2.2 A ética em Gary Francione
2.2.1 Do status moral dos animais como propriedade
Francione inicia sua argumentação em defesa dos direitos animais analisando seu status moral enquanto propriedade. Por muitos anos, as medidas protetivas em relação aos animais se traduziam de forma indireta, pois a proteção era devida aos proprietários do objeto animal. Proibia-se torturar um animal em razão do prejuízo ou malefício causado ao seu dono; bem como essa conduta devia ser evitada para não constranger humanos que gostassem de animais ou para evitar que essa conduta se traduzisse em atos de violência transferidos a seres humanos. Num primeiro momento, os animais eram, espiritualmente, tidos como criaturas inferiores, pois somente os humanos – naquela época, alguns humanos – eram considerados feitos à imagem e semelhança de Deus, que teria concedido domínio sobre todas as criaturas na Terra; e, ainda, considera-se que somente os humanos possuem alma. Por fim, aos animais faltam características cognitivas estritamente humanas, como a racionalidade.
A partir do século 19 popularizou-se a ideia, que se perpetua nos dias atuais, convivendo com a postura de que os animais continuam sendo propriedade, de que devemos tratar os animais de uma forma humanitária, visando o seu bem-estar. A posição do bem-estar animal, que tem como foco a regulamentação do tratamento animal, sustenta que podemos utilizar os animais segundo nossos interesses, pois eles são inferiores natural e espiritualmente, porém temos o dever moral e legal de tratá-los de forma a evitar o sofrimento desnecessário. Deus teria nos concedido
não o domínio, mas uma licença para utilizarmos os animais para nos fornecer certas regalias, as quais devem ser obtidas mediante nosso tratamento humanitário para com os animais.
Neste sentido, temos uma obrigação direta em tratar os animais com bondade, o que significa uma inserção parcial dos animais no círculo da moralidade e da legalidade. Para a teoria utilitarista, devemos equilibrar os interesses dos humanos e dos animais, para verificar a real necessidade de infligir sofrimento desnecessário aos animais. Embora esta visão aparente um avanço em relação ao tratamento que damos aos animais, ela pouco alterou sua situação, tendo em vista que continuamos a utilizá-los para motivos frívolos, em sua maioria: nossa preocupação foca apenas na forma de tratá-los, e não no uso em si. Assim, enquanto os animais são considerados propriedade, o padrão de tratamento humanitário se limita às justificações sob a ótica da condição de posse.
A partir da década de 80 foram surgindo novos movimentos dentro do contexto do bem-estarismo. Eles buscavam como meta, a longo prazo, o fim da exploração animal, tomando medidas regulatórias no uso dos animais. Porém, a regulamentação sozinha não protege os animais e protege mais o interesse econômico. Observando as várias leis bem-estaristas e o tratamento que continuamos dando aos animais, parece que a regulação fez aumentar a exploração, e não diminuí-la; e, por fim, certa parceria entre o movimento bem-estarista e os empresários, pecuaristas e pesquisadores, faz com que o primeiro grupo acredite que um dia vai conseguir por fim à exploração, e os últimos acreditam que estão acalmando os ânimos e convencendo o público de que os animais estão sendo bem tratados (FRANCIONE, 2008, pp. 15-16).
Conforme Francione, a postura de tentar equilibrar os interesses dos animais com os interesses humanos é falha, no sentido de que sempre haverá uma pendência em favor dos interesses humanos, como se mais importantes que o dos animais. A teoria dos direitos animais, desenvolvida por Francione, questiona a afirmação de que os animais não têm interesse em conti- nuar a existir, apenas ser bem tratados. Francione afirma que eles podem ter outra significação a respeito de suas vidas, mas que são autoconscientes e se interessam em manter suas vidas; eles não são indiferentes ao fato de nós os usarmos e matarmos para satisfazer nossos interesses. Nós não temos nenhuma justificação moral em manter o uso de animais, ainda que os tratemos visando o tratamento humanitário.
O status dos animais, enquanto propriedade, faz com que eles sejam considerados mercadorias pertencentes aos seres humanos, e o seu valor é aquele que o proprietário lhes dá. Embora o pensamento bem-estarista tenha modificado o pensamento moral e legal, a respeito do tratamento dado aos animais, ao introduzir a senciência como única característica necessária para que tenham os interesses considerados, a condição dos animais pouco mudou. Essa estagnação, segundo Francione, se dá na medida em que a condição de propriedade dos animais torna sem sentido qualquer equilíbrio supostamente exigido pelas leis de bem-estar, porque o que realmente importa é equilibrar os interesses de propriedade (FRANCIONE, 2008, p. 38).
As leis de bem-estar animal demonstram que não há possibilidade de equilíbrio real entre os interesses humanos e animais, tendo em vista que, na maioria das vezes, a legislação anticrueldade isenta de seu teor quase todas as formas de uso animal institucionalizadas, como a pesquisa médica com animais, a pecuária e a caça. Francione salienta que, ainda que as leis bem-estaristas fossem boas, os tribunais norte-americanos – e a maioria dos tribunais em outros países – têm isentado de punição as situações de crueldade quando esta resulta de uma utilização aceita e costumeira de animais por parte de seus proprietários (FRANCIONE, 2008, p. 39).
Tendo em vista que os animais são considerados propriedades, todas as situações que envolvam seu uso e tratamento são tratadas de forma a escolher entre o interesse dos animais e dos humanos, prevalecendo o interesse destes últimos, ainda que a situação demonstre que o interesse do ser humano seja trivial e o interesse do animal seja fundamental, dizendo respeito à vida, por exemplo. Para Francione, a preferência que tomamos, ao escolher, “é entre o interesse do dono da propriedade e o interesse de um item de propriedade”(FRANCIONE, 2013, p. 123).