1.6. Posição dos intérpretes frente a constatações e questionamentos expostos em 1.2
1.6.1. Da primeira constatação
1.6.1.3. Do Terceiro questionamento e suas respostas
Cada um dos representantes das diferentes propostas apregoa que a obra possui um único status e escopo, o qual se vincula à área específica que sustenta ser o caso? Ou cada um admite que a obra possua vários status e escopos, que podem ser vinculados a diferentes áreas da filosofia?
Se é claro que Cohen atribuía à primeira parte da Crítica da Razão Pura seu vínculo à área da Epistemologia, ou Teoria do Conhecimento das ciências naturais, já o vínculo da “teoria dos limites da razão pura” a quaisquer áreas do conhecimento não é identificado. Contudo, com certeza, podemos afirmar que Cohen não concede a nenhum desses status o vínculo seja à área da Psicologia ou à da Ontologia.
Cohen, em vários momentos de sua obra, é taxativo acerca de que as interpretações que atribuem à Crítica da Razão Pura o status de uma psicologia estão a deturpá-la. Algumas dessas passagens são as seguintes:
A crítica não é o exame dos poderes do conhecimento – isso que poderia talvez igualmente ser conhecido como psicologia –, mas o exame, de um ponto de vista objetivo, da ciência da razão pura, a título de ciência pura62.
Os interesses psicológicos deturpam estes pensadores [Fries e Herbart] munidos de um grande saber da crítica. Em lugar de perceberem o valor distintivo da filosofia na descoberta e exame dos motivos pertencentes à ciência - em lugar de se aterem à consistência da ciência e de examinar suas condições, querem traçar um catálogo dos processos espirituais que intervêm no conhecimento – procuram em tal tarefa o trabalho filosófico e enchem novamente a metafísica de invenções que lhes são próprias, em lugar de partir sem prejuízos dos fundamentos da ciência e reconhecer na característica crítica deles...63.
Em outra passagem, ao se referir ao modo como Kant descobre as categorias, Cohen impugna de uma só tacada, tanto o modo como a psicologia, quanto a ontologia o 60 Loparic, 2000, p. 272. 61 Loparic, 2000, p. 13. 62 KTE3 733. 63 KTE3 737.
fazem, vedando assim que a obra kantiana seja concebida como tendo o status tanto de uma psicologia quanto de uma ontologia.
... nós precisamos, antes de tudo, estabelecer o método que torna possível essa investigação. Existem dois métodos permitidos de ordenar os conceitos fundamentais do conhecimento. O primeiro busca em relação a isto que se chama “o Ente”, distinguir os conceitos principais que lhe são decisivos; o segundo tenta fixar, na análise dos processos da consciência, os elementos importantes. O primeiro tipo, metafísico, remonta a Aristóteles, que introduziu o termo “categoria”; o segundo, psicológico, pertence à filosofia moderna nas suas orientações mais diversas... É preciso rejeitar estes dois tipos de dedução categorial64.
O conceito de Ente não pode ser o princípio dos conceitos fundamentais do conhecimento... Se, todavia, deixamos de lado o conceito de ente e buscamos, a partir de um exame da consciência, compreender quais são as configurações fundamentais, que são as fontes do espaço e do tempo, somos lançados sobre um oceano sem dispor de nenhum compasso65.
No caso de Allison, como já vimos, ele concede à obra Kantiana um único status, o de Teoria do conhecimento. Na medida em que Allison atribui tal status em função do escopo da obra kantiana ser a sustentação do idealismo transcendental e na medida em que este é fundamentado na noção de condição epistêmica, ele se ocupa em demonstrar que tal idealismo não é nem ontológico nem psicológico e, assim, que o status de teoria do conhecimento que possui a Crítica da Razão Pura não é de cunho psicológico ou ontológico. O expediente que usa para impugnar essas últimas compreensões do empreendimento da obra kantiana é diferenciar condições epistemológicas de condições psicológicas e ontológicas, demostrando que o próprio Kant se posiciona contrário à legitimidade destas últimas. Assim, por condição psicológica, Allison entende:
Um mecanismo ou aspecto do aparato cognitivo humano ao qual se apela a fim de proporcionar uma descrição genética de uma crença ou explicação empírica de por que nós percebemos as coisas de uma determinada maneira. Isso pode ser entendido como incluindo o psicológico ou reduzindo-se a fatores psicológicos66.
Allison oferta, como exemplo de condições psicológicas, “os costumes ou os hábitos, tal como são usados por Hume em sua explicação da causalidade”67. Demostrando que condições psicológicas tanto conduzem à aquisição de crenças como as regram, Allison
64
KTE3 312-3.
65 KTE3 313.
passa a mostrar que Kant, por vezes, na Crítica da Razão Pura, apela a fatores psicológicos desse naipe “para explicar as origens de nossas crenças e percepções e inclusive nosso conhecimento na ‘ordem do tempo’ (der Zeit nach)”68.
Caracterizado condições psicológicas, ofertado exemplo e demonstrado que Kant faz uso delas em sua obra, Allison se atém a explicar que tal uso não é relevante para seus propósitos, dado que não as concebe como tendo validez objetiva, ou seja, não são condições necessárias para a representação de como objetos contam para nós, condições sem as quais não teríamos representação de objeto, ou seja, não dizem respeito à questio juris, mas à questio facti. Ademais, motivo de reprimenda de Kant a Hume que o acusa de atribuir ilicitamente às condições psicológicas o caráter de condições objetivantes, confundido assim questio facti com questio juris. Em assim justificando que tais condições psicológicas não possuem validez objetiva e que Kant impugna sua legitimidade, Allison parece querer provar que toda compreensão do idealismo transcendental de Kant que lhe atribui apelar a condições psicológicas, estados subjetivos ou representações mentais está equivocada, dado que seria impugnada pelo próprio Kant.
Passo contínuo, Allison define condições ontológicas como “condições de possibilidade do ser das coisas”, isto é, “como condição de possibilidade das coisas como são em si mesmas”69
, tendo existência independente das condições do agente do conhecimento. Os exemplos que oferta de condições ontológicas são as concepções de espaço absoluto e de tempo absoluto sustentados por Newton. Na sequência, Allison busca demonstrar que Kant considera inconsistente e o absurda a concepção de Newton sobre o espaço e tempo absolutos citando a passagem em que Kant afirma que ele concebe “dois seres eternos subsistentes por si (für sich bestehende) que existem (embora não exista nada real) só para conter em si todo o real” ( KrV A 39 / B 56)70
. Ademais, Allison busca demostrar que Kant, ao atribuir a Newton uma concepção ontológica de espaço e tempo, acusa-o de se comprometer com a consequência de que estas, sendo condições da existência das coisas em si, devem ser também condições da existência do próprio Deus. Em assim Allison provando que Kant impugna as condições ontológicas, buscar provar que o idealismo transcendental kantiano não pode ser concebido como ontológico, nem que sua teoria do conhecimento tenha tal viés.
Como já vimos, Kitcher atribui um único status e escopo à obra kantiana, apesar de não se ocupar, em seu livro, em demonstrar como Kant implementa-o em sua 67
Allison, 1992, p. 41.
68 Allison, 1992, p. 41. 69 Allison, 1992, p. 42.
integralidade. Em sendo assim, a questão que se impõe é saber se o status e o escopo que Kitcher atribui à obra de Kant têm vínculo estreito com as investigações feitas em outras áreas do conhecimento, ou se atribui à obra algum outro status ou escopo vinculado à outra área do conhecimento que não seja a psicologia transcendental.
Kitcher procura justificar que a psicologia transcendental kantiana opera tarefas similares às que operam a psicologia empírica, mas não as mesmas, dado, por um lado, que considera ser função da primeira orientar as tarefas da última e, por outro, considera que a psicologia transcendental é também uma epistemologia e um ramo da filosofia, dado que na investigação que faz das faculdades, em vista da descoberta de seus elementos a priori contributivos a determinadas tarefas cognitivas, seu interesse é estritamente epistemológico e filosófico, como podemos notar na passagem a seguir:
A psicologia transcendental é um tipo de psicologia e tem marcantes afinidades com a psicologia empírica: ela produz assunções empíricas sobre as capacidades cognitivas; ela tem a mesma matéria por base; poder orientar a pesquisa empírica. Por outro lado, na tentativa de determinar o que a mente deve contribuir para que as várias tarefas cognitivas sejam possíveis, suas preocupações são epistemológicas e suas especificações são abstratas ficando longe do trabalho paradigmaticamente empírico. Por isso, ela também é epistemologia e um ramo da filosofia71.
Em assim identificando psicologia transcendental e epistemologia e atribuindo-a a um ramo da filosofia, Kitcher considera que não se precisa fazer uma disjunção entre psicologia transcendental e epistemologia, dado que considera que tal disjunção é apenas uma “tendência de colocar os estudos sob uma disciplina ou outra; mas na realidade eles podem pertencer a ambas”72.
No entanto, apesar disso Kitcher sustenta que é mais apropriado atribuir à Crítica da Razão Pura o status de uma psicologia transcendental do que o de uma epistemologia. O motivo que apresenta é basicamente o seguinte: o escopo transcendental da Crítica da Razão Pura está voltado bem mais para a investigação e demonstração de que e como diferentes faculdades contribuem cada qual com específicos elementos, que lhe são originários a priori, para o desempenho de diversas tarefas cognitivas, do que voltado à demonstração de que determinadas condições epistêmicas são necessárias para a representação de objetos de uma
70
Allison, 1992, p. 42.
71 Kitcher, 1990, p. 26. 72 Kitcher, 1990, p. 26.
experiência possível, que é geralmente a alegação central de quem sustenta ser a Crítica da Razão Pura uma epistemologia73.
Já Heidegger só visualiza um único status e escopo à obra kantiana, que é o de uma ontologia, exposta nas seções da Estética transcendental e da Analítica transcendental e, nesta última, somente até a seção do Esquematismo transcendental. Em assim delimitando sua proposta sobre essa obra kantiana, Heidegger se exime de tecer quaisquer comentários sobre as outras divisões e seções da obra.
Strawson, como já vimos, atribui à Crítica da Razão Pura o status e uma metafísica da experiência devido à realização do escopo que é executado estritamente nas seções da Estética transcendental e da Analítica transcendental, mas reconhece que a investigação pertinente à seção da Dialética transcendental visa outro escopo. Contudo, não liga a execução desse escopo a nenhuma área do conhecimento.
Loparic, como interpretamos, atribui um status geral e dois status específicos à Crítica da Razão Pura. Seu status geral é o de uma “teoria da solubilidade dos problemas necessários da razão”. Já seus status específicos são o de uma Semântica transcendental, vinculado ao escopo que executa nas seções da Estética transcendental e na Analítica transcendental, e o de uma Metodologia a priori da pesquisa empírica sobre a natureza, devido ao escopo que executa na Dialética transcendental. Em sendo assim, podemos dizer que o primeiro se encontra vinculado à área da Lógica e da Filosofia da Linguagem, enquanto o segundo se encontra vinculado à Heurística, como ramo da Epistemologia.