro. A ‘figura’ é então algo real e histórico que anuncia outra coisa que também é real e histórica”380.

Fernão Lopes associando o episódio de Ourique, construído no século XV como milagre que anunciava e dava sentido à vitória da batalha de Aljubarrota, já mostrara ter compreendido essa lição de método primordial da escrita da história medieval. A concepção de história de Zurara também teve como raiz a noção de figura que podemos apreender a partir do pensamento de São Paulo. O cronista contemplava simultaneamente que as Escrituras continham a história do passado e anunciavam e davam sentido história dos portugueses no

“Ora tôdas estas coisas lhe aconteciam em figura; e foram escritas para advertência de (todos) nós, para quem os fins dos séculos chegaram”.

1 Cor. 10, 11.

Consideramos ainda que a mesma idéia ainda está contida em:

“Nós agora vemos (a Deus) como por um espelho, em enigma; mas então (o veremos) face a face. Agora conheço-o em parte; mas então (o veremos) face a face. Agora conheço-o em parte; mas então hei de conhecê-lo como eu mesmo sou (dêle) conhecido”.

1 Cor. 13, 12.

377 Erich Auerbach, lembrou que a alegoria histórica de Paulo, a figura, tem uma especificidade muito relevante.

“O símbolo deve possuir poder mágico, a figura não; a figura, por outro lado, deve ser histórica, mas o símbolo não. É claro que a cristandade não deixa de possuir símbolos mágicos; mas a figura não é um deles. O que torna de fato as duas formas completamente diferentes é que a profecia figural relaciona-se com uma interpretação da

história – na verdade é, por sua natureza, uma interpretação textual - , enquanto o símbolo é uma interpretação direta da vida e originalmente, na maior parte das vezes, também da natureza”.

Auerbach, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997. pp. 48-49.

378 Auerbach, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997. p. 09.

379 Auerbach, Erich. Figura. São Paulo: Ática, 1997. p. 28. Tertuliano defendia essa idéia, porque considerava que

os fatos da Torá não foram apenas alegorias que anunciam a história descrita no Novo Testamento. Para ele, as descrições do Pentateuco também foram realidade histórica.

século XV. Logo, os sábios podiam, através de uma análise perspicaz do Antigo e Novo Testamentos, e também dos autores pagãos antigos - de igual autoridade, chegar a identificar o modelo histórico passado que anunciava o contemporâneo – ou que se anunciava como futuro próximo.

Nesta perspectiva, todas as comparações que Zurara faz de impérios históricos ou bíblicos381 aos feitos portugueses de seu tempo, são muito mais que uso de tópicas recorrentes nas narrativas universais medievais.

Daniel e Zurara Daniel e Zurara Daniel e Zurara Daniel e Zurara

Nosso cronista usou os exemplos dos grandes impérios e potências militares como figuras do alargamento dos territórios portugueses. Do fragmento de texto que se segue, podemos inferir que Zurara associou a história portuguesa que lhe era contemporânea à realização do quinto e último império, segundo a estrutura bíblica apresentada por Daniel, O cronista, rememora-os e os considera como antecessores dos portugueses em grandeza de feitos:

“(...)os reino dos Caldeus, do qual a Santa Escritura tão a miúdo faz memória,

onde

reinou Nabucadonosor

porque Baltasar seu neto se pôs em grande oufana em aquele convite, do qual Daniel faz menção, e em seguinte noite foi encurvado por o rei dos Romãos.

Como pudéramos saber a desordenança do

rei Xerxes

quando, com trezentos e oitenta mil homens de armas e cem mil navios passou em Grécia. E por uma pouca companha dos gregos foi desbaratado, somente por sua soberbosa presunção (...).

E como soubéramos outrossim os virtuosos feitos de armas que