2 DESVENDANDO A ESFINGE DA PESQUISA CIENTÍFICA
2.3 Instrumentos de análise para um estudo de caso interpretativo
2.3.4 Documentos como fontes de dados e evidências
Como vimos, a estruturação de um desenho de pesquisa é essencial para definirmos a abordagem metodológica a ser utilizada. De forma mais clara, o que se busca inferir
determinará a metodologia capaz de alcançar as pretensões propostas no desenho de pesquisa. Além da abordagem metodológica, o desenho de pesquisa será responsável por delimitar os instrumentos e as técnicas de pesquisa a serem utilizados.
Dessa maneira, a natureza do problema de pesquisa é a responsável por definir a abordagem metodológica, a maneira de realizar a pesquisa e os instrumentos e as técnicas que serão utilizados para realizar inferências válidas. Seguindo os ensinamentos de Flick (2009, p. 24): “o objeto de estudo é o fato determinante para a escolha de um método, não o contrário”. Em relação aos instrumentos de pesquisa, isto é, a técnica a ser empregada para a realização do trabalho científico, deve ser pensada de forma estratégica e contundente, adequando-se ao objeto proposto na pesquisa. Nessa perspectiva, é importante selecionar as técnicas e os dados a serem utilizados de acordo com o objeto proposto.
Um objeto de pesquisa que requeira uma abordagem qualitativa, mais especificamente uma análise de um estudo de caso, necessita de um estudo aprofundado, no qual se utilizem dados existentes sobre o objeto investigado; pois, ao se tentar compreender os mecanismos e a interação dos agentes no contexto em que se desenvolveu o fenômeno social, deve-se adotar uma técnica de pesquisa capaz de possibilitar esse entendimento (BAUER; GASKELL, 2002).
Assim, na perspectiva de compreensão de um fenômeno político ou social, o pesquisador deve estar atento para utilizar as técnicas e fontes de dados que melhor se adaptem e o possibilitem alcançar suas proposições de pesquisa.
De maneira concisa, a pesquisa empreendida tem uma abordagem ontológica antifundacionista, uma lógica epistemológica interpretativista e uma perspectiva metodológica qualitativa com a utilização do método de estudo de caso, em que se busca a compreensão do fenômeno em análise, qual seja, o “mensalão”.
O fenômeno social “mensalão” originou-se de uma prática institucional informal e repudiada pela sociedade. Devido a isso, os envolvidos negaram de diversas maneiras o seu envolvimento, restando apenas registros jornalísticos, alguns relatos e o conteúdo processual (Ação Penal n.º 470). Dessa forma, pela contemporaneidade e informalidade dos eventos, o fenômeno deve ser estudado conforme os registros sobre ele existentes.
Assim, as fontes de dados que explicam a origem, os processos causais, a relação e interação dos agentes, as instituições, o contexto, etc. são apropriadas para atingir nossas pretensões de pesquisa. Além de que dados capazes de explicações contextuais são de grande valia para o desenvolvimento do trabalho (FLICK, 2009).
Existem objetos de pesquisa que demandam uma análise de dados específicos para a compreensão do fenômeno. Não adianta tentar compreender a origem, os mecanismos e fatores contextuais de um evento por meio de análises estatísticas; é preciso apropriar os instrumentos ao desenho de pesquisa escolhido. Assim, pretendemos compreender o fenômeno do “mensalão” pela análise de documentos da Ação Penal n.º 470, recorrendo, algumas vezes, quando necessário, aos documentos jornalísticos.
Os documentos são importantes fontes de dados para a compreensão de um fenômeno social, pois proporcionam ao pesquisador o entendimento sobre como ocorreu a sua formação, os seus mecanismos, as relações e interações dos agentes e das instituições envolvidas em um contexto específico. A depender de sua origem, mostram-se como ferramentas úteis e confiáveis para construir inferências válidas na pesquisa (FLICK, 2009; GIL, 2008).
Nesse sentido, os documentos de instituições governamentais são frutíferos e confiáveis para compreender um evento que ocorreu no cenário dessas instituições, por exemplo, os projetos de lei, relatórios de órgãos, sentenças judiciais, acórdãos, deliberações etc. Por meio deles, será possível compreender o desenvolvimento de um fenômeno social em uma arena institucional.
Ainda, associados aos documentos institucionais, existem os documentos de comunicação de massa, tais como fontes de dados de jornais e revistas. Estes possibilitam ao pesquisador conhecer os aspectos sociais e compreender os fatos passados. Porém, devem ser tratados com cuidado, pois têm objetivos diversos dos trabalhos científicos, os quais são mais rigorosos na investigação e no aprofundamento dos fatos (GIL, 2008).
Os documentos produzidos pelos meios de comunicação são importantes por relatarem questões, às vezes, não contempladas nos documentos institucionais; ou seja, por eles, é possível compreender fatores e interações sociais não considerados por documentos formais devido às informalidades presentes nessas relações. Dessa forma, os documentos jornalísticos mostram-se proveitosos e complementares aos documentos oficiais de instituições governamentais (BAUER; GASKELL, 2002).
De forma complementar às fontes relatadas, a literatura também é uma importante fonte de dados na explicação de um fenômeno, seja como forma de explicar os estudos passados que podem ser utilizados como referência, seja estimulando questionamentos durante a análise do material. A literatura torna relevante a fundamentação da argumentação do pesquisador, pois o auxilia a verificar se suas descobertas estão de acordo ou se contradizem ao que fora pesquisado anteriormente (FLICK, 2009).
A literatura é exaustivamente utilizada nos trabalhos científicos, pois possibilita o conhecimento prévio de questões cujos entendimentos serão primordiais para a análise e interpretação dos fatores contextuais. Assim, ao utilizar os insights e as informações existentes na literatura sobre o contexto, a agência e a estrutura, o pesquisador poderá verificar e analisar as observações sobre a sua pesquisa com um olhar mais interpretativo e analítico.
Como um estudo de caso demanda um exaustivo exame de dados, é importante a associação de diversas fontes, as quais proporcionarão ao pesquisador o aprofundamento esperado no estudo e a compreensão do fenômeno social.
Ao optarmos por utilizar uma narrativa analítica com enfoque conteudístico e a explicação por mecanismos, esses instrumentos nos capacitarão a uma interpretação das relações causais do objeto escolhido (Ação Penal n.º 470), penetrando nos fatores contextuais que influenciaram a existência do fenômeno, bem como nas decisões e ações dos atores envolvidos e suas interações para alcançar os resultados pretendidos.
A problematização de nossa pesquisa centra-se no seguinte questionamento: quais são os mecanismos que ensejaram o fenômeno social “mensalão”? A partir desse problema, pretendemos identificar as peças e os mecanismos que interagiram para a formação do fenômeno, mostrando, assim, as escolhas e os interesses dos atores responsáveis por esta interação.
Formulamos três hipóteses a serem verificadas e testadas durante a execução de nossa pesquisa. Como primeira hipótese a ser verificada é a de que a necessidade em adquirir apoio no Congresso Nacional para garantir a governabilidade gerou o surgimento do “mensalão”. Em outras palavras, acreditamos que a necessidade de assegurar a boa governabilidade do Poder Executivo, no caso, do partido da base governista, fez desenvolver-se o fenômeno social do “mensalão”.
Uma segunda hipótese formulada a ser verificada é a de que as escolhas dos atores foram responsáveis por originar o fenômeno social “mensalão”. Assim, as escolhas feitas pelos atores envolvidos no processo possibilitaram o surgimento do fenômeno social.
Como terceira e última hipótese a ser verificada, é de que a teoria do presidencialismo de coalizão não é capaz de identificar as instituições informais presentes em fenômenos sociais como o “mensalão”. Dito de outro modo, a tese do presidencialismo de coalizão prevê apenas instituições formais responsáveis pela coalizão entre o Legislativo e o Executivo, ignorando a influência e interação das instituições informais, as quais também podem ser responsáveis por delinear fenômenos sociais.
Portanto, por meio das ferramentas ontológicas, epistemológicas e metodológicas citadas será possível identificar as peças e mecanismos existentes no fenômeno social, quais sejam, os atores, as instituições, seus interesses e escolhas ao longo do processo de formação do “mensalão”.