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Como se pode abordar a noção de sujeito e que se encontra nas discussões do cuidado de si? Inicialmente, se apresenta que Foucault foi contrário à idéia de se fazer previamente uma teoria do sujeito, uma teoria a priori do sujeito. O autor postula que o sujeito é histórico, mas produzido na sua própria história e pela história que o permeia através do que denominou de uma “história da verdade”. Disso se supõe uma compreensão de um sujeito constituído historicamente, a partir de práticas distintas, a partir daquilo que o constitui, que o precede, o sujeito pensado enquanto “realidade histórica e cultural” e não o sujeito enquanto dado universal e a - histórico, nem como condição primeira de todas as coisas.

Foucault propõe um sujeito que é constituído de diferentes maneiras, sem identidade fixa, em um processo permanente. Conforme o autor, o sujeito não é uma substância, mas, mais aproximadamente, uma forma. Porém, essa forma também não é idêntica a si mesma, posto que em cada relação que estabelece, se posicionará de uma forma diferente, conforme as relações que o sujeito estabelece com os diversos “jogos de verdade”. A constituição histórica dessas diferentes formas de sujeito é o que interessa a Foucault.

A relação entre o sujeito e a história aparece em toda a sua produção intelectual, como domínio de trabalho e também como uma preocupação metodológica. Essa problemática, conforme situada por Castro (2009) aparece

desde sua primeira obra, Maladie mentale et personnalité (1954) 23, “quando trata da origem da doença mental a partir das contradições da história concreta do indivíduo” e é “no conceito de alienação que se cruzam esses dois eixos do sujeito e da história” (CASTRO, 2009, p. 203).

Segue Castro (2009, p. 204) dizendo que “na realidade, esses dois aspectos (objeto de descrição e questão metodológica) estão entrelaçados em uma relação que falar de história, em Foucault, é falar do sujeito e, vice – versa, falar do sujeito é falar da história”. Esclarece ainda:

Na Histoire de la folie, o enfoque de Foucault modifica-se, passando a se concentrar nas condições históricas nas quais surge não a enfermidade mental como fato patológico, mas os modos, institucionais e discursivos, nos quais o sujeito é objetivado como alienado, como doente mental. [...] La naissance de la clinique trata das condições históricas que possibilitaram o discurso da clínica, que tornaram o indivíduo cognoscível. Les mots el les choses é uma arqueologia das ciências humanas, isto é, uma história, ao nível das condições de possibilidade do saber, da formação do sujeito moderno, das ciências humanas. [...] Surveiller et punir é uma história genealógica do sujeito disciplinado. Historie de la sexualité é uma genealogia do homem de desejo, das práticas de subjetivação (CASTRO 2009 p. 203-204).

Ao retomar o tema do sujeito, na opinião de Ortega (1999), houve uma transposição metodológica dos estudos sobre os dispositivos disciplinares para a investigação em torno dos processos de subjetivação. Transposição que se assemelha a um desdobramento, uma vez que a analítica do poder passa a ser pensada não mais no campo da sujeição somente, mas também das noções de governo, ou de práticas de si, por exemplo. Era necessário delinear uma análise que passava pela compreensão do que tinha sido o sujeito em diferentes épocas históricas e as maneiras pelas quais ele praticava as relações de si para consigo mesmo.

Também nas palavras de Castro (2009), Foucault concebe seu trabalho filosófico como uma ontologia do presente ou uma ontologia histórica de nós mesmos, expressões consideradas por ele como uma atividade de diagnóstico e um éthos. Assim sendo: “Seja quando se trate da experiência da loucura, do nascimento da clínica, da arqueologia das ciências humanas, da história do castigo, das disciplinas ou da sexualidade, a preocupação geral de Foucault foi a problemática do

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Na obra Maladie mentale et personnalité (1954), encontramos essa problemática; o capítulo III intitula-se “A enfermidade e a história individual. (CASTRO, 2009, p. 203).

forma e experiência, seu problema [...] “não era definir o momento a partir do qual alguma coisa como o sujeito apareceria, mas sim o conjunto dos processos pelo qual o sujeito existe com seus diferentes problemas e obstáculos” (FOUCAULT, 2004, p. 261).

Desse modo, seu trabalho se apresenta em três domínios, assim identificados por Castro:

A ontologia histórica de nós mesmos em nossas relações com a verdade (que nos permitem constituirmos em sujeitos de conhecimento), a ontologia histórica de nos mesmos em nossas relações a respeito do campo do poder (que nos constituem como sujeitos capazes de atuar sobre os outros) e a ontologia histórica de nós mesmos em relação à moral (que nos constitui em sujeitos éticos) (CASTRO, 2009, p. 312).

Em relação à expressão “ontologia crítica de nós mesmos”, essa faz referencia à prova histórica – prática dos limites que podemos ultrapassar, não considerada como uma teoria, uma doutrina. Para Foucault “é necessário concebê- la como uma atitude, um ethós, uma vida filosófica onde a crítica do que somos é, ao mesmo tempo, análise histórica dos limites que nos são impostos e prova de sua possível transgressão” (CASTRO, 2009, p. 155).

A evolução da problematização do sujeito em Foucault é também respondida por Castro (2009, p. 407), ao colocar que:

[...] há que se ter presente que, antes de tudo, se trata de uma abordagem histórica da questão da subjetividade. Em clara oposição à tradição cartesiana, Foucault sustenta que o sujeito “não é uma substância. É uma forma, e esta forma não é, sobretudo nem sempre, idêntica a si mesma”. Assim, no que diz respeito ao sujeito de conhecimento, e em oposição à ideia cartesiana daquele sujeito dado, de um sujeito puro e a priori de conhecimento, Foucault sugere um sujeito que é constituído de diversas formas, em diferentes momentos históricos. Considerando que o sujeito não é uma substância, mas forma e experiência, seu problema “[...] não era definir o momento a partir do qual alguma coisa como o sujeito apareceria, mas sim o conjunto dos processos pelo qual o sujeito existe com seus diferentes problemas e obstáculos” (FOUCAULT, 2010, p. 261). O sujeito não é uma invariante, uma essência fixa, acabada e idêntica a si mesma, mas uma forma constituída com e pelas experiências históricas.

O problema do sujeito é, para Foucault, o problema da história da forma- sujeito. É uma “história do sujeito” ou do que ele denomina modos de subjetivação, que mudou de estilo, de objetos e de metodologia, onde “os modos de subjetivação são, precisamente, as práticas de constituição do sujeito” (CASTRO, 2009 p. 407- 408). Os modos de subjetivação são as práticas de constituição do sujeito. Essas práticas referem-se às formas pela qual o sujeito se constitui.

Dentre as inúmeras questões trabalhadas por Foucault e que permitiram o aparecimento do homem como objeto do conhecimento na modernidade e que possibilitou o surgimento das ciências humanas, a questão do sujeito pode ser tratada, inicialmente, a partir dos discursos que se desenvolvem sobre ele. Tal é a temática de As palavras e as coisas (1966) que procura investigar de que modo o sujeito vai se definir como indivíduo falante, vivo, trabalhador. Sobre isso, Pereira (2011) em artigo intitulado Sujeito e linguagem em As palavras e as coisas, de Michel Foucault, expõe o que se lê:

Ou seja, para Foucault era evidente que só se podia falar do homem a partir daquilo que o constitui e, portanto, o precede, ou seja, a partir da estrutura, a partir das condições de possibilidade do conhecimento. Desse modo, para se pensar o sujeito a partir do projeto estruturalista e, sobretudo, a partir de As palavras e as coisas, faz-se necessário pensar, problematizar o que vêm a ser tais condições de possibilidade do conhecimento e o que estas condições engendram, como, por exemplo, a linguagem, pois ambas, a noção de sujeito e a da linguagem, estão implicitamente ligadas e por sua vez concatenadas sob a égide da estrutura. E é justamente em virtude desta hermética concatenação que se faz necessário elucidar o que vem a ser a noção de sujeito e consequentemente quais foram as condições de possibilidade que proporcionaram o seu surgimento no seio da modernidade como quer o projeto estruturalista e, sobretudo, a referida obra ora em questão.

Ainda em As palavras e as coisas (1966, p. 478-479) encontra-se que o ser humano tem história:

Uma vez que ele fala, trabalha e vive, acha-se, no seu próprio ser, inteiramente misturado a histórias que não lhe são nem subordinadas nem homogêneas. Pela fragmentação do espaço por onde se estendia continuamente o saber clássico, pelo enrolamento de cada domínio, assim libertado, sobre o seu próprio devir, o homem que surge no início do século XIX é um ser “desistoricizado”.

Também se faz referencia, em especial, ao Curso de 1982 – A Hermenêutica do Sujeito posto que, nesse momento, Foucault problematiza as possibilidades de constituição do sujeito ocidental, tomando como ponto de partida a

apresentado em capítulo anterior. No referido curso, Foucault aborda o tema das práticas de si, das técnicas de subjetivação, da subjetividade e de seu vínculo à verdade, e que o sujeito suposto por essas práticas de si é um “eu ético”.

Conforme esclarece Gros (2006), no artigo O cuidado de si em Michel Foucault, o mesmo privilegia, em Hermenêutica do sujeito, o sujeito presumido nas práticas de si da filosofia Grego – romana, como um eu ético, oposto ao sujeito ideal do conhecimento. Um sujeito compreendido como passível de transformação, de autoconstrução, que se dá regras de existência e de conduta e que se forma através das práticas de si, não mais como o produto dos sistemas de saber – poder, mas mediado pelas práticas de si, como experiência reflexiva e ética.

Em relação às práticas de si, o sujeito, então, se estabelece na experiência, ao que afirma Foucault:

[...] nesse sentido, a constituição do sujeito de dá pelas formas de sujeição do indivíduo no interior das práticas disciplinarizantes e das redes discursivas constituídas pelo poder disciplinador numa dada cultura e, isto se processa através de determinadas práticas e discursos, enquanto subjetividade, ou seja, [...] o indivíduo é um efeito do poder e, simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser efeito, é seu centro de transmissão. (FOUCAULT, 2004, p. 183-184).

Retomando as palavras de Gros (2006), encontram-se três caminhos possíveis para se abordar a questão do sujeito enquanto sujeito constituído historicamente, como propõe Foucault e não como sujeito constituído, quais sejam: o sujeito que é constituído teoricamente por uma série de saberes – científicos ou não – como objeto a ser conhecido; o sujeito constituído – jurídica ou positivamente – por meio de certas práticas institucionais de poder, como objeto a ser dominado; e o sujeito constituído pelo próprio indivíduo, por meio das práticas de si, isto é, o sujeito no âmbito de sua autoconstituição.

Assim pontuado, na introdução de História da sexualidade –V.2 – O uso dos prazeres (1984) Foucault explica os deslocamentos teóricos que teve que realizar para abordar a questão do sujeito, contexto em que aparece a expressão “jogos de verdade”, quando, conforme o autor, este se propõe a “estudar os jogos de verdade na relação de si mesmo consigo mesmo e a constituição de si mesmo como sujeito, considerando como domínio de referencia e campo de investigação o que se poderia chamar de “história do homem do desejo” (1984, p. 12)”. Em A ética do Cuidado de

Si como Prática da Liberdade (2012) também esclarece sobre o problema das relações entre o sujeito e os jogos de verdade, que já não se referiam mais a práticas coercitivas – como no caso da psiquiatria e do sistema penitenciário, mas a uma prática de auto formação do sujeito.

No estudo sobre a sexualidade, dependendo de cada época e sociedade, encontram-se diferentes formas de expressão e seus significados são complexos.

Foucault, em História da sexualidade (A vontade de saber, 1988), aborda a questão do indivíduo que se constitui em sujeito delineada em uma investigação acerca da sexualidade, a partir da Idade Moderna (fim do século XVIII), sobre o sexo enquanto verdade última do sujeito, e de uma investigação genealógica sobre as práticas modernas de poder que normatizaram esse saber. Já nos volumes II e III da História da sexualidade, direcionará suas pesquisas acerca da constituição do sujeito de desejo. Para dar seguimento ao assunto aqui proposto, convém não perder de vista que, para Foucault, o indivíduo constitui-se como sujeito enquanto subjetividade, a partir de uma relação que ele estabelece consigo mesmo. É o que, então, se pretende expor a seguir.