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6 DISCUSSÃO E IMPLICAÇÕES

6.1.3 Docência reconhecida como atividade do preceptor

Como apresentado no início do capítulo, a preceptoria é uma atividade que engloba múltiplos papeis. As atividades desempenhadas pelos preceptores são diversas e de diferentes ordens: técnica, docente, ética e moral (MISSAKA, RIBEIRO, 2011; ROCHA; RIBEIRO, 2012; PONTES, 2005; NASCIMENTO, 2008; ROSSONI, 2010). A preceptoria é temática controversa na literatura científica e nos documentos oficiais, o que favorece o desenvolvimento de diferentes práticas (PAGANI; ANDRADE, 2012). Contudo, o aspecto comum desse processo é a perspectiva pedagógica da preceptoria, elemento poucas vezes presente no currículo dos profissionais que exercem a função de preceptor, o que lhes causa desconforto: “sou profissional de saúde, não professor”, “não sei ensinar”, “nunca fiz pesquisa na vida” (BOTTI; REGO, 2011, p. 50).

Reporto-me às narrativas dos preceptores que enfatizaram o aspecto pedagógico da preceptoria, nas quais revindicaram o reconhecimento do seu exercício, além de reforçarem a importância de suas atividades teórico práticas. Os preceptores registram as múltiplas demandas

exigidas e desejam o reconhecimento da docência na RMS. Buscam o reconhecimento da atividade docente por meio de certificação que os possibilite comprovar, em outros cenários, que atuavam como docentes na RMS. Dentre as atribuições do preceptor, reconheço que eles realizam atividades educativas, contudo a realização de docência na RMS não consta nas atribuições da resolução CNRMS nº 2, de 13 de abril de 2012.

Ribeiro e Prado (2013) arguem que o preceptor conduz o processo de ensino- aprendizagem e modifica as atividades desenvolvidas no contexto do trabalho. Ainda, as autoras questionam: ser preceptor é ser professor? O que elas sugerem é o estabelecimento de um espaço intercessor entre o docente da Instituição de Ensino Superior (IES) e o profissional da assistência, no qual preceptores e tutores se colocam como mediadores entre o mundo do ensino e o mundo do trabalho. Para isso, propõem uma formação pedagógica que proporcione aos preceptores apropriação do saber de ensino e aprimoramento do seu papel de educador no âmbito do trabalho.

Diante disso, Ribeiro (2015) assevera que os preceptores apenas se reconheceriam como docentes se houvesse uma formação pedagógica para este fim e salientam que a participação, em programas de pós-graduação stricto sensu, constituiu-se o suporte para as atividades educativas (RIBEIRO, 2015). Tal fato, neste estudo, apresentou diferentes compreensões. Os preceptores, participantes da pesquisa, também anseiam por embasamento pedagógico, desde que não seja aquele já instituído nos cenários da formação em saúde. Além disso, a maioria dos preceptores (cinco participantes) são mestres e dois estão cursando o mestrado, sendo que tais cursos não foram mencionados como suporte nas suas atividades de preceptoria.

Diante das múltiplas demandas que a preceptoria envolve, autores apontam o protagonismo do preceptor, como um dos responsáveis pela construção do conhecimento, mediando-o a partir de relação dialógica com o residente e requerendo, para tanto, aporte teórico-metodológico (RIBEIRO; PRADO, 2013). Assim, o preceptor incentiva a reflexão sobre a prática, a comunicação e o compartilhamento de ideias, o trabalho em equipe, a integralidade da atenção e a importância da educação permanente nos espaços do trabalho em saúde de tal modo que o processo de ensino-aprendizagem é relacionado à problematização do cotidiano. Nessa, é possível questionar as práticas e instrumentalizar o conhecer e o agir. Assim, a educação, como mediação na prática, serve de ponto de partida e de chegada do processo didático-pedagógico (GARCIA, 2001).

O processo de ensino na Residência Multiprofissionalapresenta aspectos diferenciados daqueles da sala de aula dos cursos de graduação. As relações vão além daquelas de educador e educando, já que envolvem trabalhadores em equipe e usuários. Os conteúdos abrangem

aqueles de caráter técnico informativos e as questões formativas éticas, morais, psicológicas, ligadas às relações estabelecidas (GARCIA, 2001). Nesse sentido, a Residência Multiprofissional é a interface entre a universidade e o trabalho. Será que a formação pedagógica do preceptor contemplaria as necessidades da formação para o trabalho? O espaço entre a formação na graduação e o trabalho se beneficiaria de mais um docente? Para aprender a trabalhar em equipe é necessário um trabalhador ou um professor? Será que a ideia de um grupo que ensina e outro que faz não deveria ser superada?

Tornar-se educador é uma construção, um conhecer, conhecer-se, conhecer o outro, rever, realizar, mudar. Para isso, apenas o conhecimento científico, técnico não é suficiente, mas é necessário a experiência, a vivência, a interação. Importa a postura do educador como profissional, como membro de uma equipe, como pessoa (GARCIA, 2001). Essa preocupação é direcionada ao fato de preceptores saberem muito a respeito de determinado conteúdo e terem alcançado sucesso na carreira. Tal fato não garante o desenvolvimento adequado do exercício do ensino, nem da pesquisa, necessitando de estímulos permanentes para a reflexão e a proposição de alternativas viáveis de ensino e aprendizagem (BATISTA, 2005).

A preocupação com a aprendizagem do residente faz com que o preceptor busque por saberes que são necessários à sua prática pedagógica:

[...] ensinar um certo conteúdo não deve significar, de modo algum, que o ensinante se aventure a ensinar sem competência para fazê-lo. Não o autoriza a ensinar o que não sabe. A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer uma formação permanente do ensinante. Formação que se funda na análise crítica de sua prática (FREIRE, 2001b, p.259).

A partir disso, reconheço que as diferentes atribuições dos tutores e dos preceptores acontecem de modo a viabilizar a proposta da RMS, porém com singularidades de cada atuação, sem que o papel do preceptor tenha as mesmas atribuições do papel docente ocupado pelos tutores dessa Residência.

O preceptor é um trabalhador que ensina residentes na sua prática cotidiana. Em virtude disso, o elemento pedagógico mobiliza-os a procurar subsídios para sua atuação. Os participantes do grupo de discussão manifestaram a necessidade de buscar formação pedagógica para desenvolver as atividades na RMS. Por outro lado, podemos pensar que tal formação levaria a um maior reconhecimento da importância da sua atuação na RMS, o que é

fundamental nesse cenário. O reconhecimento do preceptor, enquanto profissional que ensina, pode ser estratégia para a valorização de seu trabalho.