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2 DOCUMENTO, INFORMAÇÃO E AS FORMAS DE EXERCÍCIO DE PODER

Foucault chama de “medida”, “inquérito” e “exame” a formas de exercício de poder e de estabelecimento de regras do saber analisadas nas formações históricas antiga, medieval e moderna. A “medida”, ordenadora, é matriz da matemática e da física. O “inquérito”, que busca reconstituir fatos, matriz dos saberes empíricos e das ciências da natureza. E o “exame”, que serve ao controle dos indivíduos, é matriz das ciências do homem, “correspondendo a

medida à uma função de ordem, o inquérito à uma função de centralização, o exame à uma

função de seleção e de exclusão” (FOUCAULT, 1997, p. 20)

O panoptismo, metáfora foucaultiana do disciplinamento social engendrado na emergência da urbe moderna, repousaria sobre a forma de exercício do poder e de regras de saber que chama de “exame”34

e lançaria mão de técnicas de quantificação da “medida” e de centralização do “inquérito”, numa articulação aplicada ao homem, primeiro em vista de sua vigilância (poder), depois em vista da construção de seu conhecimento (FOUCAULT, 2013, p. 88). O exame proporciona a passagem do indivíduo vigiado (nos hospitais, escolas, exército, prisões, fábricas etc.) ao homem como objeto de estudo, produzido documentalmente nestes ambientes de controle. “O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame” (FOUCAULT, 2012, p. 164)

A vigilância supervisora se assenta no controle pela observação dos indivíduos uns sobre os outros, distribuídos em hierarquias onde “cada olhar seria uma peça no funcionamento global do poder” (FOUCAULT, 2012, p. 165). Pressupõe o uso de tecnologias de centralização do “inquérito” por práticas microdistribuídas.

Para a sanção normalizadora conta-se com indicadores quantitativos da população observada, gerando uma “contabilidade penal, constantemente posta em dia, [que] permite obter o balanço positivo de cada um” (FOUCAULT, 2012, p. 173-174). Pressupõe as tecnologias da “medida”, com o registro de quantidades que enquadram as individualidades.

O uso de tecnologias típicas da “medida” e do “inquérito” na forma moderna do “exame” permitiu a construção de um saber baseado na observação empírica controlada por

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As formas do inquérito e da medida são trabalhadas por Foucault nas diferentes formações históricas. O inquérito, que é o modo de dominação da Idade Média, teria seu nascimento no pensamento grego (FOUCAULT, 2013, p. 22). Do mesmo modo, há o modo de exame na antiguidade como autoexame, exame de si, sem parâmetros externos (CASTRO, p. 59) e o exame como confissão e contrição na Idade Média, que será apresentado nesta comunicação. Portanto, estes três modos apresentam diferentes configurações, aplicações e dominância em cada formação histórica.

regras (ciências humanas e sociais), ensejando a construção e difusão de modelos que serve ao ordenamento social e cria novas sociabilidades, ambos guiados pelo discurso autorizado, oficial (de autoridades) e validado (por práticas institucionalizadas). Nada disso se instala da noite para o dia e muito menos sem resistências, negociações e renegociações. Também a maneira de produzir e as funções do documento e dos artefatos de informação modernos não se instalam imediatamente e reutilizam métodos e critérios já instalados, interessando-nos destacar aí a reutilização das tecnologias do documento/arquivo e dos artefatos de informação criados na Idade Média.

Considerando as funções, a produção e os efeitos do documento e da informação documental (daqui para frente artefato de informação) em González de Gómez (1990; 1999; 2001) e Frohmann (2004; 2008), especialmente em seus trabalhos alicerçados em Foucault, esta comunicação busca, nas formas documentais emergentes entre os séculos XII e XIV, aspectos de modelação e controle que seriam reutilizados na construção dos documentos e artefatos de informação modernos.

Para Frohmann, numa perspectiva construcionista (TALJA; SAVOLAINEN, 2004), o documento, entendido como discurso no sentido foucaultiano, é produto de práticas sociais microdistribuídas e institucionalizadas e produz efeitos de realidade. Para González de Gómez, atualmente o regime de informação35 condiciona as esferas do social, do político e do econômico, de modo que ações e práticas sociais pressupõem a busca por artefatos de informação que estão colocados ao dispor por dispositivos36.

A articulação destes teóricos nos coloca um circuito de práticas que compilam, documentam e modelam (criam modelos) a realidade. Modelos são colocados ao dispor como artefatos de informação, que são buscados e apropriados nas práticas sociais (escolar, médica, política, hospitalar). É com base no sentido de controle por compilação, modelação, validação e difusão que se examinam aqui alguns tipos documentais emergentes entre os séculos XII e

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Para Foucault, a vontade de verdade é um sistema de coerção que coíbe, por procedimentos institucionalizados, autoridades e lugares, discursos não autorizados, apontados como não verdadeiros: regime de verdade. A verdade, posto isto, é um produto e um exercício de poder. Para González de Gómez (2001, p. 6), na sociedade contemporânea “o regime de informação, que inicialmente foi considerado como subsidiário dos regimes de verdade, agora se apresentaria como sua substituição”.

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O que encontramos disponível como “artefatos de informação” (produtos), estão colocados ao dispor a partir de um circuito com regras e procedimentos institucionalizados (mediação), que operam sobre as esferas produtivas. A este aparato de condicionamento à reutilização de informações validadas González de Gómez (1999, p. 6 e 26) chama dispositivo, que “e reúne uma memória de ações de informação [...] junto com todos os instrumentos e meios disponibilizados pelo ambiente cultural”.

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XIV, quando são criados novos documentos para as atividades de comércio, crédito, administrativas, jurídicas e judiciais.

Estas novas formas registram regras gerais ou recíprocas, compilam e sumarizam dados, apuram, mensuram e tratam de medidas, numa conjugação entre litterae (letras, latim) e numerus (números, quantificações) que pode ser observada pelo prisma da criação e articulação de tecnologias das formas do “inquérito”, da “medida” e do “exame”.

Tomando as concepções conceituais de González de Gómez e Frohmann, examinam- se as descrições dos tipos documentais criados no período, conforme historiadores do medievo, especialmente Jacques Le Goff. Os tipos documentais, suas funções e características são descritos e relacionados com as formas de exercício do poder analisadas por Foucault: os de finalidade quantificadora e organizadora de atividades medievais são analisados segundo a forma “medida”; os de finalidade mapeadora de situações para tomada de decisão são analisados segundo a forma “inquérito” e os de finalidade de difundir modelos de comportamento e sociabilidade são analisados segundo a forma “exame”.

A primeira parte desta comunicação dedica-se a apresentar elementos relevantes para contextualização histórica do surgimento de diversos tipos documentais associados às novas atividades e seus modos de controle. Em seguida, examinam-se os tipos documentais construídos por litterae e numerus, e as tecnologias para seu estabelecimento e difusão, sob o prisma das três formas descritas por Foucault: a medida, o inquérito e o exame. Nas considerações finais busca-se indicar a reutilização de tecnologias da escrita e do número, construídas entre os séculos XII e XIV, na produção de documentos e artefatos de informação modernos.

3 CONTEXTO DA CONSTRUÇÃO DE NOVOS DOCUMENTOS ENRE OS

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